Foi “só” 7×1

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Depois de uma derrota acachapante, o Brasil inteiro busca razões para o acontecido. Exatamente como na derrota contra a Holanda, em 2010, contra a França, em 2006 e 1998…

Pentacampeões do mundo, supremos – até então – apenas no futebol, nele exigimos a vitória sempre, como que para compensar a falta de vitórias em outros cantos da vida. Cada derrota se transforma numa eterna busca por “Onde está o Wally? ”.

A falta de estrutura do futebol brasileiro é algo a ser melhorado urgentemente? Sim, mas não por causa do 7×1. Colocar sobre uma derrota, em meio à profusão da dor, todo o peso de problemas estruturais do esporte no Brasil é da mesma ingenuidade com que nossa defesa brasileira assistiu à Blitzkrieg no Mineirão – 4 gols em 6 minutos.

Esse momento suscita todas as nossas convicções guardadas, aquelas que escondemos quando vencemos tal qual em 2002 – como se o futebol brasileiro fosse a oitava maravilha do mundo à época. Precisamos dar passos atrás, deixar de lado nossa perplexidade, ao menos por um instante, e tentar olhar o evento com mais serenidade.

Infelizmente, não existem 7 verdades sobre o jogo. Ele é mais simples, se resume ao lance ocorrido com 10 minutos do primeiro tempo. O Brasil pressionou a Alemanha, até sair o gol de Müller, em lance de escanteio. Não ocorreu falha tática no lance, apenas um erro de marcação individual. Bastou para o desabamento do time.

Müller marca contra o Brasil. Como diriam os personagens de "Worms": o primeiro de muitos
Müller marca contra o Brasil. Como diriam os personagens de “Worms”: o primeiro de muitos

A nossa amarelinha simplesmente sucumbiu no jogo. Os próximos 12 minutos foram de nervosismo aparente, em trocas de bola confusas na defesa, recuos inseguros para Júlio César, e chutões para que o “gigante” Bernard disputasse de cabeça com os “pequenos” defensores alemães. O time, aturdido, parecia esperar um golpe final, que veio aos 22 minutos. Ali, o jogo acabou oficialmente. Mesmo a torcida do Mineirão, única que resistiu à adversidade do primeiro gol, precisou pedir tempo para entender o que acontecia. Os jogadores, comissão técnica, torcida no estádio, eu no sofá e você, onde estivesse, paramos perplexos com o medo da eliminação, do não-título em casa, saltando aos nossos olhos, travando músculos.

Por que o time desabou? Não sou especialista para explicar. O descontrole emocional, no entanto, já se mostrava presente no 4×1 sobre Camarões, em que apenas Neymar manteve a tranquilidade para salvar o dia, ou no 1×1 contra o Chile, onde muita, muita gente chorou. Apareceu hoje, no 3×0 sofrido contra a Holanda, como uma nuvem sobre um time abatido desde terça-feira.

É por esse ponto que evoquei o coletivo. A pressão sobre os atletas não é algo ignorável. Nos apropriamos de nossos clubes, e especialmente da seleção, e com isso somos parte da derrota tanto quanto da vitória. Por que é tão difícil para nós aceitar que, para eles, é muito difícil também?

Sua vizinhança pode até ser dura e falar mal de você por causa de um escorregão, mas imagine lidar com a fantasia de milhares de pessoas especulando sobre sua vida pessoal, familiar e profissional por causa de um jogo. Se o atleta não tem habilidade para filtrar informações sem que aquilo abale sua confiança, é bem possível que ele afunde numa paranoia insuportável. Na cabeça dele, poderá avaliar cada ação com essa hipersensibilidade alterada e começar a temer qualquer passo imaginando os ataques pessoais que receberá. – Frederico Mattos

Nós precisamos amadurecer. Antes de melhorar a estrutura caseira – muito carente de avanços – precisamos aprender a perder, o que nunca soubemos. A Espanha tem um futebol muito mais estruturado que o nosso, e saiu na primeira fase. O mesmo ocorreu com o futebol mais rico do mundo, o inglês, e com a tradicionalíssima Itália. Falta de estrutura e corrupção no futebol existem como formigueiros na América Latina, e tivemos campanhas incríveis de Chile, Costa Rica, Colômbia, além da Argentina, na final.

Não foi a vitória da estrutura sobre o jeitinho. Não foi a vitória da competência sobre a malandragem. Foi a vitória da melhor seleção da atualidade contra uma seleção – e uma nação – com mais medo de desabar do que vontade de ganhar. Desabamos. Busquemos estrutura, técnica e tática, mas antes temos que nos reerguer.


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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.