O Origami

Tempo médio de leitura: 2 minutos

Seu rosto estava virado em outra direção. Ela estava com a mente longe, os olhos vidrados no horizonte, sem que eu pudesse saber o que olhava nem o que pensava no fundo de si mesma.

Estávamos sentados à beira-mar, observando o pôr-do-sol, após um dia encantador cheio de conversas e sonhos comuns. Ela fazia seu origami ir para frente e para trás entre os seus dedos.

Ela tinha essa mania de fazer, com os guardanapos, origamis em forma de rosa em todos os restaurantes que íamos. Era habilidosa, dobrando cada ponta que devia ser dobrada com cuidado e perfeição, sempre mordendo o lábio inferior enquanto o fazia. Eu a observava com olhos atentos, vendo-a, com fascínio, reproduzir uma flor com as mãos.

Não era incomum eu sentir um indescritível fascínio por ela; era fascinado por tudo que fazia ou deixava de fazer. Uma vez passei uma semana fascinado com seu pum, e a forma como ela o disfarçava com uma tosse.

Quando terminávamos de comer, ela deixava a flor em cima da mesa ou dentro da conta. A flor geralmente não era para mim. Na maior parte das vezes, deixava para que o garçom soubesse que havíamos apreciado o serviço.

Ela era assim. Alguns deixam um rastro de perfume quando passam; ela, não. Sempre deixava um pouco de seu encanto aonde ia, fosse em um restaurante chique, fosse numa espelunca qualquer.

Se ela era assim com os outros, geralmente desconhecidos, imagine comigo. Posso afirmar que ninguém na terra me amou com um amor daqueles. Mesmo assim, guardava um pouco do seu amor para o mundo, e o mundo agradecia, ficando um pouco melhor com sua presença.

Enquanto o sol descia pelo horizonte, pintando o céu com cores magníficas, ela me ofereceu o origami e disse, com toda a doçura que uma voz pode ter:

“Isso é para você, para que sempre se lembre de mim. Toda vez que olhar para isso, e se lembrar de mim, saiba que também estarei me lembrando de você”.

Havia, naquele pequeno gesto, naquele pequeno pedaço de papel em forma de flor, todo o amor do mundo. Foi só então percebi que se a terra pudesse virar o céu, e o céu virar a terra, ela continuaria sendo a mesma. O belo pode se tornar feio, e o feio se tornar belo, mas o que é perfeito jamais muda.


Gostou do texto?

Você pode receber as atualizações do Além do Roteiro inserindo o seu email abaixo e clicando em “Seguir”.