7 passos para andar melhor na rua

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Quanto tempo faz que você não pensa no seu andar? Ou na sua capacidade de falar “mamãe”? Anos, décadas, não é? Ações básicas, como andar ou falar, se tornam mecânicas após o processo de aprendizagem. Natural – ou você está pensando na sua respiração nesse momento?

Ao mesmo tempo em que essa “automação” das atividades é crucial para que consigamos fazer mais, é importante parar um pouco e refletir se estamos fazendo aquilo que achamos tão básico da melhor forma possível. Essa reflexão pode valer muito para uma ação simples como andar na rua. Além de útil, é necessária também. Quer uma prova? Tente lembrar então da última vez que você andou na rua (de uma cidade grande) e não se irritou em algum momento.

Se você nunca se irritou, pode parar aqui, escrever um livro e compartilhar seu segredo com o mundo. Eu me irrito, então procurei me atentar a erros que eu cometo, ou pensar em ideias que beneficiariam a todos nós que andamos na rua. Importante: essa não é uma lista de dicas de segurança. São muitas, de fácil acesso, e prefiro evitar redundância. Nada de “olhe para o lado antes de atravessar a rua!” também.

1. Calçada ou asfalto?

Era uma vez uma época em que as pessoas mandavam na rua, e os carros que se adaptassem. Essa época se foi. Hoje os automóveis andam soberanos, e nós concorremos por espaço com pontos de ônibus, carros estacionados, bicicletas e nós mesmos. Uma das melhores formas de evitar colisões nos pequenos espaços de calçadas está no uso da lógica dos automóveis também ao andar.

Calma, você não precisará passar a marcha. Em passagens estreitas, no entanto, como escadas, escadas-rolantes, rampas, copiar o trânsito é a forma mais fácil de evitar encontrões. Como?

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Bush esbarrando nele mesmo.

Fique à direita. Vai descer a escada? Vá pela sua direita. Subir a escada-rolante? Sua direita. Andar em uma passarela? Acho que você já pegou a ideia. Dessa forma, as passagens funcionam como uma estrada de mão-dupla, porém com menor gravidade nos acidentes.

Essa simples ideia já permite trazer mais cópias do trânsito. Nem todos andam na mesma velocidade; você deve estar com pressa para não chegar atrasado ao trabalho, então por que não ir pela esquerda? É o que todos vão pensar, e o caos retorna. Priorize a direita e faça as ultrapassagens quando necessário. É exatamente como o carro: esquerda, ultrapassagem, direita, e repete-se o ciclo até o destino.

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2. Celular

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Eu prometi que não teríamos o “olhar na hora de atravessar a rua”. Não dá para escapar, contudo, da versão moderna. Pare de olhar o celular na hora de atravessar a rua!

De todos os passos da lista, esse é o que mais revolta, simplesmente porque eu já fiz isso. Várias vezes. Talvez eu tenha feito ontem, sem perceber. Já que preciso me lembrar constantemente, estendo a você. Guarde o celular no(a) bolso(a) antes de atravessar a rua, não vai doer.

3. Fone de Ouvido

Depois que a lei proibindo o som alto em serviços como o ônibus ou metrô entrou em vigor, pensei que teria mais dias de paz. Ledo engano. A utilização dos fones de ouvido teria tudo para ser uma salvação, desde que todos se lembrassem que fone de ouvido não é micro system.

Fone de ouvido ou som de boate?
Fone de ouvido ou som de boate?

Por que escutar uma música tão alto? Se eu estou escutando a sua música a dois corpos de distância (uma enormidade em um metrô lotado), além de causar o mesmo transtorno do radinho de pilha para quem está à volta, você também causa um mal danado aos seus ouvidos. Usar o volume até a metade do disponível costuma ser uma boa referência.

4. Mochila (e similares)

Essa pode causar muitos transtornos para quem anda na rua. A regra básica de uma mochila é: trate ela como parte do seu corpo.

Isso quer dizer que, se viramos para o lado, devemos levá-la em consideração, ou a jogaremos em cima de alguém. Pode parecer óbvio. Tão óbvio que todos esquecemos e esbarramos em mochilas e bolsas todos os dias.

Na hora de andar, leve-a presa aos dois ombros, ou a segure embaixo, com uma das mãos. Presa a um ombro não dá certo, você eventualmente baterá em alguém.

Vamos ver o que fazer em um lugar apertado, como o trem, com um pequeno exercício. Na imagem a seguir, imagine o homem, à esquerda, com a mochila na frente do corpo. A mulher, à direita, está (na nossa definição) com a mochila nas costas. Qual utilização está correta?

Pedestres com mochila

Nenhuma das duas.

“Mas a voz no trem avisa para usarmos a mochila à frente do corpo, por segurança!”.

Sim, é uma boa dica de segurança, mas não acrescenta nada em espaço. Na verdade, mochila e barriga cheias podem ocupar ainda mais espaço do que a configuração tradicional. No entanto, é difícil encontrar alguém que ocupe uma área, na altura das pernas, igual ou maior que a área ocupada por seu tronco. Esse espaço pode ser bem usado para o conforto de todos – segurando a mochila ali.

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Não conheço essa galera antenada, mas eles sacaram “de boa”.

O peso da mochila pode ser um problema, para isso, procure revezar a mão que a segura. Se o lugar for favorável, apoiá-la no chão mesmo também é opção. Manter a mochila entre as pernas, ou bem em frente a elas, já proporciona bastante segurança se comparado a deixá-la nas costas.

Em ônibus, há também o outro papel, daquele que oferece o colo para mochilas e bolsas alheias. São claramente pessoas abençoadas. Além de aliviarem o peso do dono do carregamento, também promovem a criação de mais espaço para aqueles que estão apertados no corredor.

Se você é o desafortunado no corredor do ônibus, tire a mochila das costas. Coloque-a na frente do corpo. As chances de a pessoa sentada à sua frente oferecer o colo para a sua mochila aumentam drasticamente (método comprovado por mim mesmo, mas apenas para a mochila!). Pode parecer sujeira dar essa dica, mas lembre-se, você também está liberando espaço para os outros, não é só para benefício próprio (já pode dormir sossegado).

5. Pessoas não têm seta

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Lembra que falamos da ultrapassagem enquanto estiver andando em corredores, escadas, etc? Esteja em uma dessas passagens, ou na própria calçada, é crucial lembrar que pessoas não têm seta, nem retrovisor. Vai fazer uma ultrapassagem, olhe para trás, veja se não vai bater em alguém ao mudar de direção.

O mesmo vale também quando estiver em uma calçada (ou corredor de shopping) e for simplesmente parar para olhar uma loja. Nosso corpo não conta com luzes auxiliares que avisem que freamos. A aproximação até a loja completa o quadro, como se saíssemos de uma estrada para pegar uma via transversal. Você não faria o segundo sem olhar, não é mesmo?

6. Assentos preferenciais

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Esse item pode ser engraçado ou trágico. A iniciativa existe para que todos deem mais valor às necessidades de “pessoas idosas, gestantes, pessoas com crianças de colo, ou portadores de necessidades especiais”. Em um mundo utópico, qualquer lugar é preferencial.

Estando mais para distopia do que para utopia, acabamos invertendo todo o sentido. Os lugares preferenciais são interpretados como lugares exclusivos – e únicos. Metrô, ônibus, não importa, as pessoas evitam qualquer lugar com a cor indicativa de assento preferencial, ávidas por lugares onde podem se sentar sem o peso na consciência de se preocupar com levantar para alguém.

Parece que a ideia de perda ao “ter que” levantar para que alguém se sente é maior do que a possibilidade de conforto temporário. A escolha pelo desconforto completo é a regra. Já vi, muitas vezes, lugares preferenciais vazios enquanto pessoas se entulhavam em pé. Dá vontade de oferecer um lugar “comum” para alguém, e ir sentar em um preferencial, para permitir que mais uma pessoa viaje sentada.

Vamos simplificar? Quer sentar, sente. Alguém precisa mais, levante.

7. Peça desculpas ativamente

Seguir esses passos é uma forma de ajudar o andar na rua a acontecer de forma mais tranquila, ou mais eficiente se necessário, mas nada disso garante que não ocorrerão colisões e conflitos.

Acontece que brigar na rua é uma das maiores perdas de tempo possíveis. Queremos chegar a algum lugar, a pessoa em quem esbarramos também – quem sabe até ao mesmo lugar -, então por que não seguir? A maneira mais fácil de não deixar que uma colisão vire um conflito desnecessário é pedir desculpas de forma pró-ativa. Pode ser via fala, via mão espalmada, basta que comunique a mensagem.

Sempre pode haver alguém na rua mais estressado que nós, mas pouquíssimas pessoas não se desarmam com um pedido de desculpas. Ninguém precisa provar nada, ser pró-ativo e assumir a responsabilidade de não entrar em uma briga boba é um bom caminho para um dia mais tranquilo.

Existem muitas outras possíveis dicas para melhorarmos essa ou qualquer outra ação imersa no nosso cotidiano. Nunca conhecerei todas, então sinta-se à vontade para contribuir aqui embaixo e aumentar essa lista. Em caso de dúvidas do que fazer, a solução é clara (ainda que difícil). Colocar-se no lugar do outro.


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