Chega Gabriel O Pensador

7 músicas de protesto que você deveria ouvir

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Quem foi em algum protesto em 2013 ou nesse ano viu muitos dos elementos comuns às manifestações. Brigas e embates contra forças policiais; paz em outros casos; a criatividade de cartazes e fantasias. Também ouviram ou cantarolaram letras sobrepostas a melodias mais comuns em estádios de futebol ou marchinhas de carnaval, intercaladas com o hino nacional.

É fácil destacar a diferença causada pela tecnologia nos protestos recentes, se comparados com as aclamadas lutas dos Caras Pintadas, das Diretas Já, ou mesmo as de 1968. Me surpreende, no entanto, a diferença no som.

Não é que não faça sentido. Em épocas de repressão presente ou recente, a simples vontade entalada de gritar, e gritar qualquer coisa, já era alimento para as chamas de músicas como o Cálice de Chico Buarque, Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores de Geraldo Vandré ou os muitos sucessos ácidos de Legião e Cazuza. Elas eram populares porque eram geniais, sim, mas também porque o povo precisava que fossem.

Essa necessidade se esvaiu com as memórias de uma geração que não precisava mais lutar pelo país, mas para botar filhas e filhos no ensino privado, rumo ao público.

Filhas e filhos (ou netos e netas), nós, que crescemos achando Renato Russo um cara super legal – mas vintage – e que pop mesmo nada tinha de protesto, afinal, quem precisava protestar?

O gigante acordou, começamos a ir pra rua, e eis que as únicas músicas de “massa” que conhecemos são as tais melodias de estádios de futebol e blocos de carnaval. “É o que tem pra hoje!”, dirá um manifestante de 15 de março. Será?

Podemos não cantar as próximas músicas dentro dos protestos vindouros, mas vale ao menos algumas escutadas em produções pós anos 90 que falam da realidade mais com “a nossa cara”.

Chega! – Gabriel O Pensador

Mais nova da lista, essa é a canção que vem sendo compartilhada e já deve ter aparecido no seu Facebook. Chega!, do Gabriel O Pensador.

Não dá para destacar um pedaço dessa letra. Sério, só dá play.

Tribunal de Rua – O Rappa

O Rappa tem grande destaque por músicas fortes e inteligentes – especialmente na fase com Marcelo Yuka – cantando obras como Minha Alma ou O Que Sobrou Do Céu. Destaco aqui a mais visceral, Tribunal de Rua.

O cano do fuzil
Refletiu o lado ruim do Brasil
Nos olhos de quem quer
E quem me viu, único civil
Rodeado de soldados
Como se eu fosse o culpado
No fundo querendo estar
À margem do seu pesadelo
Estar acima do biotipo suspeito
Nem que seja dentro de um carro importado
Com um salário suspeito
Endossando a impunidade
À procura de respeito

Zé do Caroço – Revelação

Saindo um pouco do rap e do rock, sambas antigos ressurgem a cada artista que promove regravações. É o caso de Zé do Caroço, de Leci Brandão, aqui interpretada pelo grupo Revelação.

E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda gente com sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela

1406 – Mamonas Assassinas

“Ah, Mamonas Assassinas com música de protesto? Só pode ser brincadeira!”. Brincar com coisa séria é um dos grandes papeis do humor. Reflexões sutis (alguma coisa em Mamonas era sutil?) podem ser vistas em Chopis Centis ou em Jumento Celestino. Apesar de traços machistas que eram menos condenáveis em 1994, a música 1406 retrata brilhantemente a inflação da época – ou seria a de agora?

Eu queria um apartamento no Guarujá mas o melhor que consegui foi um barraco em Itaquá
Você não sabe como parte um coração, ver seu filhinho chorando querendo ter um avião
Você não sabe como é frustrante, ver sua filhinha chorando por um colar de diamantes
Você não sabe como eu fico chateado, ver meu cachorro babando por um carro importado

Trabalhador – Seu Jorge

Voltando ao samba, Seu Jorge é um dos que regravou Zé do Caroço, mas também tratou de compor novos sambas com retratos da nossa realidade, como em Trabalhador.

E sem dinheiro vai dar um jeito
Vai pro serviço
É compromisso, vai ter problema se ele faltar
Salário é pouco não dá pra nada
Desempregado também não dá
E desse jeito a vida segue sem melhorar

Desabafo – Marcelo D2

Outro destaque do rap nacional, Marcelo D2 desabafa aquilo que sentimos em várias músicas, enquanto procura pela batida perfeita. Nada mais justo do que escolher aquela que já entrega o sentimento no nome.

Ok, então vamos lá, diz
Tu quer a paz, eu quero também,
Mas o estado não tem direito de matar ninguém
Aqui não tem pena morte mas segue o pensamento
O desejo de matar de um Capitão Nascimento
Que sem treinamento se mostra incompetente
O cidadão por outro lado se diz impotente, mas
A impotência não é uma escolha também
De assumir a própria responsabilidade
Hein??

Palavras Repetidas – Gabriel o Pensador

Vejo Gabriel O Pensador como o mais marcante rapper dessa geração, ainda que tenha saído do destaque midiático.

Renato Russo se tornou antológico.

Quando o primeiro cria uma música na sua especialidade sobre uma das obras-primas do segundo, é melhor encerrar.


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