Eu te amo

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Acordei numa bela manhã com seus beijos molhados. Ela estava com o cabelo úmido, arrumada às pressas para ir embora. A cortina, entreaberta, deixava entrar feixes de luz, fazendo com que parecesse iluminada; era quase um anjo. Eu adorava quando ela me acordava assim; com o perfume do xampu e as gotas d’agua que caiam no meu rosto, a voz baixinha e meiga, e, principalmente, o modo como me olhava.

Estávamos juntos havia pouco mais de três meses, e dificilmente ficávamos separados. Eu sempre arranjava um modo de buscá-la no trabalho, enfrentando o caótico e estressante trânsito da Barra da Tijuca às seis da tarde. Não me importava; ela sempre achava um modo de me recompensar (não precisava envolver sexo, mas geralmente envolvia). Ela, por sua vez, sempre arrumava um tempinho para almoçar comigo. Mesmo que fosse apenas por dez minutos, era sempre especial. Sempre íamos a um restaurante na Rio Branco e ela escolhia uma variedade de cores de comida e um filé de frango, que cortava em pedaços tão pequenos que mal precisava mastigar. Eu escolhia qualquer coisa do buffet, e acabava perdendo o apetite quando ela olhava para mim por sobre o prato e sorria um sorriso sem dentes, tão meiga que meu coração morria aos poucos só de olhar. Acabava me alimentando da sua presença, da sua beleza. Eu sei que parece piegas, mas, quando se está apaixonado, nada mais importa.

Então, naquela manhã, ela disse que me amava. Do nada. Bum! Pronto. Eu te amo.

Ela me encarou com seus profundos olhos verdes logo depois de dizer isso. Pensei que ela estivesse me olhando porque eu era lindo; mas eu não era, e tinha acabado de acordar. Não podia ser por isso. Estava à espera de uma resposta ou uma reação.

O que eu podia dizer? Que a amava? Claro que amava. Amava o modo como ela juntava o corpo ao meu para me acordar, como fazia carinho nas minhas costas para eu adormecer e como ria como uma criança das minhas piadas sem graça. Amava os bilhetinhos que ela deixava espalhados pela casa, amava nossas conversas debaixo do edredon, amava sua risada sem som quando eu lhe fazia cosquinha. Amava quando ela fazia brigadeiro para mim, amava quando ela vestia as minhas camisas sem nada por baixo, amava quando ela tentava me ensinar a dançar e eu acabava pisando em seu pé. Amava a risadinha que ela deixava escapar ao chegar ao orgasmo, amava como ela conseguia sorrir mesmo quando chorava, amava simplesmente matar o tempo com ela.

Eu a amava! Dizer isso não era só dizer três palavrinhas? De certa forma, sim. Mas isso implicava outras coisas. Eu vou responder porque quero que ela saiba que é recíproco ou porque espera uma resposta minha? Direi isso para expressar o amor ou vou expressar o amor ao dizer isso? São duas coisas diferentes. Não dizemos isso por dizer (embora seja isso que aconteça na maior parte do tempo). Dizemos isso para expressar o amor que sentimos (embora não seja isso que sentimos na maior parte do tempo).

Então eu lembrei da maratona de Friends que havíamos visto na semana anterior.

Chandler diz que ama Monica de repente, antes de contar a verdade sobre o caso secreto deles. Ele não quis dizer isso, mas disse porque sentia. Ela sequer estava presente. Não havia essa necessidade de dizer (e principalmente de ela escutar). As palavras saíram porque eram verdadeiras.

Lembrei também dos vários filmes românticos que havíamos visto ao longo dos mais de três meses. Ela sempre reclamava na mesma parte; quando o bonitão dizia para a bonitona que a amava. E ela sempre fazia a mesma observação: “mas eles mal se conhecem, como podem dizer que se amam? Que bobeira.” Em seguida, reclamava também de como isso gerava uma necessidade ilusória de dizer e escutar as três palavrinhas e como acabamos dizendo sem verdadeiramente sentirmos isso.

Quando voltei a olhar para ela, vi que já tinha ido embora. Não esperou pela minha resposta nem pela minha reação. Disse e foi embora.

Naquela noite, levei flores para ela no trabalho e, depois, para jantar no melhor restaurante da cidade – que, por sinal, não era o mais caro. No final da noite, preparado para dizer que também a amava, não disse. Não precisava; estava subentendido. Em vez de usar a boca para dizer que a amava, usei para algo melhor.

Foi então que percebi que amar não é só dizer eu te amo; também é não precisar dizer.


A imagem de capa é de autoria de Nina Matthews, postada na plataforma OGQ Backgrounds HD.

Não foram feitas alterações. A licença pode ser vista aqui.


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Nicholas Nogueira

Carioca, que abriu sua própria empresa para poder ter tempo de escrever e falhou miseravelmente. Uma pessoa intensa que encontrou na escrita a única forma de extravasar tudo que passa dentro de si.