Conceitos de Storytelling #1 – Paradigma

Tempo médio de leitura: 9 minutos

Histórias são contadas há milênios, desde que os homens das cavernas se sentavam ao redor de uma fogueira, passando pela literatura e pelos teatros da Grécia, os menestréis medievais, chegando ao rádio, televisão, cinema mudo, quadrinhos e, mais recentemente, o cinema 3D. Mesmo contadas das mais variadas formas, pelas mais variadas culturas, nos mais variados lugares, todas as histórias possuem, em maior ou menor grau, uma mesma estrutura, que foi denominada paradigma – termo cunhado por Syd Field.

Syd Field, guru dos roteiristas de Hollywood
Syd Field, guru dos roteiristas de Hollywood (1935-2013)

Um dos aspectos mais interessantes das histórias é a falta de uma fórmula. Existem princípios, mas não regras. Princípios são gerais por natureza; diferente das regras, os princípios afirmam com veemência que “isso funciona… e vem funcionando desde os inícios dos tempos”.

O que se pode dizer é que boas histórias têm forma. Podem ser comparadas a uma unidade sinfônica, na qual estrutura, ambiente, personagem, gênero e ideia se fundem. Com o intuito de descobrir sua harmonia, o escritor deve estudar os elementos da história como instrumentos de uma orquestra – primeiro, separadamente, depois, em concerto.

Esse texto, primeiro no tema de Storytelling, é uma introdução à forma.

Paradigma

O que é um paradigma? Um conjunto de princípios norteadores.

Pense numa mesa. Ela pode ser de madeira, metal, ter três ou quatro pernas, tampo redondo, hexagonal, triangular, de cor branca ou marrom. Como sabemos então o que é uma mesa? Ao olharmos, vemos a forma, o seu paradigma. Uma mesa é um tampo apoiado por pernas. Esse é o princípio.

Pense numa história. Ela pode ser de ação, drama, comédia, suspense, mistério, terror. Ela pode ter – no caso dos filmes – 90, 100, 120, 180 minutos; no caso dos romances – 300, 500, 900 páginas. Pode ter um protagonista ou vários. O que todas as histórias têm em comum, em maior ou menor grau, é o seu paradigma, a sua forma. Assim como a mesa, costuma ser apoiada em pernas. E, geralmente, as histórias são apoiadas em quatro pernas: Ato 1, Incidente Incitante, Ato 2 e Ato 3.

Os atos dizem respeito à forma fundamental. O Incidente Incitante faz parte do primeiro ato e, devido à sua complexidade, será abordado em um post próprio.

Paradigma diz respeito a formas eternas e universais

Pensando na forma das histórias, Aristóteles, na sua lendária obra “Poéticas”, nos ensinou o básico: “Todo é o que tem princípio, meio e fim”.

A sentença, apesar de óbvia, tem o seu poder. Tudo o que produzimos têm início, meio e fim, bem como nossa própria vida e a maioria das coisas à nossa volta. A história é uma metáfora para a vida, contada sem as partes chatas.

Princípio, meio e fim tornam-se os componentes básicos da estrutura de uma história, os Atos. Por ora, basta compreender que cada Ato corresponde a um dos momentos definidos por Aristóteles. Uma história pode ter vários Atos – como Shakespeare, que costuma apresentar cinco -, mas o cenário mais comum, abordado no Paradigma, é composto por três:

Ato Um – Apresentação

Aqui a história é apresentada: seu assunto, a motivação do(s) personagem(ns), o contexto. Você deve estabelecer: 1) quem é o personagem principal; 2) qual a premissa dramática; 3) qual a situação dramática.

Uma história não se desenvolve sem personagem. O protagonista será a quem é feita alguma coisa e/ou quem faz alguma coisa – personagem é ação e ação é personagem.

A premissa dramática fornece o impulso que move a história para a sua conclusão. É o momento em que algo ocorre ao protagonista ou este age para que algo ocorra.

A situação dramática diz respeito às suas circunstâncias em torno da história. Quem são as pessoas que rodeiam o protagonista, o que ele faz, etc.

O ato 1 se desenvolve até que algo ocorra ao protagonista ou seja causado por ele, que reverte a história em outra direção. Tomemos como exemplo o filme Rei Leão:

O ato 1 se inicia com a apresentação dos personagens – Mufasa, o rei; Simba, o príncipe e protagonista; Scar, o irmão invejoso.

A premissa dramática é justamente a inveja de Scar, apresentada quando fala à Simba do Cemitério dos Elefantes, e reforçada ao provocar a morte de Mufasa. É sua intenção de ser rei que move a história.

A situação dramática, por sua vez, apresenta-se nos elementos ao redor da inveja de Scar. As hienas, subjugadas pelos leões, apoiam Scar em seu plano, visando melhores pedaços de bife. O regime hereditário, que garantia a Simba o lugar desejado por Scar realça a premissa.

O ato 1 termina – e, convenhamos, é uma das melhores cenas da história do cinema – com a morte de Mufasa. A cena, não só um pico de tensão no ato 1, joga a história em uma nova direção: É incomumente longo para uma apresentação, talvez por ser um musical.

Ato Dois – Confrontação

Esse ato se guia pela necessidade dramática, que significa tudo aquilo que o personagem quer vencer, ganhar, ter ou alcançar.

É a unidade dramática onde o personagem principal enfrenta obstáculo após obstáculo, que o impedem de alcançar sua necessidade dramática. Toda história é impulsionada por uma necessidade dramática do protagonista, que é barrada, constantemente, por obstáculos. No caso de Simba, um conflito interno, aparentemente perpétuo vindo da culpa pela morte do pai.

O ato 2 se baseia no pressuposto de complicar. Complicar significa, resumidamente, tornar a vida dos personagens difícil. Mas não é só isso. Deve-se complicar progressivamente, cada cena sendo mais difícil do que a anterior. Essas progressões ocorrem quando colocamos nossos personagens em um risco cada vez maior, exigindo cada vez mais força de vontade ou inteligência ou outra característica de destaque.

Se as complicações não forem progressivas, ocorrerá aquilo que você muitas vezes deve ter presenciado. O filme/livro começa muito bom, recheado de momentos tensos; depois de um tempo, as coisas começam a desandar e a história, a se arrastar.

Em um romance, que geralmente é um texto longo repleto de personagens, os conflitos secundários (dos coadjuvantes) devem, no final, ter relação com o conflito principal (do protagonista) e influenciar de alguma maneira sua resolução.

Se não há conflito, não há história para se contar. O conflito é que move a história, seja ele um conflito concreto, material ou abstrato, psicológico.

Em Rei Leão, a progressão ocorre do encontro com Timão e Pumba – pausa para ouvir Hakuna Matata – até a aparição de Nala. Mesmo com saudades do reino, a culpa que Simba sente o impede de retornar e assumir seu papel. O conflito aumenta até o clímax, a aparição do fantasma de Mufasa.

Essa unidade se desenvolve até o limite do conflito, que é quando, mais uma vez, algo ocorre ao protagonista ou é causado por ele, revertendo a história em outra direção:

Ato Três – Resolução

É nessa unidade dramática que o protagonista consegue (ou não) alcançar sua necessidade dramática. É o conflito final, é a resolução de toda uma história.

Uma história é uma jornada e o final é o destino. Essa condição final, essa última mudança, deve ser absoluta e irreversível, além de ser clara e auto-evidente, não exigindo explicações. Diálogo ou narração, com o intuito de explicar, é chato e redundante.

No exemplo, Simba retorna a terra de seu pai, e a encontra devastada. As hienas dominam sob o reinado de Scar. Tio e sobrinho se encontarm; Simba descobre que Scar foi o responsável pela morte de Mufasa; eles se enfrentam; o clímax da história, resolução, a morte de Scar.

Paradigma, modelo de várias histórias
Paradigma, modelo de várias histórias

As histórias podem adquirir formas diferentes, compreender mais Atos, mas o Paradigma é um excelente ponto de partida para uma maior compreensão sobre as mesmas. O design em três atos é o mínimo.

O problema de se multiplicar os atos é a criação de ainda mais cenas inesquecíveis. Uma história em três atos requer quatro cenas memoráveis: o Incidente Incitante, que inicia a história, e o Clímax do Primeiro, Segundo e Terceiro Ato. Se você multiplicar os atos, terá que criar ainda mais cenas memoráveis. E isso é um convite ao clichê.

O que são cenas memoráveis? A cena no incinerador, de Toy Story 3; a morte de Mufasa, em Rei Leão; as mortes de Calvin e Dr. Schultz, em Django; o final absurdamente surpreendente de Os Suspeitos; a descoberta da identidade de Tyler Durden, no Clube da Luta; o corpo que se levanta em Jogos Mortais.

Para finalizar, um exemplo de uma história corrente:

Exemplo – Game of Thrones (Ned Stark)

Game of Thrones é complexo porque possui muitos (ou nenhum) protagonistas, muitas tramas, todas entrelaçadas. Mas podemos pegar como base Ned Stark, personagem da primeira temporada. Se não viu e quer ver, não leia, pois contém SPOILERS.

O ato 1 começa com a introdução. Descobrimos quem é Ned Stark – senhor de Winterfell – e quem são seus filhos, sua esposa, etc. Tudo se inicia quando Robert Baratheon, o Rei, aparece e pede para que Ned seja a Mão do Rei; essa é a premissa dramática. Não entraremos em detalhes sobre as outras tramas (Catelyn, Tyrion, Jon, Bran, nem mais ninguém). Vamos manter a complexidade no mínimo.

No ato 1 também descobrimos a situação dramática: Lysa, irmã da esposa de Ned, acusa os Lannisters de terem matado Jon Arryn, antiga mão do rei e quase como um pai tanto para Ned quanto para o Rei, Robert. A esposa do rei é uma Lannister e Ned quer agora descobrir a verdade e proteger seu melhor amigo.

O ato 1 termina quando, após a carta da irmã de sua esposa, e os temores acerca dos Lannisters, Ned resolve aceitar o pedido do rei e parte para Porto Real.

O ato 2 é recheado de conflitos. Muitos mesmo. É um exemplo das complicações progressivas que disse no início do post. Ele chega em Porto Real e decide falar com o antigo escudeiro de Jon, ex-Mão do Rei. Antes de conseguir, ele morre. Depois, Tyrion, do clã Lannister, é sequestrado. Ned descobre a verdade sobre os filhos do rei, confronta a rainha, sofre um grave ferimento em um confronto com Jaime.

As coisas chegam ao ápice quando o rei, em seu leito de morte, deixa Ned como protetor e regente em seu nome, até que Joffrey, seu “filho”, esteja apto a governar. Mas Ned, em nome da honra, comete erros atrás de erros, e acaba sendo traído por Mindinho e é preso por traição. Esse é o fim do ato 2.

O ato 3 é ele na prisão. Varys, a Aranha (o careca de voz engraçada), diz que Ned pode ser honrado e morrer por isso, mas até que ponto isso será válido se a vida de sua família estiver em risco? Ele então decide confessar seus crimes perante o reino. Mas Joffrey não é piedoso e manda o carrasco cortar sua cabeça.

O Paradigma também é reconhecível.

Ato 1 – Apresentação; a proposta para Mão do Rei (premissa dramática); a suspeita de assassinato de Jon Arryn (situação dramática).

Ato 2 – Conflitos progressivos até o Clímax, que é sua prisão.

Ato 3 – Resolução. Ele decide confessar o crime. O Rei, Joffrey, decide que não quer perdoá-lo. Quer sua cabeça. E é isso que acontece. Uma das cenas mais chocantes da história da televisão.


Nos textos de Storytelling, não seremos professores, mas alunos apresentando trabalhos. Convidamos vocês a comentar, discordar, pensar em novos exemplos e aprender junto conosco.

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  • Fabricio

    Cai de paraquedas aqui e posso dizer que foi um dos artigos com uma explicação breve sobre roteiro mais bem escrita que já vi, parabéns

  • Pingback: Atrás das Cartas: A estrutura de uma história – Episódio 1 – House Of Cards Brasil()

  • Jhonatan

    Caramba! O artigo foi tão bom que fiquei sem palavras! Era exatamente o que eu estava procurando. Meus parabéns.

  • FESR

    Caramba, superentendi! Muito agradável a leitura e ótimos exemplos utilizados durante o texto. Obrigada por isso!

  • Daniel Vianna

    Interessante. Li o livro de Syd Field, mas não tinha visto guerra dos tronos dessa maneira e, agora, parece tão óbvio. Muito bom.

    • Obrigado, Daniel.

      O maior problema de guerra dos tronos, sob essa perspectiva, não é analisar as histórias individualmente; é analisar como elas se entrelaçam. E eu peguei o exemplo do Ned justamente por ele ser o mais próximo de um protagonista que a série (e os livros, principalmente, tem).