Dia Internacional da Mulher

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Nascer homem no Dia Internacional da Mulher é uma sina.

Não no início, é claro, visto que eu nem sabia o que era uma data. Lá pelos 6, 7 anos – quando crianças já conseguem ser más por conta própria -, a noção dessa sina começava a aparecer. Alguns diziam “parabéns… pelo dia internacional da mulher!”, outras procuravam o que o meu nascimento nessa data podia significar sobre mim. Nada, descobriria depois, mas que criança pensaria nisso, na época?

É o tipo de situação que soa injusta quando ainda nem sabemos o que é uma injustiça. Por que nascer logo nessa data? Presente seria que o Dia Internacional da Mulher fosse outro, não o meu oito de março.

Pouco mais crescido, já na fase Orkut, encontrei a comunidade “Nasci em 8 de março, e daí?”. Havia mais garotos na mesma situação, o que dava certo alívio. Um tanto de gente aguentando as mesmas piadas, as mesmas cenas desconcertantes de parabéns para todas as meninas em volta, até que alguém lembra que, ei, não é o seu aniversário hoje? Agora sim, alguns parabéns… e mais piadas.

Demora um pouco até aprendermos sobre a origem da comemoração do dia, a história do incêndio criminoso pela greve na fábrica têxtil. Triste origem.

O amadurecimento facilitou a percepção da discriminação em vários eixos da sociedade. A data começava a fazer sentido nessa época. Eu queria que as pessoas repetissem menos as piadas de praxe, claro, já mais por cansaço do que por ofensa. O incômodo, no entanto, diminuía.

A conscientização dos progressos e retrocessos, da importância da data, cresceu junto com a queda da valorização do meu próprio aniversário. Legal, nasci nesse dia alguns anos atrás, e daí? Por que tem que querer dizer alguma coisa? Há coisas mais importantes para serem valorizadas, afinal.

Chegou o momento, no entanto, de perceber que continuo não me sentindo à vontade de dizer a uma mulher “Parabéns pelo Dia Internacional da Mulher”. A data tem valor, mas esses “parabéns” não têm o valor que quero cultivar. O tal incêndio do 8 de março na verdade ocorreu em 25 de março de 1911.

Felizmente, pois as mulheres que imaginei que morreram nesse dia não morreram. Infelizmente, morreram outras, e morrem ainda, todos os dias. Quando não morrem, são submetidas, humilhadas, discriminadas de incontáveis formas.

É, não consigo dizer “Parabéns pelo Dia Internacional da Mulher”. Não faz sentido aos meus ouvidos. Já um “Parabéns por aguentar tudo isso todos os dias”, ou “Parabéns por conseguir se levantar e enfrentar esse mundo mais uma vez” me parecem opções mais reais.

Adaptarei, então, o desejo de presente dos 7 anos de idade. Não uma mudança de data, mas um fim dela. Presente seria um mundo que não precisasse comemorar uma data como essa. Aí, quem sabe, eu conseguiria voltar a dar valor ao meu aniversário. Mas não agora, há coisas mais importantes para serem valorizadas.

Parabéns, mulheres. Pelo que já conseguiram, e pelo que conseguirão.


A imagem de capa é de autoria de Martina K , postada na plataforma OGQ Backgrounds HD.

Não foram feitas alterações. A licença pode ser vista aqui.

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