Não me arrependo

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“Não me arrependo”. Acho que essa é uma das frases que mais ouvi na vida. Junto com “Vai tomar banho, menino! ”.

Repetimos essa frase como um mantra aprendido na infância, sem nem ao menos saber o porquê. Falar em arrependimento soa pesado, como um delito em si, reservado àqueles que assassinaram pessoas ou perderam gols cruciais em Copas do Mundo.

Luiz Felipe Scolari nos deu um grande exemplo desse processo de negação do arrependimento:

1:00 – Quem é o responsável quando a equipe se apresenta? Quem é que é convidado como técnico? Quem é que é colocado como técnico? Quem é o responsável pelas escolhas? Sou eu.[…] O resultado e quem foi o responsável fui eu.
7:48 – […] Até a hora do primeiro gol. Depois é que nós nos desorganizamos. Ficamos um pouco em pânico e as coisas foram acontecendo, normalmente para eles, e tudo errado para nós, então não tenho do que me arrepender pelas escolhas que fiz.

No segundo trecho destacado, o repórter pergunta sobre as decisões tomadas para a entrada do time em campo. Carrega o mesmo peso na expressão “se arrepende” que o técnico, que nega o arrependimento em sua resposta. É aí que fica interessante.

Ao assumir a responsabilidade pela derrota, Luiz Felipe Scolari está dizendo, mesmo que não perceba, que as decisões que levaram o Brasil a se comportar daquela forma em campo vieram dele; no papel de responsável, era também a pessoa com o poder de mudar o panorama. Todavia, mesmo com essas atribuições, não se arrepende das escolhas que fez. Seria uma ideia tão estranha? Vejamos a definição da palavra:

Arrependimento: s.m. 1.Pesar por alguma falta cometida. 2.Contrição, remorso. 3.Mudança de opinião.

O remorso, ainda que doloroso, é comum. É natural o sentirmos quando cometemos um erro ou machucamos alguém. Mudanças de opinião ocorrem ao longo de toda a vida. Então por que não se arrepender?

Arrependimento é Efeito Borboleta?

Por algum motivo, não enxergamos apenas as definições acima quando pensamos no ato de se arrepender, vamos além: “Eu não me arrependo de ter chutado aquele pênalti para fora no recreio, pois, graças a isso, eu não joguei bola no dia seguinte e pude reparar em uma menina na fila do tio das balas. Eu nunca tive nada com essa menina, mas até hoje vivo com a mulher que conheci na faculdade, e tenho certeza que aquele evento no recreio me levou a estar aqui hoje, com minha esposa.” Já escutou alguma história parecida?

Criamos, a partir de algum momento da vida, uma linha de raciocínio de que, se nos arrependermos de algo, estaremos afirmando uma vontade de voltar no tempo e mudar aquele evento. Essa vontade pode existir, mas quem está lidando com ela convive com mais do que simples remorso.

Proponho aqui uma forma de olharmos para o significado da expressão: eu me arrependo, pois com as ideias que tenho hoje, a visão que adquiri da situação passada, tenho consciência de que agiria de forma diferente. Isso não significa querer voltar no tempo e mudar algo, mas saber que a vida pode, como poderia, seguir outros caminhos. Posso tomar novas decisões, não repetir os mesmos erros, pela consciência do que aconteceu anteriormente.

Eu me arrependia de nunca ter tentado aprender a tocar violão. A situação mudou porque ganhei um violão e, posteriormente, tomei a decisão de fazer aulas. Meu arrependimento me ajudou na escolha que mudou esse aspecto da minha vida. Se transformou em atitude. Me arrependo de cada vez que sou grosseiro com alguém. O que me lembra de agir melhor das próximas vezes, com família, namorada, amigos, ou desconhecidos.

Remorso pode nos levar à ação. Mudança de opinião pode nos levar a novas escolhas. Em um mundo onde todos erramos, mais liberdade para se arrepender pode ajudar a amadurecermos. Disso, eu não me arrependeria.


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