Tribo Mosuo

A tribo Mosuo e o Dia Internacional da Mulher

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A uma altura de 2.700 metros, no sul da China, às margens do Lago Lugu, vive a tribo Mosuo, talvez a última sociedade matriarcal do planeta. Nela, as mulheres mandam; são responsáveis por gerir o dinheiro, as propriedades, além de o nome da família ser perpetuado de mãe para filha.

Mas o mais marcante é que elas escolhem com quem transar, onde transar e quando transar.

Quando alcançam seus treze anos, as mulheres da tribo passam por um ritual chamado Zou Hun (casamento passageiro), no qual são integradas à vida social – quase como um Bar Mitzvá, para os jovens meninos judeus. A partir desse ritual, as mulheres passam a deter total controle de sua vida sexual, podendo escolher seus parceiros, sem serem julgadas por isso, e não ficam, de forma alguma, dependentes deles.

Por outro lado, os homens são relegados a papéis secundários, inexistindo vocábulos como “marido” ou “pai”. Eles também são responsáveis pelas atividades domésticas e recebem ordens das mulheres em atividades comumente masculinas, em terras ocidentais, como a pesca e a criação de animais. Os homens estão plenamente conscientes de seu lugar e não questionam a liderança das mulheres. Sua principal função é a de reprodução – desde que a mulher o escolha.

Não existe prostituição ou violação. Se a mulher não quiser um homem, ela simplesmente fecha a porta para ele; literal e figurativamente. Elas mandam, eles obedecem. Embora possam ter quantos parceiros desejarem, as mulheres Mosuo costumam trocar de companheiro poucas vezes na vida e não é comum manterem relações com vários homens no mesmo período.

Se você é homem, e achou isso um completo absurdo, você deve parar e pensar que as mulheres foram tratadas (e ainda são) dessa maneira por centenas, milhares de anos.

Por que os homens sobem pelas escadas rolantes, e as mulheres não?

As mulheres Mosuo tem algo que todas as mulheres deveriam ter – liberdade sexual. Elas dão para quem querem dar, quando querem dar, se quiserem dar, e ninguém tem nada a ver com isso. Essa liberdade sexual nasce do respeito, que é cultivado de uma forma raramente vista em outra sociedade, seja ocidental ou oriental.

As mulheres lutaram por anos pelos direitos femininos. Mulheres como Margaret Fuller, Elizabeth Cady Stanton, Susan B. Anthony, Emmeline Pankhurst, a garota Malala, lutaram pelo direito do voto, de trabalhar, de estudar; enfim, de terem direitos iguais, dignidade, e, por fim, de terem completa liberdade com suas atitudes e decisões. Elas não lutaram para poderem dar, mas isto é uma consequência direta de suas lutas, um abandono ao velho moralismo velado que, infelizmente, nos acompanha como um fantasma, uma insistente reminiscência do passado.

Por causa desse moralismo, homens culpam as mulheres pelo estupro; defendem a legalização do estupro; fazem, publicamente, apologia ao mesmo; alegam que as mulheres, devido às suas vestimentas, são culpadas pelos seus atos, e os leva a criticarem a Lei Maria da Penha.

O machismo está tão impregnado em nossa sociedade, que ninguém o percebe latente na simples frase, muito difundida pelos homens, nas mais variadas formas: “a mulher ideal é …”. Afinal, mulher ideal é aquela que ela mesma decidiu ser.

O patriarcalismo está tão impregnado em nós que não percebemos quão falho ele é. Considerando um dos poucos exemplos de uma sociedade guiada pelas mulheres, vemos que, ao contrário de uma sociedade guiada por homens, não submete os homens aos mesmos abusos.

O que podemos aprender (ou lembrar?) com a tribo Mosuo é que as mulheres são plenamente capazes de fazer o que bem entendem; que os homens não devem ditar seus caminhos, o que devem comer ou vestir, como devem se comportar. O que podemos aprender com a tribo Mosuo é que feliz será o dia em que não mais precisaremos comemorar o Dia Internacional da Mulher. Afinal, existe o Dia Internacional do Homem?


A imagem de capa é de autoria da fotógrafa Clare Elliott. Clicando no link, você pode ver as belas imagens feitas com a tribo Mosuo.

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  • thais oliveira
  • thais oliveira

    Gostaria de conhecer suas obras, seus romances. Parabéns pelo belo texto.