Esquecemos até do Holocausto?

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Um dia conversávamos, eu e o Nicholas, aqui do Além do Roteiro, sobre as chances de novos conflitos acontecerem, ou até de uma 3ª Guerra Mundial. Típica conversa de amigos no Whatsapp, não acha? Com as crescentes tensões envolvendo a Rússia e a Ucrânia, conflitos intermináveis no Oriente Médio, crise entre os grandes países do leste asiático, grupos como o Boko Haram agindo na África, e ataques como o atentado contra o Charlie Hebdo, será que esse é um papo tão distante?

Em meio aos questionamentos, surgiu na conversa o seguinte raciocínio: talvez, para que grandes conflitos como os do século XX voltem a acontecer, basta que as pessoas se esqueçam de suas consequências. Sim, é aquela velha máxima do poeta espanhol George Santayana, “Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Sem grandes novidades até aí. No entanto, e se a simples passagem de gerações for capaz de provocar esse efeito? Pensemos verdadeiramente sobre isso a partir, por exemplo, dos líderes das nações. Quantos deles viveram a realidade da 2ª Guerra?

Presidentes 1

Presidente 2

Presidente 3
Esses exemplos mostram como a maior parte das pessoas mais influentes do mundo pertence às gerações posteriores ao evento mais impactante do século XX. O que dizer de toda a população mundial?


A Anti-Defamation League é uma organização fundada em 1913, com intuito de combater o antissemitismo. Outras formas de discriminação também se tornaram alvos da ADL com o passar dos anos, como pode ser visto no vídeo abaixo:

Em 2014, a instituição realizou a ADL Global 100, pesquisa de alcance mundial feita em mais de 100 países. Os resultados da pesquisa abrangem uma população de quatro bilhões de adultos. Mais de 80% dos adultos do mundo.

O questionário usado na pesquisa, contendo 34 perguntas, tinha em seu conteúdo 11 estereótipos de judeus, para as pessoas indicarem se concordavam ou não. Aqueles que concordavam com mais de 50% dos estereótipos (seis ou mais), foram classificados como pessoas que apoiavam atitudes antissemitas.

O resultado? 26% dos adultos no mundo nutrem o antissemitismo, ou melhor, um bilhão de pessoas. Bilhão.

Como pode um número tão alto? Fatores como localização geográfica (e as subsequentes culturas ou religiões locais) alteram muito essa proporção. No Brasil, o número de simpatizantes ao antissemitismo é de 16%. Nos EUA, 9%. No Laos, país de menor índice, 0,2%. Na França, em cuja extrema-direita ganhou destaque após o último atentado em Paris, são 37%.

Já no Oriente Médio e Norte da África, são 74%. A região de Gaza lidera, com 93%. Muitos desses números traduzem claramente alguns dos conflitos (armados ou não) que vividos no mundo hoje.


Bem, estávamos falando sobre como a mudança de gerações pode ser perigosa, pela repetição de erros do passado. A pesquisa da ADL se encaixa especialmente por duas das perguntas.

Na questão 9, a pessoa deveria indicar se já ouviu falar no Holocausto. Simples “Sim” ou “Não” (ou não saber/se recusar a responder). Para todos os entrevistados que responderam sim, a pergunta 10 pedia uma escolha entre três opções:
a) O Holocausto é um mito, não ocorreu
b) O Holocausto aconteceu, mas os números de judeus mortos foram exagerados
c) O Holocausto aconteceu, e a descrição histórica é justa

O resultado pode ser visto aqui ou abaixo:

Questão 9 – Porcentagem de pessoas que ouviram falar no Holocausto

Gráfico 1 ADL sem título
Adaptado da pesquisa ADL Global 100

Questão 10 – Porcentagem de pessoas que ouviram sobre o Holocausto, e o consideram um mito ou um grande exagero

Gráfico 2 ADL sem título
Adaptado da pesquisa ADL Global 100

Os dois gráficos acima mostram, respectivamente, os resultados das perguntas 9 e 10. Ainda mais interessante (e preocupante), no entanto, é o gráfico abaixo:

Variação das respostas de acordo com a faixa etária dos entrevistados
Gráfico 3 ADL sem título cor

Em verde, as respostas da pergunta 9, em vermelho, as respostas da pergunta 10. Da esquerda para a direita, a idade dos entrevistados diminui. Daqueles com 65+ anos, 68% ouviram falar no Holocausto, e 19% dos que ouviram, desacreditam nas informações deste. Já entre os adultos de 18 a 34 anos, apenas 48% ouviram falar no Holocausto, e 39% destes desacreditam nas informações do mesmo. A conclusão é clara: estamos cada vez mais esquecendo, negando, o genocídio de cerca seis milhões de pessoas (contando apenas judeus). Seres humanos, como eu e você.

“Mas e as lutas contra racismo, machismo, homofobia? Essas têm evoluído, ainda que com dificuldades!”.

Concordo. Elas estão evoluindo. Contudo, talvez não por um mundo necessariamente melhor do que aquele de 1945. Talvez, sejam apenas as lutas da nossa geração, ou daquela anterior à nossa. As lutas da moda. Talvez algumas delas já estejam sendo substituídas por outras. Talvez, não estejamos nem lembrando que há 70 anos, lutas tão ou mais duras que as nossas foram enfrentadas. Em câmaras de gás.

Precisamos lembrar. Do Holocausto, da Ditadura, de Collor. Conversar com nossos pais, avós, aprender o que eles viveram. Passar para nossos filhos o Mensalão, a crise de 2008, a Lava-Jato. Sem isso, um desses retrocessos, uma dessas catástrofes, pode bater à nossa porta, ou das futuras gerações, e nem perceberemos sua chegada. Será que é um papo tão distante?


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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.

  • Anônimo

    O meio acadêmico científico tem “relógio de conflito”, que é usado para estimar o quão próximo um confronto, de proporções graves, entre países, está por acontecer, sendo 12:00 o horário convencionado como “War hour”.

    Em 1984, esse relógio marcou 11:55. Atualmente, marca 11:57

  • Nicolau

    Assim a mentira holocau$tica está caindo! Atrás dessa mentira holocau$tica, se esconde o comunismo judeus do judeu Marx que matou 100 milhões de pessoas no Gulag e Sibéria!

  • Lucas Lima

    Se a situação é assim para o Holocausto, que é mostrado nas aulas sobre Segunda Guerra Mundial nas escolas, imagina a situação do genocídio promovido pelos turcos aos armênios?

    Diversas diásporas ocorreram no último século, e assim continuam nos dias de hoje, movidas pelo ódio e perseguição a grupos distintos. E, quando isso chega a um ponto de nacionalismo se acentuando, como vem se intensificando hoje em dia, caminhamos cada dia mais para ter uma guerra nas proporções da última grande guerra. Infelizmente não estamos aprendendo com os erros do passado. Espero que não cheguemos a esse ponto.

    • Pois é, Lucas. Me assusta ainda mais quando pessoas com o poder de tomar essas decisões estão dentro desse cenário, como grande parte dos líderes mundiais hoje.