Guetos e prisões urbanas

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Gueto (ê) sm (it ghetto) 1 Nome que, em certas cidades da Itália, davam ao bairro onde os judeus eram forçados a morar. 2 Bairro de judeus em qualquer cidade. 3 Local frequentado por minorias. (Dicionário Michaelis)

A cidade, por natureza, gera uma experiência ambivalente; visto que atrai e afasta. Atrai, pois o brilho caleidoscópico da cena urbana, jamais desprovido de novidades e surpresas, torna irresistível seu poder de sedução. Por outro lado, afasta por motivos semelhantes, pois esse seu brilho também gera um profundo estado de incerteza.

É um paradoxo: a cidade atrai pelas inúmeras possibilidades, e afasta pelo mesmo motivo. Quando atrai, atrai a todos; quando afasta, o faz porque, nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “a sociedade vem desestruturando o Estado social, fazendo com que desaprendêssemos a conviver em harmonia com os diferentes.” A origem disso, naturalmente, é o abismo econômico criado, a famosa “exclusão social”.

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A exclusão social não é um fenômeno atual. No entanto, seus efeitos, e principalmente a forma como é percebida, são bem diferentes de suas raízes. Antes, eram excluídos aqueles que compunham o excesso de pessoas, ou seja, aquelas que não podiam ser aproveitadas no mercado de trabalho e ficavam temporariamente excluídas, até serem, em mais ou menos tempo, reintegradas. Por serem privadas de utilidade funcional, pela aceleração econômica, era só uma questão de tempo até poderem ser utilizadas novamente.

Hoje em dia, a causa inicial é a mesma: o excesso de pessoas deixadas à margem econômica. Porém, elas agora são incapacitadas, de modo permanente, até mesmo para a reintegração, porque não saberiam se tornar úteis nem mesmo após uma “reabilitação”. Na verdade essas pessoas são deixadas à margem, pois é muito menos complicado (leia-se barato) do que torná-las úteis.

Portanto, os marginais (não os criminosos efetivamente, mas os propensos a sê-los, justamente por estarem relegados à margem da sociedade, lugar do qual dificilmente sairão) deixaram de ser vistos como excluídos provisórios. Simplesmente não são mais encarados como pessoas aptas a serem reaproveitadas (reeducadas, reabilitadas e restituídas) na comunidade; nas palavras do sociólogo: “são indivíduos que precisam ser impedidos de criar problemas e mantidos a distância da comunidade respeitosa das leis”.

Nisso, aprofundamos as diferenças, aprofundamos o abismo entre “nós” e “eles”. Uso a primeira do plural para me referir a nós como sociedade, não nós como pessoas, muito embora esse efeito acabe sendo transferido de um para o outro, sem que sequer percebamos.

Esse abismo criado (e aprofundado) reforça o estado de incerteza que mencionei no início. Zygmunt Bauman resume isso brilhantemente:

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Como as pessoas esqueceram, ou negligenciaram, o aprendizado das capacidades necessárias para conviver com a diferença, não é surpreendente que elas experimentem uma crescente sensação de horror diante da ideia de se encontrar frente a frente com os diferentes.

Assim, as grandes metrópoles do mundo são hoje cidades feitas de muros, barreiras físicas construídas por todos os lados; casas, condomínios, parques, praças, escolas, escritórios. A nova estética da segurança decide a forma de cada tipo de construção, impondo uma lógica fundada na vigilância (contra os diferentes) e na distância (desses mesmos diferentes).

Essas soluções – as únicas aparentemente disponíveis – criam, por assim dizer, o problema que pretendem resolver. Os arquitetos dos condomínios fechados – e estritamente vigiados – criam, reproduzem e intensificam a necessidade que, ao contrário, afirmam satisfazer. Como Zygmunt Bauman defende “servem para dividir e manter separados seus habitantes; para defender uns dos outros, ou seja, daqueles a quem se atribuiu o status de adversários”.

Como bem sabemos, essas barreiras físicas têm dois lados. Dividem um espaço, antes uniforme, em “dentro” e “fora”. Mas o que é “dentro” para quem está de um lado é “fora” para quem está do outro.

O objetivo desses lugares é claro; não há uma intenção de criar pontes entre “nós” e “eles”, pontos de convivência agradáveis, locais de encontro. A intenção é dividir, segregar, excluir. Chega-se ao ponto de denominar, com claro tom pejorativo, os momentos em que há esse ponto de comum convivência, ao menos em tese. São os chamados “rolezinhos” (que aparentemente saíram de moda). A pergunta que as pessoas de classe média e alta (não todas, mas lamentavelmente uma grande parte) se fazem nesses momentos é: por que eles estão aqui se esse lugar claramente não foi feito para eles?

Todos que têm condições financeiras para tal adquirem um apartamento dentro de um condomínio, que, para Bauman, “é um lugar isolado e, embora fisicamente situado dentro da cidade, está, social e idealmente, fora dela”. Isolamento, nesse sentido específico, significa separação de todos os que são considerados socialmente inferiores. Por sinal, está cada vez mais comum esses condomínios possuírem tudo o que há do lado de fora, mas destinados somente aos moradores. Academias, shoppings, restaurantes, etc. Por que correr o risco de se encontrar com os “outros” se posso me manter seguro dentro dos meus próprios muros?

Os moradores de condomínio mantêm-se fora da desconcertante, perturbadora e vagamente ameaçadora vida urbana, para se colocarem “dentro” de um oásis de tranquilidade e segurança. Ou seja, para o sociólogo polonês “quem está ‘dentro’ – e este é, por definição, um lugar decente e seguro – está absolutamente decidido a manter os outros nas mesmas ruas desoladas que optaram por fugir, sem ligar para o preço que isso tem”.

Esses condomínios, essas verdadeiras “comunidades de iguais”, oferecem somente um paliativo, quando, ao contrário, tentam nos vender uma apólice de seguros. Mesmo que nos ofereçam uma diminuição dos riscos causados pela vida cotidiana, acabam nos oferecendo nada mais do que uma proteção contra alguns mais imediatos e temidos, como a própria falsa sensação de segurança.

Essas “comunidades de iguais” são uma forma encontrada de refúgio; local onde a minoria se refugia da maioria. Assemelham-se muito ao gueto da época de perseguição aos judeus. Estes, minoria, eram segregados da sociedade, contra sua vontade. Os condomínios atuais podem ser denominados de guetos por serem locais ocupados pela minoria, e são voluntários, pois é uma segregação pela vontade dessa minoria.

Portanto, tem o mesmo intuito de segregar, só que no sentido inverso; aqueles que optam por esses novos guetos desejam não entrar em contato com os “inferiores”. Optam, basicamente, por uma segregação voluntária onde os ditos superiores vivem segregados daqueles, inferiores, que não tem opção senão viver em “guetos involuntários”, de onde não lhes é permitido sair, a não ser por um esforço hercúleo.

A insegurança moderna é derivada da nebulosidade de seu objetivo, não da perda efetiva de segurança; é um efeito colateral da convicção equivocada de que, com os recursos disponíveis, é possível alcançar a segurança plena. Ao perceber que esse objetivo é intangível, acabamos por colocar a responsabilidade em algum ato mau e premeditado, geralmente perpetrado por um delinqüente; este acaba sendo aquele “diferente”.

Quando percebemos isso, acaba ficando claro por que motivo estamos sempre com essa sensação de insegurança, de que algo ruim poderá ocorrer a qualquer momento. Ocorre que, na visão do sociólogo Zygmunt Bauman, “a uniformidade do espaço social, acentuada pelo isolamento espacial dos moradores, diminui a tolerância à diferença e multiplica o medo de se interagir com os diferentes”. Essa situação torna a cidade mais propensa ao perigo e, portanto, mais angustiante, em vez de mostrá-la mais segura.

Se a segregação é oferecida e entendida como um remédio “torna mais profundo o tormento, de modo que, para mantê-lo sob controle, é preciso aumentar continuamente as doses”.

O terreno no qual, presumivelmente, nossas perspectivas de vida têm fundamento é instável, assim como os empregos que temos e as empresas que os oferecem, nossos parceiros, nossa rede de amizades, a posição que ocupamos na sociedade mais ampla, assim como a autoestima e a confiança em nossas capacidades, que derivam dessa posição. Como faltam estabilidade e conforto em nossa existência, acabamos por nos contentar com a ficção de segurança.


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  • Primeira coisa que me veio à mente quando li, a música do O Rappa, Minha Alma:

    https://www.youtube.com/watch?v=vF1Ad3hrdzY

    Bela análise, Nicholas!

  • Patricia

    Último ponto:
    Particularmente, tenho ressalvas quanto a criar filhos em condomínios fechados, em verdadeiras redomas, em que as crianças por vezes nem sabem da existência de um mendigo, ou não aprendem a conviver com pessoas de classes sociais diversas.
    No entanto, os condomínios oferecem uma praticidade e podem combinar a tranquilidade e silêncio da natureza com boa localização. Assim, isolar-se dos diferentes pode não ser a principal razão de escolher morar em um deles. Se você dispõe do dinheiro necessário pra usufruir deste luxo, por que não?
    O isolamento dos condomínios é um ponto negativo, assim como a maior exposição à violência e insegurança é um ponto negativo dos prédios convencionais.

    Uma possibilidade de meio-termo é a de se ter mais condomínios como o Barra Sul, que possuem vários serviços de academia, cinema, padarias, mas são abertos a todos, tendo até uma escola pública depois de atravessar a guarita.
    Nota: meu carro teve o porta-malas arrombado neste mesmo condomínio.

    No fim das contas, parece que não se pode ter tudo.

  • Patricia

    Outra coisa:
    Você menciona que antes os marginais ficavam temporariamente excluídos, e hoje em dia a exclusão é permanente. Fiquei pensando em quando ocorreu essa mudança, e qual uma possível razão pra essa mudança de paradigma.
    O Bauman fala algo sobre isso no livro? Você teria algum palpite?

    Parabéns pelo texto.

  • Patricia

    Curioso; os judeus foram perseguidos e forçados a morar em bairros separados na Itália? Não fazia ideia. Na Alemanha seria mais previsível.