Nela, tenho todas.

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Era sábado à noite, e nossa música começou a tocar. Ela colou seu corpo junto ao meu, movendo-o de um lado para o outro. Eu via pelo espelho os reflexos da luz que tremulavam em seu vestido de cetim, branco como o luar.

Ela encostou sua cabeça na minha, e vi seus olhos de um verde profundo, seu nariz pequeno e arrebitado, seu sorriso singular, doce e ambíguo. Afastamos o olhar e eu encostei minha cabeça em seu ombro, apreciando aquele momento mágico.

Não era mágico sem um motivo em particular, mas porque naquela manhã havíamos brigado. Uma briga feia. Eu havia curtido as fotos de uma mulher, e só dela, o que fez surgir em sua cabeça a inevitável conjectura de que eu tinha outra. Ou outras; ou todas, talvez estivesse comendo o mundo inteiro pelas suas costas.

É, mulheres gostam de exagerar quando estão nervosas.

Dizer ‘não’ não bastava. Então eu precisei iniciar um conto de como eu a amava, de como ela era a única, a especial, com quem eu queria passar o resto dos meus dias. Sabe, aquela velha história que nós, homens, precisamos contar para evitar que nossos pintos sejam cortados por uma faca de cozinha.

Mas nessa oportunidade, a história foi diferente. Não só porque eu tinha escondido as facas de cozinha, mas porque a explicação que lhe ofereci não esclareceu só a ela o que eu verdadeiramente sentia, como também esclareceu a mim.

Foi só então que percebi que nosso amor crescia com os dias, as conversas sem fim, o silêncio compartilhado em um quarto escuro ou em meio à multidão, as viagens pelo mundo ou só até a esquina, o pôr do sol na praia ou a contemplação silenciosa de uma lua cheia. Percebi que também crescia nas brigas, nas discussões, na raiva engolida, na angústia do comedimento. Percebi que, enquanto paixão é não passar por obstáculos e desafios, amar é vencê-los.

Percebi que te amar era estar perpetuamente num sonho magnífico e suave. Percebi, então, que não precisava de outras; só de uma. E, nela, eu tinha todas.

A música terminou e ainda estávamos juntos, como se fôssemos um só. No rosto dela o sorriso mais espetacular que já vi, somado à serenidade de um amor tranquilo.


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