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Por que o terrorismo funciona?

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Explosão deixa mais de 20 mortos na Nigéria. Explosão de carro-bomba mata ao menos 34 na Síria. Explosão em cinema durante jogo do Brasil mata 21 na Nigéria. Explosão em exibição de jogo da Copa deixa ao menos 48 mortos no Quênia. No dia seguinte, outro atentado; ao menos 60 pessoas mortas.

Isso tudo desde o início da Copa.

O mais triste é perceber que os exemplos dados acima são corriqueiros. Acontecem a todo momento, embora sem uma precisão temporal – e, por isso, são tão difíceis de prevenir. E, por ocorrerem do outro lado do mundo, em uma região relegada ao fanatismo radical religioso, não recebem a atenção que merecem.

Parece importar só quando ocorre do “nosso lado do mundo”.

Depois de ataques terroristas como os de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos; os de 11 de março de 2004 em Madri; os de 7 de julho de 2005, em Londres; os de 15 de abril de 2013, na Maratona de Boston; mobiliza-se uma quantidade maciça de recursos para proteger os alvos mais preciosos. Mas os alvos mais preciosos são as vidas das pessoas, e não há recurso suficiente para proteger a todos. Infelizmente.

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O terrorismo é eficaz?

Nos manuais militares norte-americanos, define-se como terror “a utilização calculada, para fins políticos ou religiosos, da violência, da ameaça de violência, da intimidação, da coerção ou do medo”.

O terrorismo é eficaz porque inflige custo a todos, não apenas às vítimas diretas. O mais substancial desses custos indiretos é o medo de um ataque futuro, embora esse receio seja extremamente exagerado. A probabilidade de que um americano morra, em determinado ano, de um ataque terrorista é de aproximadamente 1 em 5 milhões. A chance de que cometa suicídio é 575 vezes maior. As probabilidades relacionadas aos outros ocidentais são ainda menos relevantes.

Outros dados, todos relacionados aos americanos, nos Estados Unidos, mostram quão irrelevantes são as mortes por terrorismo: 115 pessoas morrem em acidentes de carro todos os dias; ou seja, pouco menos de 42 mil pessoas por ano. Uma estimativa de 125, por precariedade ao acesso do sistema de saúde; 45 mil por ano. Mais de morrem por doenças relacionadas ao tabaco; por volta de 480 mil por ano. A quantidade de mortos, no ataque terrorista de 11 de setembro, não chega aos três mil. Comparativamente, são pouco mais de oito mortes por dia.

Então, por que é eficaz?

Em uma ampla visão de mundo, um atentado terrorista é apenas um ponto em um radar, sumindo tão rapidamente quanto surgiu. Mesmo assim, cria uma resposta emocional muito maior.

Por quê?

Pesquisas no campo psicológico mostraram que os seres humanos têm vários gatilhos de medo, gatilhos que nos deixam mais propícios a ficar com medo do que a própria ameaça merece.

Um dos gatilhos diz respeito ao ato de violência ser aleatório. Se um ato de violência é dirigido a um indivíduo específico ou grupo, é fácil lidar com isso como se fosse o problema de outra pessoa. Eles podem morrer, mas nós estamos à salvo. Mas quando é aleatório, nossas mentes tem a bela tendência de sempre assumir que seremos os próximos. É a mesma tendência que obriga as pessoas a comprarem bilhetes de loteria; a frágil noção de que, de alguma forma, seremos o próximo um em um milhão.

Terrorismo é uma tática psicológica de guerra. Todo o seu poder surge do aproveitamento das imperfeições da mente humana e da tendência das pessoas em tomarem decisões estúpidas quando estão com medo.

É eficaz porque é bem sucedido mesmo quando falha.

Terrorismo é público. O terrorismo é intencionalmente direcionado para lugares públicos, pois, mesmo que não atinja muitas pessoas, muitas pessoas serão testemunhas e serão afetadas por isso. Há um simbolismo no terrorismo. Quanto maior for a significância do evento, maior será a magnitude da violência percebida pelas pessoas.

Em 22 de dezembro de 2001, em um vôo de Paris para Miami, Richard Reid embarcou no avião com explosivos em seu sapato – que ficou conhecido como bomba-sapato. O explosivo não funcionou, e, mesmo não conseguindo detonar sua bomba-sapato, impôs um alto preço à sociedade.

Digamos que descalçar e calçar os sapatos nos aeroportos demore um minuto. Só nos Estados Unidos, esse procedimento acontece 560 milhões de vezes por ano, perfazendo 560 milhões de minutos ou mais de 1065 anos – que, dividido por 77,8 anos (a expectativa de vida média dos americanos ao nascer) dá o total de 14 pessoas-vida. Portanto, ainda que não tenha conseguido matar uma única pessoa, Richard Reid lançou um imposto que equivale em tempo a 14 vidas por ano. – Superfreakonomics, Pág. 60-61.

O velho clichê de que o medo vende.

Graças à rápida evolução da mídia, especialmente a internet, as recentes formas de terrorismo não têm como alvos inimigos específicos, mas a opinião pública mundial. Seu objetivo primário não é derrotar ou enfraquecer militarmente o inimigo, mas ganhar publicidade e inspirar o medo – uma vitória psicológica.

O terrorismo tira vantagem do fato de que medo vende. Humanos são programados para sentir mais o medo do que qualquer outra emoção, portanto somos mais propensos a compartilhar, televisionar, e sim, até a assistir a isso. Como resultado, difunde-se pela sociedade como um vírus, reforçando a ideia repetidamente para todos que a vejam: você é o próximo.

O que torna o terrorismo ainda mais desconcertante é que matar não é o objetivo em si. Ao contrário, é um meio para apavorar os vivos e estilhaçar suas vidas. Portanto, a eficiência do terrorismo é diabólica, exercendo muito mais impacto que qualquer espécie de violência não terrorista de mesma intensidade.

As mortes por ataques terroristas são danos colaterais: os assassinos não conhecem nem se importam com as vítimas, com as suas realizações, com quem amam e com as pessoas que as amam. As mortes são meramente instrumentais e aleatórias.

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Como surgiu o terrorismo?

O vocábulo “terrorismo” nasceu durante a Revolução Francesa, em 1789, mais precisamente na época conhecida como “Reino do Terror”, com o sentido preciso e restrito de “doutrina dos partidários do Terror”. À época, estes partidários eram os jacobinos, comandados por Maximilien Robespierre. Entre 1793 e 1794 o terrorismo ensanguentou a França e apavorou o mundo. Em apenas dez meses, 16.594 acusados de conspiração subiram ao patíbulo e foram guilhotinados, após passarem por processos sumaríssimos.

Com o passar dos anos, os terroristas assumiram as mais variadas colorações, aumentaram a escala de sua ação e foram vistos de forma negativa ou positiva dependendo do contexto no qual atuaram e, principalmente, de quem os qualificava. Assim, os guerrilheiros islâmicos, em atuação no Afeganistão, foram chamados de “insurgentes”, pelos norte-americanos, quando lutavam contra a dominação soviética durante a Guerra Fria, mas seus remanescentes se tornaram “terroristas” quando a União Soviética desapareceu e o seu alvo atravessou o Atlântico.

Quem são os terroristas?

Na grande mídia, o vocábulo “terrorismo” foi reservado apenas para a prática das formações militares irregulares, pois o que para uma nação era terrorismo, para outras era luta pela liberdade. Os bascos do ETA, os irlandeses do IRA, os “peshmergas” curdos, os palestinos de Al Fatah, os argelinos da Frente de Libertação Nacional ou os tchetchenos foram todos considerados terroristas, inclusive quando claramente lutavam pela autodeterminação de seus povos.

O terrorismo, como o vemos hoje, é especialmente de origem islâmica. E isso tem uma explicação muito clara: a presença maciça do Ocidente (leia-se Estados Unidos) no Oriente Médio. Não passa de uma autodeterminação dos povos de lá, assim como o ETA ou IRA ou tantos outros. Nesse enfoque, é válido ressaltar que o terrorismo, ligado ao fundamentalismo islâmico, tem foco numa origem material, não religiosa.

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Terrorismo não tem religião

É importante definir que a maior parte dos muçulmanos não é fundamentalista, e a maior parte dos fundamentalistas não é terrorista, mas a maior parte dos terroristas, atualmente, é de muçulmanos, que se declaram assim.

Mas por que os terroristas muçulmanos são declarados muçulmanos, mas os terroristas cristãos – exemplos como o ETA e o IRA – não são declarados terroristas cristãos? Resposta fácil: os terroristas de origem cristã não se declaram cristãos, diferente do que ocorre com os muçulmanos.

E isso é terrível para a religião muçulmana, porque os grupos terroristas contradizem diretamente os princípios e ensinamentos do Islamismo. O preconceito gerado é enorme, embora seja sem fundamento. Os estereótipos são perpetuados por toda forma de mídia através de informações grosseiramente incorretas sobre o Islamismo e os muçulmanos. Essas falsas propagandas acabam gerando atos de violência contra os muçulmanos.

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“Islamismo é terrorismo”

Mas explicar o fato de os muçulmanos serem o polo do terrorismo, na atualidade, pode ser resumida no fato de eles quererem os ocidentais fora do Oriente Médio. Porque um dia (início do século 20, mas com raízes na Revolução Francesa, no final do século 18), foram responsáveis pela desestruturação do Império Otomano, e agora (desde o final da década de 80) vem oprimindo o povo, majoritariamente islâmico, por meio de forças militares, políticas e econômicas.

Nos anos 1990, o empresário saudita Osama bin Laden (que viveu nos Estados Unidos até antes dos atentados de 11 de setembro) e sua organização Al Qaeda (“A Base” ou “O Método”), que, na década anterior, ajudaram os Estados Unidos a combater os ocupantes soviéticos do Afeganistão – e que até mesmo tinham sido treinados e financiados pelo Ocidente –, consolidaram o terrorismo indiscriminado antiocidental.

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O economista Alan Krueger, após uma pesquisa envolvendo 129 shahids (mártires) do grupo terrorista libanês Hezbollah, chegou à conclusão de que os terroristas tendem a ser oriundos de famílias de classe média, com boa escolaridade e renda alta. Com algumas exceções, esse padrão se alastra por quase todos os grupos terroristas – inclusive o mais famoso deles, a Al-Qaeda.

Mas há exceções. O Hamas e o Hezbollah introduziram uma nova forma de ataques terroristas, que são os suicidas – homens-bomba. Os homens que encaram essas missões costumam ser jovens e pobres, a quem foram prometidas duplas-recompensas: passagem direta ao paraíso e recompensas pecuniárias às famílias.

É um exemplo claro de como os terroristas contradizem os princípios e ensinamentos do Islamismo. O suicídio é completamente proibido no Islamismo, sem qualquer exceção e sem qualquer precedente na história da religião. Além de ser proibido, é uma blasfêmia; usar o nome do Profeta, de Alá e das escrituras sagradas para justificar um ataque contra a vida dos outros – e contra a própria.

É costume das pessoas pensarem em homens-bomba quando se fala de atentados terroristas. Homens que se sacrificam em nome de Alá. Essa é só uma das inúmeras formas de se infligir um ataque. Os terroristas nacionalistas dos anos 60 e 70 não morriam em seus ataques. Na verdade, eles atacavam de distâncias seguras, justamente para se manterem a salvos. Caso fossem capturados, seus aliados fariam de tudo para resgatá-lo.

Como conter o terrorismo?

Os esforços antiterroristas se concentram, tradicionalmente, em três atividades: reunião de dados sobre pessoas, monitoração eletrônica de conversas e seguir trilhas internacionais de dinheiro ilícito. A primeira é difícil e perigosa. A segunda, pode ser comparada a beber água da mangueira de um caminhão de bombeiro; é simplesmente muita informação. A terceira é um trabalho não apenas improvável de atingir sucesso, mas realmente impossível. Trilhões de dólares circulam pelos bancos no mundo todo dia. É como procurar por um grão de areia específico em uma praia.

O terrorismo é ainda mais hediondo e eficaz por ser quase impossível de evitar. Os terroristas contam com um repertório praticamente ilimitado de métodos e alvos. Sequestros de crianças, sequestros de mulheres, homens-bomba, carros-bomba, bombas em trens, metrôs e ônibus, assassinatos em massa.

A boa notícia é que há certa escassez de terroristas no mundo. É uma conclusão natural, levando-se em conta a relativa facilidade de executar um ataque terrorista e a relativa infrequência deles. A má notícia é que essa escassez torna muito difícil sua descoberta antes da consumação dos danos.


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  • Pra falar a verdade estou lendo o Pense Como um Freak e vi alguma menção a esse capitulo no introdução do livro, mas nunca cheguei a lê-lo.
    Vou dar uma olhada, obrigado pela recomendação.

  • Achei fantástico o texto, são pontos que parecem óbvios, mas é necessário que alguém os venha dizer.
    Após a leitura, a eficiência do terrorismo parece óbvia, obrigado pelas informações.
    Diga-se de passagem, ótimas fontes, Freakonomics é simplesmente fantástico, um dos meus livros favoritos de todos.

    • Bruno, já leu o livro seguinte dessa série do Freakonomics, “Como ser um Freak”? Eles voltam a abordar o tópico do terrorismo, comentando o fato de terem falado no livro do Superfreakonomics sobre o algoritmo que ajudaram a desenvolver para pegar suspeitos de terrorismo. É mais um caso bem interessante!

  • amigo do Nicholas

    O terrorism não funciona! Jamais funcionou! Ele tem, como mostra a História, seus momentos de glória: Alexandre, o grande, Gengis Khan, Bonaparte, Hitler, dentre muitos outros, e cada qual por motivos diversos (jamais justificáveis), nada mais foram do que terroristas.

    A face ruim do islamismo pode parecer estar tendo êxito. A História, em menos de um século, mostrará sua efemeridade.

    Para se falar sobre a Natureza humana é preciso transcender nosso tempo.

    Quanto às formas de combater terrorismo, afirmo que o autor deste texto, em termos de conhecimento tecnológico, desconhece o quê é possível ser feito atualmente, o que é perdoável, já que tudo está bastante bem ocultado.

    Escrever sobre a história, no momento em que ela está sendo feita, pode parecer presunção.

  • Rafael Leão

    Essa entrevista mostra muito de como o terrorismo de grupos muçulmanos queima o filme de toda a religião. Uma entrevista completamente cega da CNN mostra bastante disso.