Jerusalém

Jerusalém: Uma história – Parte 1

Tempo médio de leitura: 5 minutos

Nos últimos anos, tenho nutrido um fascínio imenso pelo mundo do Oriente Médio. Hoje, somos bombardeados pelas mídias internacionais com notícias perturbadoras de terrorismo, como o Estado Islâmico, o Boko Haram, o Hamas, dentre outros. Certamente que essas notícias são de fato perturbadoras e, de certa forma, verdadeiras, mas elas compreendem um período ridiculamente pequeno da história do Oriente Médio.

Antes de chegar ao assunto – Jerusalém -, devo lembrar que o Oriente Médio, como o conhecemos hoje, é fruto de uma divisão feita pelos países vencedores da Primeira Guerra Mundial (França e Império Britânico), que, por consequência, levou à criação de países como Jordânia, Líbano, Síria, Arábia Saudita, Iêmen, Iraque e, não inteiramente, Israel e Palestina, ignorando culturas, políticas e religiões completamente diversas.

O objetivo aqui não é dizer “o terrorismo é culpa do Ocidente”. Não é; não inteiramente, pelo menos. O objetivo é mostrar que o Oriente Médio é mais do que apenas fome, genocídio, terrorismo e guerra. É história, é o centro das religiões monoteístas oriundas de Abraão, é fonte de uma pluralidade de culturas, todas belíssimas em muitos aspectos.

Em especial, Jerusalém, uma das cidades mais importantes da história da humanidade.

“A visão de Jerusalém é a história do mundo; e é mais: é a história do céu e da terra”.
Benjamin Disraeli.

Um pouco de contexto histórico

Para entender o porquê de Jerusalém ser tão notável, é importante analisar o primeiro século da Era Cristã. A cidade foi o epicentro da criação das três maiores religiões atuais. Digo epicentro porque ela esteve a um passo de ser destruída (de novo) e, a civilização judaica, ficou a um passo da extinção.

Os judeus, na época do Imperador Nero (aquele mesmo que incendiou Roma e dá nome a um gravador de CD/DVD, propositadamente chamado de Nero Burner), eram aliados de Roma, mas aqueles estavam muito insatisfeitos com os rumos que a política e economia da capital do Império haviam tomado. Eles, então, se aproveitando do suicídio de Nero, bem como do caos que se seguiu, resolveram expulsar os romanos e restabelecer um Estado judeu independente.

Certamente que o Imperador não ia permitir que uma de suas províncias se rebelasse. Vespasiano enviou seu filho, Tito, para invadir e tomar Jerusalém. O cerco de Roma na cidade durou alguns anos, e foi extremamente sangrento. Uma média de 500 judeus eram mortos todos os dias, sendo eles crucificados à vista de todos. Se Jerusalém fosse tomada, e todos os judeus fossem mortos (o que parecia que inevitavelmente ocorreria), o destino da cidade não apenas selaria o destino da própria cidade e de seus moradores, mas também o futuro da religião judaica; e, por consequência, a pequena comunidade cristã, encabeçada por Simão, primo de Jesus, e, seis séculos depois, a religião islâmica.

O surgimento do mito do Muro das Lamentações

O povo judeu, mesmo sob cerco e ataques impiedosos do exército romano, suportou muito mais do que era esperado. Por isso, Tito e seus generais resolveram atacar aquilo que dava esperança ao povo rebelde: o Templo de Herodes, que era considerado uma fortaleza inexpugnável. Seus legionários colocaram fogo no templo, que veio a baixo não muito tempo depois, levando consigo a vida de mais milhares de judeus.

Só uma parede resistiu ao incêndio. O imperador Tito deixou o muro como uma constante lembrança da derrota da Judeia contra Roma; por outro lado, os judeus atribuíram isso a uma promessa divina, segundo a qual sempre ficaria de pé ao menos uma parte do sagrado templo, como símbolo da sua aliança perpétua com o povo judeu.

O Muro é uma lembrança milenar da sobrevivência da cidade, bem como dos judeus. Mas não é a única.

Jerusalém: Uma visão geral

Jerusalém sempre foi campo de batalha de civilizações em choque; o desejo de reis e imperadores, o centro de atração de interesses religiosos, políticos e, atualmente, midiáticos; lar de muitas seitas, cada uma acreditando que a cidade lhe pertence com exclusividade; cidade de incontáveis nomes, mesmo que cada tradição se considere única, de tal forma que exclui todos os outros; é o lar de um Deus, a capital de dois povos, o templo de três religiões; a cidade onde as religiões nasceram, e onde o mundo irá terminar, no Dia do Juízo (Apocalipse, capítulo XXI, versículos 2 e 10).

Jerusalém é mágica, o sonho de todos, e também fonte de desapontamento. Cada sonhador – desde os Apóstolos de Jesus aos soldados de Saladino, até os turistas de hoje em dia – tem sua própria imagem da cidade, sempre autêntica. Mas, na verdade, a Cidade Santa está sempre em mutação, uma cidade que foi destruída e reconstruída muitas vezes, que foi inventada e reinventada por inúmeras civilizações, pela absorção de sua cultura ou pela imposição da mesma, através de espada e fogo.

Isso acabou transformando a Cidade Santa num trabalho de bordado no qual os fios estão tão entretecidos que é impossível separá-los. Cada cultura tentou apagar o passado e construir seu próprio presente, uma imposição (inútil) de sua própria cultura, como se fosse possível apagar inteiramente os vestígios de uma cidade milenar.

Mas Jerusalém, ao contrário do que pode se interpretar da importância que lhe é conferida, não possui uma localização estratégica. Está distante da costa, por isso não é uma rota comercial. Além disso, ergue-se em meio a penhascos, desfiladeiros e pedras soltas dos montes da Judeia, e sempre exposto a invernos gelados e verões quase insuportáveis.

Mapa Oriente Médio
Vale lembrar as aulas de Geografia

Jerusalém também está no meio do conflito israelo-palestino, mais intenso e mais emocional que qualquer outro, e que não mostra apenas dois lados (Israel x Palestina), mas uma pluralidade de culturas interligadas e sobrepostas, um caleidoscópio de ortodoxos árabes, judeus (que englobam os sefarditas, asquenazitas, haredi e seculares) muçulmanos, dentre inúmeros outros grupos etno-religiosos.

A história de Jerusalém é a história do mundo. Nessa série, que se inicia com a cidade mais importante do Oriente Médio (e uma das mais importantes do mundo), resumirei seus quase trinta séculos de história, sempre tendo em mente explicar os conflitos existentes hoje, desde a promessa de Canaã a Abraão até a criação da Palestina.


Esse texto foi escrito com base na obra “Jerusalém: Uma Biografia”, de Simon Sebag Montefiore.

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