Conceitos de Storytelling #2 – Incidente Incitante

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Você está saindo de uma festa, rindo com seus amigos e amigas, caminhando em direção ao carro. Bebeu. Não vê problema, afinal, viu no Twitter que não encontrará blitz no caminho para casa. Dirige com tranquilidade, até que um carro na direção oposta passa com farol alto. O clarão o assusta e, sem os mesmos reflexos, você perde o controle do carro. Bate. Sua perna direita nunca mais será a mesma, e o carona não sobreviverá.


Incidente incitante é o primeiro marco de qualquer história, seja no cinema, em um livro ou na vida. É a causa primária de tudo o que se segue.

Haveria história se o Dr. Schultz não libertasse Django dos negociantes de escravos e pedisse sua ajuda para matar os irmãos Brittle? Não.

Nick Fury precisaria reunir os Vingadores se Loki não tivesse roubado o Tesseract? Não.

Se os pais de Bruce Wayne não tivessem sido assassinados, ele se tornaria o nosso anti-herói favorito? Dificilmente. Aliás, é interessante notar que essa é a causa primária de tudo o que segue na Trilogia de Nolan, pois ela não ocorreria sem esse primeiro evento.

Em Game of Thrones, o rei, Robert Baratheon, pede a Ned Stark que seja seu “Mão do Rei”. Em Prison Break, Michael Scofield arma a própria prisão para salvar seu irmão. Em Breaking Bad, Walter White descobre que tem câncer de pulmão.

No Poderoso Chefão, o evento é a reunião entre Don Corleone e Sollozzo, sobre a chegada dos narcóticos aos negócios. Na série House of Cards, o cargo de Secretário de Estado é negado a Frank Underwoord.

Mas não é só um evento que dá movimento a história, um empurrão. É também um desarranjo radical na vida do protagonista.

Quando uma história se inicia, a vida do personagem principal está em equilíbrio, em uma situação sob controle. Por exemplo, Django, mesmo sendo um escravo, vivia um contexto estável. Quando o “dentista” aparece, sua vida perde o equilíbrio, e ele quase acaba morrendo na primeira aventura da dupla mais interessante dos últimos anos. Schultz mata o xerife da cidade, aparentemente sem mais nem menos, e vemos claramente na expressão de Django a frase “no que eu fui me meter?”

Antes do Tesseract ser roubado, o mundo estava estável (tão estável quanto o mundo da Marvel pode estar). Em Breaking Bad, Walter White era um cidadão comum, professor de química com salário baixo; sua vida estava relativamente equilibrada. Ned Stark era o senhor soberano de Winterfell e, apesar do frio absurdo, era uma situação bastante estável.

Loki controlando Hawk Eye
Loki: “pega logo o Tesseract pra mim, porque a história precisa começar”

Antes da reunião de Don Vito com Solozzo, o mundo está sob controle: a família Corleone prosperava, as outras famílias estavam em paz, Michael Corleone era do Exército, completamente fora dos negócios da família.

Antes do acidente da história criada no início, a vida do personagem aparentava estabilidade. Festa, risadas, até uma súbita tragédia, com o acréscimo da culpa pela bebida. As dores – física e na consciência – eliminam o equilíbrio da vida do nosso “modelo”.

O Incidente Incitante pode ocorrer em dois momentos. Em Batman Begins, o primeiro momento ocorre quando os pais de Bruce são assassinados; o segundo, quando o assassino é absolvido pela justiça. Mesmo que sejam eventos separados por vários anos, para o público o intervalo é de minutos. No clássico Tubarão (1975), o primeiro evento ocorre quando um banhista é atacado por um tubarão; o segundo, quando o xerife da cidade descobre isso.

Os eventos, se separados em dois momentos, não podem ocorrer muito distantes um do outro, pois corre-se o risco de perda da dinâmica do evento, que é o primeiro marco de uma história.

Esse evento ocorre diretamente para o protagonista, ou é causado por ele. Quando ocorre, o equilíbrio é desfeito. Para quem lembra do que dizia o professor de Física na escola, as coisas se arranjam de modo que a energia fique estável. Não é diferente para nós, ou para o personagem principal. Incitado por esse evento (por isso incidente incitante), busca a restauração do equilíbrio, do controle sobre sua própria vida. Geralmente, nessa busca surge um objeto de desejo.

Em Os Vingadores, o desequilíbrio causado pelo roubo do Tesseract leva à busca pela restauração, a Iniciativa Vingadores. Em Batman Begins, o objeto de desejo que surge é lutar contra o crime em uma cidade controlada por este.

O incidente incitante deve ser localizado no começo da história, mas só quando estiver maduro. O que significa estar maduro? A apresentação da história ser suficiente para que o evento tenha relevância.

Em Os Vingadores, tivemos diversos filmes para ocorrer esse amadurecimento, então o incidente incitante ocorre logo no início do filme.

Imagine se não houvesse uma apresentação de Bruce Wayne, e a história se iniciasse com ele já sendo o Batman. Não faria muito sentido. Por isso, há uma apresentação do personagem e suas motivações.

Em Django, isso ocorre rápido, pois a apresentação, junto aos créditos iniciais, é o suficiente.

O evento também ocorre rapidamente em House of Cards, aproveitando que a primeira cena já mostra a vitória do presidente eleito, e o estilo de narrativa da série.

Se um incidente vem muito rápido, o público se confunde; se acontece tarde demais, ele se irrita e se entedia. O evento deve ocorrer no momento em que haja conhecimento suficiente do protagonista e do mundo onde ele está inserido.

É impossível lembrar de todas as histórias, por isso damos as boas-vindas a quem tiver interesse em descobrir o Incidente Incitante de outros filmes, séries ou livros. Podemos discutir se ele funciona, se está atrasado ou adiantado, tirar dúvidas e aprender com vocês. Então, o convite está feito.


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  • Big

    Gostei do texto, bastante didático. Sem dúvida, o segredo para se contar uma boa história é amarrar o leitor na trama logo no início. Mas existem alternativas. Por exemplo, teve um filme que fez sucesso há alguns anos e fugiu dessa linha… como era o nome mesmo? Ah! Crash. Ele contava várias histórias paralelas, aparentemente sem nenhuma conexão entre si e sem nenhum fato que as marcasse logo de início. No entanto, no final, elas se cruzavam em algo que, na maioria dos relatos, seria o “incidente incitante”. É possível fazer isso, mas precisa ter muita maestria ao narrar (ou dirigir) para não perder o leitor (ou espectador, como no caso do filme).

    • Big, muito obrigado pelo comentário! Peço desculpas pela demora em responder, confesso que fui rever Crash para lembrar, pois não assistia há anos hahahaha.

      Eu não vejo o “incidente incitante” acontecendo no final, as histórias vão convergindo ao longo da trama, e se entrelaçando de formas diferentes em cada momento. Acaba até dificultando a análise de qual seria o único evento, você levantou bem sobre essa “fuga”.

      Diria que podemos olhar pro filme da seguinte forma. Cada personagem (os principais pelo menos) são protagonistas de suas linhas, cada um com um “assunto”, uma situação que precisam trabalhar, sendo que todos acabam convergindo para o assunto do filme, o racismo (racismo genérico aqui). Dentro de cada trama, cada personagem poderia ter o seu incidente incitante logo no início (suas primeiras aparições). Como exemplo, a cena em que dois policiais param o casal negro, e um deles revista a mulher de forma a assediá-la, humilhando-a. Todos ali tem, naquela cena, um incidente incitante, que culminará no desenrolar da trama de cada um.

      Outra forma de olhar, a mais difícil, creio, é tentando olhar para a história como uma coisa só. Dessa forma, a protagonista do filme poderia ser a sociedade de Los Angeles, que vive o contexto representado, ou a própria cidade. As tramas se desenvolvem, de forma a revelar o ambiente da protagonista (A cidade ou aquela comunidade). Nesse caso fica um pouco mais difícil pensar em um incidente incitante.

      Outro filme no mesmo estilo, que acho muito interessante também, é o “Disconnect”, de 2012. Vale uma olhada!