Azul, “macaco” e branco

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O Grêmio, um dos grandes clubes do futebol brasileiro, é representado pelas cores azul, branco e preto. Para um grupo de “torcedores”, seria mais correto dizer azul, branco e “macaco imundo”.

O episódio ocorrido na última quinta-feira, de torcedores gremistas gritando insultos racistas para o goleiro Aranha, do Santos, criou uma onda de reações descabidas, de manifestações em redes sociais – frases como “piranha racista!”, direcionadas à jovem Patricia Moreira, destacada no episódio – a medidas de “justiçamento” ou “vigilantismo”, como o apedrejamento da casa da moça.

O futebol, como é característico dos esportes, é notável em sua capacidade de trazer à tona diferentes emoções – muitas vezes as piores delas. O clima de tensão, competição, busca pela vitória, leva-nos a gritar e soltar impropérios que dificilmente faríamos no meio da rua, indo para o trabalho. Mas qual é o limite?

Em que instância o futebol se torna uma desculpa, um local aberto a se cometer aquilo que, fora do estádio, é considerado crime?

É diante dessa dúvida que me assusta o evento de ontem, em novo jogo do Grêmio. Um pequeno grupo de ditos “torcedores” entoou o cântico “chora, macaco imundo”.

O CLUBE NÃO FOI RACISTA

O Grêmio, tricolor como o Fluminense e o São Paulo, compartilha com esses times o status de uma origem relacionada com as elites. No início do Século XX, isso quereria dizer não ter negros no time, mas esse não é mais o caso nos clubes brasileiros. O elenco gremista conta com Zé Roberto como destaque do time, além de jovens promessas. Até o ano passado, o goleiro Dida representava o tricolor gaúcho. O meia Anderson é um dos símbolos da história recente do clube, pelo seu papel na “Batalha dos Aflitos”, em 2007. Ronaldinho Gaúcho foi revelado por lá. O que todos eles têm em comum?

A TORCIDA NÃO FOI RACISTA

torcida grêmio
Qualquer torcida de futebol, como qualquer aglomeração de pessoas aos milhares, contará com gente racista. Não é justo responsabilizá-la pela atitude de alguns.

Em um país tão ligado ao futebol, facilmente conectamos nossas paixões com a razão, e vemos o outro como errado apenas por torcer para outro time. O cântico não foi uma atitude da torcida do Grêmio, mas de uma parcela que se replica em todas as torcidas do país.

O CANTO FOI RACISTA

Existe a rivalidade com o Internacional, clube conhecido com a alcunha de macaco. O canto existe há tempos, mas uma “tradição” não deve ultrapassar a razão. A maioria da torcida presente no estádio reconheceu que, no mínimo, o timing para a música é errado, e vaiou a atitude dessa minoria. A própria torcida do Grêmio, que levou ao estádio cartazes de apoio ao goleiro Aranha e contra o racismo, reconheceu no gesto a conexão com o evento de 3 dias antes, e mostrou o seu repúdio.

Essa parcela, ainda que acredite não fazer mal algum, é capaz de amplificar esse ciclo de ódio, numa sequência de erros que se apoiam no anterior como justificativa. O que acontecerá com a casa da mulher após esse episódio? Ela sofrerá também as consequências das ações destes, já que o assunto começou com ela (não só com ela)? Será que mais pessoas buscarão fazer justiça com as próprias mãos, caçando os responsáveis pelo cântico de ontem?

As respostas para essas perguntas me fogem, mas vejo que é hora de pararmos de olhar para estádios de futebol como arenas onde crimes são previamente absolvidos, onde o ódio é justificado e incentivado. Somos pessoas antes de torcedores. Nada justifica a intolerância, nem um clube de coração.


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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.