Empreendedorismo favela

O crescimento está na favela: repensando seus conceitos sobre a pobreza

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Nesse artigo, quero compartilhar com vocês um material bastante interessante que assisti online na palestra “Como repensar a pobreza na era da destruição criadora | Diogo Costa | TEDxIbmec”, ministrada por Diogo Costa, professor de Ciência Política no Ibmec-MG. O professor Diego é responsável pelo site Capitalismo para os Pobres, fonte obrigatória para aqueles que desejam discutir a pobreza no mundo.

A seguir, transcrevo de forma um pouco resumida a palestra, mas o vídeo também pode ser visto ao final. Para mais referência, veja o vídeo. Para um conteúdo mais rápido, leia o texto. Fica à sua escolha; o vídeo possui pouco mais de 17 minutos.


Tenho apenas uma observação a fazer. Particularmente, não gosto do termo capitalismo por ser uma terminologia já viciada e que reflete relações espúrias entre empresas ou grupos de interesse e o Estado, sendo entendido como o capitalismo corporativista. Porém, entendo que o palestrante coloca de forma a retirar do conceito a dimensão corporativista, focando na questão da tecnologia, seja de gestão ou tradicional.

Acreditava-se que o computador poderia substituir a atividade humana até certo limite, mas percebe-se que, cada vez mais, esse limite se expande. Hoje, carros autônomos do google já andaram por mais de milhão de quilômetros e tomaram zero multas.

Ainda hoje, discute-se quais atividades poderão ser desempenhadas por máquinas, por automação. A discussão já chegou no ponto da possibilidade das máquinas serem responsáveis por apagar incêndios, contabilidade ou atividades legais de direito.

Tal discussão é antiga. Aristóteles já vislumbrava um mundo onde a escravidão (comum em sua época) seria inútil, uma vez que “se a lançadeira tecesse sozinha a tela, se o arco tocasse sozinho uma harpa, os mestres não mais precisariam de operários, nem os senhores de escravos”. Daí, podemos perceber a parte destrutiva da criação.

Provavelmente, se voltássemos ao tempo de Aristóteles e essa automação estivesse acontecendo, pessoas iriam afirmar que era preciso uma legislação para manter os escravos “úteis”; que a tecnologia deveria ser interrompida. Tal ponto seria tão absurdo naquela época quanto é hoje.

Hoje, é a tecnologia, o capital, que consegue fazer com que a pobreza seja diminuída. Isso é incrível, quando pensamos que, nas últimas 3 décadas, tivemos o período mais veloz de redução da pobreza que o mundo já viu. As pessoas estão ficando mais ricas e as crianças estão morrendo menos. Isso vem da lógica do crescimento econômico, do desenvolvimento do bem-estar humano. A partir da Revolução Industrial até o final do século XX, a Europa sai de um indicador de 3 dólares de renda per capita por dia para mais de 100 dólares.

Caso tivesse havido o interrompimento da tecnologia, as sociedades de hoje não seriam melhores. Quando o cavalo foi domesticado, certamente algumas pessoas perderam duas ocupações. A resposta para isso não foi proibir ou matar os cavalos, assim como nos nossos dias a resposta não é manter trabalhos tornados desnecessários pela tecnologia funcionando artificialmente.

Infelizmente, vivemos com uma mentalidade de homo proletarius, no qual o trabalho é um fim em si mesmo. O principal problema desse modelo é que, com ele, olhamos para os pobres como eternos proletários e não reconhecemos que a melhor coisa que você pode dar para um trabalhador é capital, é tecnologia; é fazer com que ele se torne mais produtivo. Olhamos para a pobreza apenas como necessidade e não como potencial e capacidade. Temos o hábito de ver os pobres como bocas e não como mentes com alta capacidade empreendedora. Nós temos que abandonar essa mentalidade do homo proletarius e adotar a mentalidade do homo empresarius.

Numa época de destruição criadora, nós todos somos empreendedores. Isso inclui, principalmente, os mais pobres. Estudos demonstram que os pobres são mais empreendedores que os filhos da classe média.

Quando você passa a entender que a solução para a pobreza é a maior capacitação, maior capitalização do pobre, não simplesmente a condenação ao trabalho, começa a entender a pobreza de maneira diferente.

James Tooley, um pesquisador britânico, fez um estudo fantástico. Ele visitou a parcela mais pobre das regiões mais pobres dos países mais pobres do mundo e perguntou como as pessoas educavam os seus filhos se nem a educação oficial (“de graça”) pública chega até eles. Ele descobriu que existiam escolas privadas (no interior da Índia, por exemplo) que estão educando crianças de forma sustentável, por cooperativas (dando até algum lucro) e que possuem indicadores superiores aos das escolas oficiais e públicas.

No Brasil, temos casos semelhantes. Na comunidade do Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, existem escolas clandestinas operando sem licença da prefeitura. Em um dos casos, a escola começou como uma creche, mas, após a idade limite, os pais não queriam tirar seus filhos daquela escola devido ao bom serviço e hoje ela vai até a 4º série (operando ilegalmente).

A solução para a pobreza seria criar obstáculos burocráticos que atrapalham as pessoas a empreender e resolver os problemas das suas próprias comunidades? As melhores pessoas para entender os problemas dos pobres são eles próprios. Se você não permite que eles tenham acesso a capital, que eles tenham acesso a investimento, que eles possam colocar em prática suas ideias empresariais, você está condenando eles ao status quo.

Quando a gente começa a pensar no pobre como um nano-empreendedor e não simplesmente como um nano-trabalhador, você começa a questionar também se a nossa educação funciona da maneira como é dada. Se um menino pobre de uma favela do rio ou do sertão nordestino te perguntasse: “o que que eu devo aprender para deixar de ser pobre? O que que eu devo aprender para ter uma vida melhor do que a que meus pais tiveram?”, sua resposta seria que é o nosso currículo? Seria Sociologia, Geografia, Ciências? Ou será que você falaria Finanças Pessoais, contabilidade, legislação e economia básicas ou atividades que tornem o trabalho do menino mais produtivo e lucrativo?

Será que nós não estamos condenando as nossas crianças quando a gente faz uma educação de proletário em vez de fazer uma educação de empreendedor? A sorte é que eles não precisam depender tanto da elite desse país, eles fazem as coisas por conta própria.

Depois da pacificação das favelas do Rio de Janeiro, o SEBRAE entrou na favela e percebeu uma exuberância de negócios locais. Em 2012, eles haviam registrado mais de 1700 empreendimentos só no complexo do alemão. É importante que se reconheça legalmente todos esses empreendimentos! Isso é importante porque permite que as pessoas convertam o eu capital físico em capital econômico, a sua posse em propriedade.

O Instituto Atlântico fez um trabalho de reconhecimento de títulos de propriedade no morro do Cantagalo no RJ. A inspiração foi no economista peruano Hernando de Soto, que reconheceu que, na pobreza global, havia uma abundância de recursos que não eram capitalizados, simplesmente porque não havia títulos de propriedade. Percebe-se que famílias que passam a possuir título de propriedade tem uma renda maior, uma vez que elas podiam trabalhar melhor. Assim, você começa a reconhecer o pobre como empreendedor, você começa a dar posse, a dar propriedade para ele. Você quer dar capital para ele.

Existem soluções importantes no período de destruição criativa como programas de renda mínima, mas eles precisam estar acoplados a programas de aumento de produtividade das pessoas. No período de de 2002 a 2014, a produtividade média do brasileiro aumentou 12%. A do indiano aumentou 73%. A do chinês aumentou mais de 150%. Paul Krugman – um conhecido economista de esquerda – diz que, no longo prazo, produtividade é praticamente tudo. Produtivade se faz com capital e tecnologia.

A grande história de nosso tempo, a grande saída da pobreza de milhões de pessoas na Índia e na China, não foi feita garantindo que tecnologia não penetrasse nos países ou que o capital fosse feito de inimigo das pessoas pobres.

Se você coloca o pobre contra o capital, acredite: o pobre vai perder. A gente precisa mudar a forma como a gente pensa a pobreza da mesma forma que a gente já mudou a forma como a gente pesava a cidadania. Em certo período histórico, percebemos que sociedades nas quais poucos eram cidadãos eram injustas. A solução não foi abolir a cidadania, o voto ou a democracia; era dar cidadania, voto e democracia para todos. Da mesma forma, na época da destruição criativa, onde capital e tecnologia tornam-se importantes e muitos não tem acesso a eles, a solução não é abolir o capital ou a tecnologia; a solução é dar capitalismo e tecnologia para os pobres.


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