O que ganhamos com a vitória da Beija-Flor

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“Beija-Flor de Nilópolis: Nota 10!”

Provavelmente a frase mais reproduzida por Jorge Perlingeiro, diretor da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e locutor da apuração carioca, ao longo da era pós-Sambódromo.

A escola de Nilópolis alcançou mais uma vez o título de campeã, dessa vez com uma polêmica especial: o patrocínio recebido para levar à avenida o enredo sobre Guiné Equatorial. O governo africano teria pagado R$10 milhões de reais para a agremiação. O presidente da Beija-Flor confirma o patrocínio, mas nega o valor. Um dos carnavalescos confirma o patrocínio por parte de empresas brasileiras com negócios no país do outro lado do Atlântico – empresas como Odebrecht e Queiroz Galvão, investigadas na Operação Lava Jato.

Para qualquer lado que se olhe, a história cheira mal. Como veio esse dinheiro? Do governo de fato ou dessas empresas? Ou do governo, através das empresas? Por que uma escola aceitaria um patrocínio de uma ditadura?

Junte isso à maior vencedora – e mais odiada – das últimas 3 décadas do carnaval carioca, e temos a proliferação de memes, postagens revoltadas nas redes sociais, e notícias de grandes mídias sobre o que se fala nas alternativas – até a Anistia Internacional se pronunciou. Enfim, essas são boas notícias.

A decisão do enredo da Beija-Flor é, sim, condenável. A escola escolheu retratar a história da Guiné Equatorial como a história da luta contra a escravidão e o colonialismo europeu. Fatos, claro. Haveria maneira melhor de esconder os podres de uma história destacando as outras verdades óbvias?

O que o enredo esquece de contar: os 35 anos de ditadura do presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, com o típico currículo de caçador de opositores, da imprensa, repressor do povo; uma desigualdade social que se revela quando comparados o maior PIB per capita do continente africano, e a 144ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano.

"Olha a Guiné Equatorial aí, gente!"
“Olha a Guiné Equatorial aí, gente!”

Na única abordagem feita ao período mais recente da história do país, o enredo afirma: “Um ode à liberdade anuncia o grito de independência: rompam-se as algemas! Abaixo a dominação! De braços dados, revela-se uma nação fraterna, ávida por união”. Isso para um país com mais de 12 tentativas de golpes de estado desde a sua independência.

A chuva de críticas ganha relevância, no entanto, por ser mais uma demonstração de que vivemos um momento de questionamentos mais fortes, os quais se espalham mais velozmente na rede, e promovem menos aceitação do inaceitável. Falta muito, entendo, mas será que o enredo campeão da Vila Isabel, em 2006, patrocinado pela PDVSA, estatal do petróleo da Venezuela, e comemorado por Hugo Chávez, teve valores tão diferentes?

O histórico do carnaval carioca com o jogo do bicho, os barões tantas vezes presos e ainda assim comandantes da festa, o dinheiro ilícito, não merecem o mesmo repúdio?

Parece que ganhamos alguma vergonha na cara. É ótimo que esse enredo da Beija-Flor seja criticado. Desde que não pare em “torcida” e alimente uma visão social mais madura sobre o carnaval. As escolas devem ter vergonha de defender instituições ou ideias antiéticas, quaisquer que sejam elas. Vergonha de usar dinheiro sujo para promover sua existência. Se o carnaval carioca é o maior espetáculo da Terra, como dizem os viventes do mundo do samba, que se torne um espetáculo de fato, limpo. Se a vergonha tiver de nascer do público, ótimo. Chega de aplaudir os desfiles de tiranos e ladrões.


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