Esse tal de pessimismo

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Algumas coisas a gente aprende em casa. Uma delas é que é bem mais fácil perder a confiança do que reconquistar.

Diversas vezes, quando confrontado com algum dado negativo, perspectiva negativa ou qualquer análise negativa, nosso governo tende a utilizar o argumento de que o emissor da análise ou interpretador do dado é pessimista. Os recentes casos do banco Santander e da consultoria Empiricus Research, que liberaram nota e relatório, respectivamente, pessimistas em relação à economia e a possível manutenção das políticas atuais, são preocupantes. Inclusive, nesses dois casos, a reação do governo já sofre desde críticas severas até chacota, como no recente artigo publicado no Terraço Econômico: “Mãeeeee o Santander me bateu”. Humoristas também se manifestaram.

O papel das expectativas na economia é inegável, já tendo sido estudado e reconhecido por várias escolas econômicas, desde a Keynesiana até a Austríaca. A expectativa ruim, o dito pessimismo, não começou no Brasil do nada. Ela veio após uma série de decisões tomadas pelo governo.

O pessimismo é pós…

1) Intervenção no setor elétrico e atual crise no setor;

2) Derrubada forçada nos juros (“intervenção no setor bancário”);

3) Aumentos sucessivos de gastos governamentais sem correspondente aumento de receita;

4) Controle de preço da gasolina;

5) … com subsequente consequência negativa no setor de álcool;

6) Contabilidade criativa para atingir meta de superávit primário;

7) Protecionismo exacerbado e fraca política comercial do governo Dilma;

8) Concessões sendo feitas tentando-se fixar ambos nível de serviço e rentabilidade;

9) Utilização do BNDES na chamada “política de campeãs nacionais” e na dita “bolsa-empresário”;

10) O “caso dos 4 bilhões”;

11) A baixa taxa de investimento;

12) Forte interferência nas empresas estatais;

13) Obras do PAC causando prejuízos bilionários;

14) 45 bilhões injetados na economia por mudança nas regras do mercado monetário por parte do Banco Central, insistindo no modelo de crescimento atual – já esgotado –, mesmo indo contra outras políticas.

15) Ataques à credibilidade do STJ;

16) Gleisi Hoffmann, Ex-ministra-chefe da Casa Civil, tentando impedir a publicação (curiosamente pedindo para que fosse adiada para 2015) da pesquisa de emprego PNAD contínua (gerando revolta no corpo técnico do IBGE);

17) Acusações à imprensa, colocando-a como inimiga;

18) Presidente do PT afirmar publicamente que o Banco Central não deve ser independente

19) … e, por fim, os casos Santander e Empiricus.

Tudo isso resulta, por exemplo, na atual correlação inversa (Dilma melhora nas pesquisas, ativos desvalorizam ou Dilma piora nas pesquisas, ativos valorizam) entre a popularidade e possibilidade de reeleição da presidente Dilma e o valor dos ativos financeiros do país e nos atuais baixos índices de confiança do empresário e do consumidor.

Meu objetivo aqui não é detalhar cada um dos casos levantados acima, mas sim citar para que cada um possa realizar suas buscas e tirar suas próprias conclusões.

Segundo o próprio FMI, o Brasil não está fazendo as reformas necessárias e cada vez mais fica claro que o problema não é conjuntural e sim estrutural. O relatório ainda destaca: o Brasil é um dos mercados mais vulneráveis atualmente e está falhando na adoção de políticas para diminuir a fragilidade. Novamente, o governo, dessa vez por meio do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, ignora a realidade.

Ano passado, outra instituição financeira reconhecida, Morgan Stanley, já havia citado o Brasil entre os “5 frágeis”. No início desse ano, a Standard & Poor’s rebaixou a nota de crédito do Brasil. Ainda nesse ano, o banco alemão Deutsche Bank já notificava seus clientes sobre a situação do Brasil. O mesmo pode se falar do banco dinamarquês Saxo Bank. Eu poderia ficar bastante tempo aqui juntando relatórios que apresentam perspectiva negativa.

Atacar o carteiro que trouxe a notícia ruim, quebrar o termômetro que mostra a febre ou atacar e pedir a cabeça de analistas pessimistas em relação à economia não resolvem os problemas. O efeito é inverso, eu diria.

O que o atual governo precisa entender é que, primeiro, o pessimismo não surge do nada e, segundo, atacar os pessimistas só piora o pessimismo.


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  • Patricia

    Já li em alguns lugares que líderes como Hitler, Stalin e Prestes eram extremamente paranoicos e viam inimigos por todos os lados. (Aquela cena clássica do filme A Queda ilustra bem essa faceta do Hitler; e O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil dá mais detalhes sobre o Prestes).
    Sinto que acontece algo similar com a Dilma e o PT nesse caso.