O que você faz com seu recurso mais valioso?

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Conheci um rapaz, amigo de um primo, que jogava regularmente o jogo Candy Crush no celular.

Ele começou a jogar depois de todo mundo, resistente pelo tempo que esse aplicativo sugava das pessoas à sua volta. Até que não resistiu.

Começou a jogar como quem não quer nada, ouvindo Sweet e Delicious e achando graça. Soube um dia que as fases se estendiam até a 500 – “Ah, nunca vou chegar até lá” – e jogava no ônibus ou antes de dormir.

Tá bom, tá bom, o tal rapaz sou eu. Agora deixa eu continuar a história.

O jogo foi avançando, nunca ultrapassando a linha tênue – e subjetiva – do vício. Um símbolo de chave inglesa chamou atenção: o jogo permanecia em desenvolvimento, teria novas fases!

Não, ou pior, não só isso. Surgiu um novo mundo, também em expansão sem prazo para acabar. A armadilha não me deteve, continuei passando por fases e rostos – daqueles que começaram antes e já haviam desistido. Haha, perdedores.

Quando o tempo usado no jogo se tornou notável, veio o conflito: “Devo parar de jogar? Só mais umas fases, é divertido”. Preocupações afins (como essa ideia de escrever textos para publicar na internet) competiam pelo mesmo recurso, o tempo. A resposta foi “sim”, mas não sem antes obter a sensação do dever cumprido.

A essa altura, lá pela fase trezentos e tantos gols da Alemanha, estabeleci uma meta. Chegaria à fase 500 (o jogo já tinha mais a essa altura, esse maldito). Larguei o mundo secundário, e avancei de vento em popa, rumo à liberdade! Fases e mais fases galgadas, algumas parecendo sentenças de dias ou semanas, até que:

(alerta de spoiler: se não quer saber como é a fase, pule a imagem. Ou melhor, saia desse jogo, você consegue!)

candy crush 500
Era o Último Chefão (não o livro do Mario Puzzo), depois de 600 níveis jogados – somados os do mundo paralelo – numa estimativa de 250 horas (pouco mais de 10 dias, sem parar) dedicadas, para então…

O quê? Passei de primeira?!? Que merda!


A primeira ação depois da fatídica fase foi excluir o jogo do celular, para conquistar alguns meses de paz sagrada.

Outras atividades floresceram, junto a outras distrações, até que mais algum jogo maldito chamou atenção e entrou sorrateiro no celular.

Foi só nessa substituição que percebi o desperdício na utilização de um recurso essencial. Não, não é o tempo! Ninguém mandou tentar adivinhar…

É a atenção que faz toda a diferença. Ela faz parte do nosso tempo, e talvez nada consuma tanto a nossa energia. O tempo já não tem o mesmo valor. Não basta para o canal de televisão que você deixe a novela ligada, contribuindo com uma audiência vazia, se a sua atenção é do Candy Crush, ou de outra distração em seu alcance. O canal precisa que você dê foco a ele, para que possa interagir depois com as novidades relacionadas em um portal de internet, fale sobre o tema em redes sociais, e transforme essa interação em consumo. Dá até para tentar criar uma equação:

tempo = atenção + distração + sono
(as três parcelas interessam para você, mas só uma para os outros)

A interação é o negócio do momento, e a atenção é o recurso pelo qual se compete.

“O que a informação consome é bastante óbvio: ela consome a atenção de seus destinatários. Dessa maneira, uma riqueza de informação cria uma escassez de atenção e uma necessidade de alocar essa atenção eficientemente entre a superabundância de fontes de informação que podem consumi-la.” —Herbert Simon, prêmio Nobel de Economia (1916 – 2001)

Já reparou quantos serviços de curadoria e similares surgiram? Sejam os especializados, ou os que fazem o serviço indiretamente, por qualquer tentativa de recomendação de conteúdo: Netflix, lojas virtuais como Amazon, portais e blogs na internet, e até eu e você, em nossos murais de Facebook ou feeds no Twitter.

Eu continuo mero aprendiz no tema, caio nas armadilhas que visam minha atenção, mas estou ciente do fato e procuro revisar os gargalos que absorvo. Muitos locais de conteúdo me ajudam nesse processo, mas a curadoria a gente deixa para o ano que vem. O fim de ano está aí para uma limpeza geral – no celular, no armário, na mente. Pode sair uma resposta interessante se você se fizer a pergunta: O que você tem feito com a sua atenção?


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