Acordar com você na cabeça, mas não no coração

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Lembra da vez que faltei o trabalho só para poder ficar com você? Você não sabe, mas eu tomei um baita esporro no dia seguinte; valeu a pena cada segundo. Lembra do filme que vimos? Eu também não. No entanto, lembro que saímos para comer naquele dia, e brigamos pela primeira vez, porque você não queria que eu pagasse a conta sozinho.

Lembra de quando dormiu na minha casa pela primeira vez e me deixou um bilhetinho escondido depois que foi embora trabalhar? Lembra de como dormíamos abraçados todas as noites, ou como ficávamos acordados até tarde conversando debaixo do edredom, com você reclamando do ar-condicionado? Eu lembro. Você tremia e colocava os pés gelados nas minhas costas para me provocar. Lembra do barulhinho engraçado que eu fazia em seguida, e que te fazia rir sem parar por minutos? Eu lembro, e sou eu que rio sem parar ao lembrar.

Lembra da cerveja no shopping, de passar batom de graça no Boticário – aquele bem vermelho, do jeito que mais odeio, mas que ficava estranhamente lindo em você –, ou de quando te fiz cosquinha e você ameaçou chamar pelo segurança? Nesse dia comemos naquele podrão delicioso de Botafogo, voltamos andando pela praia e quase fomos assaltados.

Lembra das vezes que cozinhamos? Na verdade, eu cozinhava e lavava, e você se aproveitava da minha boa vontade. Lembra do café na cama às sete da manhã de um domingo? Eu lembro que levei porque você duvidou que eu faria; e porque tinha que ir trabalhar às dez. Lembra da torta do Fornalha, da pizza da Stallos, da primeira vez que experimentou camarão e gostou? Eu tive que pedir mais, porque você comeu o meu todo.

Lembra das fotos que nunca ficavam boas? Ou das vezes que você tentava me ensinar a dançar sertanejo? Nossa, era um desastre. Lembra de quando você se sentava no meu colo e ficava no Facebook mostrando todos aqueles babacas te cantando? E eu beijando o seu pescoço e te fazendo rir com as mordidinhas na orelha. Que sorte a minha.

E lembra da vez que ficamos de bobeira num barzinho da Farani? É, naquele dia você disse que tinha medo de me magoar, porque era isso que acontecia com as pessoas que se aproximavam muito. Lembra do que eu disse? É, banquei de machão e falei que isso nunca ia acontecer.

Mas aconteceu. De uma hora para outra, percebi todas essas memórias divertidas e felizes tornarem-se um tormento intolerável. Era passar pelo bar e ficar triste; era ir ao shopping e ficar puto, ouvir o seu nome e fingir que não tinha ouvido. Era, principalmente, evitar entrar em contato com qualquer coisa que pudesse me lembrar de você. O coração é muito cruel nessas horas. É como se ele se rebelasse e tomasse conta do corpo inteiro.

É, mas essas coisas acontecem, e nada podemos fazer, senão aprender com elas. E esse aprendizado nunca é fácil.

Você pode ter me magoado, pode ter me deixado puto e estressado; pode não ter feito as coisas que pedia encarecidamente, ou não ter mudado aquele único ponto que gerava conflitos entre a gente. Pode também não ter demonstrado qualquer tipo de apreço pelos gestos que eu fazia por você. Mas também me fez feliz. Por que, eu me pergunto, deveria te odiar?

Acabou. Sempre acaba, de uma forma ou de outra. E superar é acordar com você na cabeça, mas não no coração. Só assim pude me lembrar de que, depois do barzinho, fomos para casa e fizemos sexo a madrugada inteira. O sexo era incrível! Depois, se aninhou nos meus braços e tagarelou sobre os amigos e a família, e a ouvi de olhos fechados, imaginando tudo. Então, você se virou, convidando para a mais confortável conchinha que já tive o prazer de experimentar. E dormimos. E acordamos. Acordar ao seu lado era tudo de bom e mais um pouco; mesmo com os cabelos desgrenhados, o mau-hálito, o mau humor. Logo depois faríamos algo que sempre fazíamos. Ou, também, nada faríamos, era sempre uma boa ideia.

É duro acordar e perceber que todos os planos que fiz para nós dois foram por água abaixo, ou perceber que, afinal, não éramos tão fortes quanto eu pensava. É duro perceber quão injusta é a vida, me dando algo tão maravilhoso e pegando de volta logo depois.

Mas a decepção, a tristeza, a raiva, as noites sem dormir, tudo isso passa. E, quando passa, tudo volta ao normal; mas um normal diferente, recheado de memórias e experiências. É aí que você percebe que, afinal de contas, é um cara de sorte. Não são muitas as pessoas que vivenciam algo assim. Percebe também como é delicioso acordar com você na cabeça, mas não no coração.


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