O século nacionalista

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Transições de ano são momentos apinhados de expectativas para o que se inicia, e de reflexões sobre aquele que passou. Tão importante quanto essa retrospectiva para a continuação de nossas vidas, é a revisão de décadas ou séculos para toda uma sociedade. Já reparou como alguns movimentos que surgem em notícias ou ruas de hoje aparecem de tempos em tempos?

Guarde as ideias acima, e vamos rapidamente à Idade Média. A noção de dualidade era fortemente representada em várias instâncias, especialmente na figura da Igreja Católica, em definições de Céu e Inferno, Bem e Mal.

O Renascimento e a Idade Moderna ampliaram essa polaridade, especialmente no mundo Ocidental: Metrópole x Colônia; Religião x Ciência, mundo conhecido e mundo por descobrir.

A Revolução Francesa inicia a Idade Contemporânea, e junto com esta a longa batalha entre Esquerda e Direita. A Revolução Industrial intensificou a divisão de mundo desenvolvido e subdesenvolvido, e com o Iluminismo, Ciência e Religião se afastaram mais e mais.

Tudo era cada vez mais dual.

Agora, como faríamos com o ano que se despede, podemos dar um zoom (ou usar uma lupa, para os nostálgicos). O século XX chega chacoalhando as tendências já na 1ª Guerra Mundial. Interesses começaram a se tornar plurais, culminando em uma batalha diferente até então, ainda que com lados vencedor e perdedor. O mundo já era outro a partir dali, mas os resultados ainda culminaram na 2ª Guerra – intensamente bipolar em alguns aspectos, mas extremamente cinza, como a vida após esta. O pós-Guerra traz ainda mais movimentos contrastantes:

  • Guerra Fria – dual
  • G8 – plural (incluindo todos os protagonistas dos dois adversários da Guerra, Aliados e Eixo)
  • Intensificação da batalha Direita x Esquerda, na forma de Capitalismo x Socialismo – dual
  • Criação de órgãos como ONU, Banco Mundial e FMI – plural
  • 1ª trilogia Star Wars – dual
  • 2ª trilogia Star Wars – plural

Demorou muito – mais de 40 anos – para o fim da Guerra Fria, concomitante com a chegada do final do século. Um período tão longo sob uma forte nuvem bipolar gera ainda hoje um costume de se destacar a disputa entre Capitalismo e Socialismo (ou, para alguns, entre democracia e comunismo) como a grande disputa do século. No entanto, assim como branco e preto não revelam tudo sobre todas as cores, essas duas grandes forças não são capazes de representar todos esses movimentos. Falta falar no Nacionalismo.

Para o historiador John Lukacs, no livro “O Duelo: Churchill x Hitler” (1990) “… o erro fatal do comunismo, assim como da democracia, foi ignorá-lo até que fosse – quase – tarde demais.”

Por que erro fatal de ambos? O final da 1ª Guerra dava vazão aos dois movimentos. A Revolução Russa, de um lado, dando potencial ao comunismo para se tornar realidade no mundo. Já os vencedores da guerra, potências europeias democráticas, fariam-nos pensar que o modelo vitorioso seria nada mais que replicado pelo resto do planeta.

Nenhuma das duas coisas aconteceu. O período entreguerras viu uma derrocada do modelo democrático. Exemplos: Albânia, Alemanha, Áustria, Bulgária, Espanha, Estônia, Grécia, Hungria, Itália, Iugoslávia, Letônia, Lituânia, Polônia, Portugal, Romênia, Turquia – para ficar apenas na Europa. Ainda há países na América Central, América do Sul, Ásia, como a China e o Japão… Ah, o Brasil também!

Bom, se esses países deixaram o lado do modelo democrático ocidental, foram para o comunismo? Quem lembra da Era Vargas sabe que não foi assim aqui. Também não foi assim em geral.

Mussolini, na Itália, começou o movimento do fascismo, mas deixemos especificidades de lado. Era um baita nacionalismo. A maioria dos países da lista seguiram essa tendência, e pegamos o bonde. Em meio a esse grupo, em uma denominação mais rara, Hitler seria o grande apóstolo do nacionalismo moderno, extensamente difundido no século XX.

O nacionalismo pegou tanta gente, já nesse período entre 1920 e 1940, mas foi forte mesmo? É só ver do que o Eixo foi capaz na 2ª guerra. Foi necessária a formação dos Aliados para derrotá-los – e quem estava no grupo dos Aliados afinal? Aqueles dois famosos lados, por uma vez unidos, com Estados Unidos, Grâ-Bretanha e Rússia como expoentes.

Esse movimento, no entanto, não se resume à primeira metade do século. Quantas ditaduras se formaram na África, trocaram ou foram renovadas nas Américas, no Oriente Médio, de cunho nacionalista? A própria ditadura militar no Brasil se encaixa. Peço aqui que ignore o lado que porventura tenha entre esquerda e direita. A União Soviética de Stálin e outrem não foi nacionalista? Os presidentes americanos não tomaram e tomam inúmeras medidas nacionalistas? Basicamente qualquer governo nacional, independente de ideologias socioeconômicas, tiveram vertentes geopolíticas estabelecidas pelo nacionalismo.

A virada de século nos trouxe um tempo mais plural, como no exemplo da segunda trilogia de Star Wars. Histórias são cada vez mais complexas, e o conceito de anti-herói domina as produções. No entanto, a barreira nacionalista continua de pé. As guerras ainda são travadas entre nações. Grupos rebeldes como ETA pretendem construir suas… nações.

É por isso que, passado algum tempo da dualidade que tomou conta do Brasil no período de eleições, não é um lado vermelho o foco das minhas preocupações. Não é um lado azul que me causa algum tipo de calafrio. Os temores aparecem em notícias como a de Lula conclamando os nordestinos, chamando seus opositores de nazistas.

Aparecem quando pessoas do Sudeste são intolerantes com as de outras regiões como na enxurrada de posts até criminosos no Facebook.

O nacionalismo não precisa de tamanho. Cria disputa entre bairros, cidades, regiões, países, seres de outros planetas (estes, por enquanto, apenas em Hollywood). Os “irmãos” desse sentimento se manifestam entre torcidas de clubes de futebol ou diferentes congregações religiosas. Em meio à disputa de lados a qual todos assistimos, ele se esconde lá na base, se alimentando do ódio que os embates bipolares são tão eficientes em criar.

Primeira medida política para 2015? Vamos reparar no nacionalismo. Filtrá-lo de nossas ideias, não deixá-lo crescer. Nacionalista, já basta o século XX.


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