Uma virose chamada “compactação”

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O Brasil de Dunga sonha um sonho febril, almejando o futebol moderno. Como faziam as seleções de Felipão ou de Mano Menezes. Uma entrevista dessas comissões técnicas pode dar a entender que o sucesso nesse século XXI depende de termos como: “compactação”, “velocidade”, “fechar espaços”.

O futebol não virou pós-moderno

Compactação é uma característica do futebol moderno, mas este não tem nada de atual. O Barcelona, mais recente campeão da UEFA Champions League, é compacto. Ou o Juventus, vice-campeão. Ou o Bayern de Guardiola, o Brasil de 94, o Brasil de 82, a Holanda do futebol total de 74, o Brasil de 70… Todos esses times são ou foram “compactos”.

Dunga e muitos outros treinadores brasileiros repetem essas expressões por um entendimento equivocado, um conhecimento que o futebol brasileiro parece ter perdido. Usam-nas como se retratassem evoluções tecnológicas, recentemente descobertas nos campos europeus, que precisam ser aplicadas por aqui.

Falta a eles captarem que a compactação é menos filosofia de jogo e mais consequência do material humano.

Vejamos o aspecto físico, inegavelmente mais avançado nos dias de hoje, com a revolução da medicina esportiva, novos métodos de treinamento e melhores infraestruturas. Em um campo de Xm², um time de maior aptidão física – mais veloz, com maior fôlego, mais forte – tem maior capacidade de aproveitar os espaços do campo. É vantajoso para esse time ter jogadores abertos, para cansar o time adversário. Bolas longas são interessantes, pois a maior força garante vantagem nas disputas pelo ar, no jogo de corpo entre atacantes, meias ou zagueiros.

Os melhores times se aproveitam dessas qualidades, mas não se apoiam nesse estilo de jogo. Ainda que concentrem os talentos individuais, se basear no aspecto físico é focar a individualidade – “bola no forte/rápido que ele resolve” ou “deixa que o zagueirão resolve”.

Curiosamente, o futebol brasileiro, por muito tempo visto como demasiado individualista, deixou seus métodos antigos para focar justamente o físico. É a história que já conhecemos; nas divisões de base, os mais altos, parrudos, são priorizados. A molecada franzina, ainda que habilidosa, é preterida.

A última Copa do Mundo e a finada Copa América exibiram no elenco o resultado desse filtro. Um único talento, daqueles históricos que nos deixaram famosos, sobreviveu. No entorno do “menino Neymar”, como diria Galvão, bons jogadores – por ora, apenas isso. São aqueles que sobreviveram ao culto dos brucutus, mais até por irem cedo para a Europa, do que por tratamentos de nossos clubes e olheiros. Uma geração de Firminos, desconhecida pela torcida brasileira.

De onde vem a compactação

Enquanto isso, os times compactos de hoje aprenderam bem com as nossas lendas. Perceberam que as táticas são importantes para facilitar o trabalho dos talentos, mas que ainda mais crucial é gerá-los (ou comprá-los).

É o caso dos gigantes espanhóis. O Barcelona conta com um homem de contenção, Busquets, junto aos habilidosos Rakitic e Iniesta. O Real Madrid sequer tem o marcador de ofício, em um meio formado por Modric, Kroos e James. O Juventus, da tradicionalíssima defesa italiana, chegou à final da Champions com Pirlo, Pogba, Vidal e Marchisio. O mesmo padrão aparece no Bayern e na Alemanha do 7×1. Onde fica o “destruidor”, como eram Dunga ou Gattuso?

Sete jogadores de meio de campo, apenas um marcador de ofício. Bayern x Barcelona - Semifinal 2, UEFA Champions League 2014-15 Fonte: Prancheta Tática
Sete jogadores de meio de campo, apenas um marcador de ofício.
Bayern x Barcelona – Semifinal 2, UEFA Champions League 2014-15
Fonte: Prancheta Tática

Esses times aprenderam a fechar espaços para se adaptar a escolha que fizeram de não contar com os destruidores. Seus jogadores não são exímios ladrões de bola. São exímios com ela no pé, no controle da posse, no passe, chute ou drible. A compactação na defesa é a forma natural de um cobrir o déficit de marcação do outro.

A aproximação também ocorre no ataque pois talentos que se reconhecem se procuram. O passe curto tem maior probabilidade de acerto, especialmente em pés habilidosos, portanto é o mais usado. O tridente campeão da Europa é o exemplo perfeito disso. Três jogadores fora de série reconheceram a capacidade um do outro. Em campo, se procuraram. A partir desse ponto, ninguém mais conseguiu detê-los.

Por último, o papel de armação dos times foi deslocado. Não está mais nos antigos “meia-esquerda”, mas em Kroos e Modric, Pirlo, Schweinsteiger ou Xabi Alonso. O jogo começa a ser pensado nos volantes.

E o Brasil?

É simples entender porque uma filosofia como o tiki-taka não foi copiada ostensivamente por aqui. O passe errado a impede, e o último jogo entre Vasco e Flamengo não me deixa mentir. A qualidade técnica, que muito já se viu em nossos campos, fugiu, vendida ou filtrada.

Basta voltar no tempo para ver como a tal compactação acontecia naturalmente. A criticada seleção de 94, mesmo com dois volantes marcadores, era um time de posse de bola, com Zinho e Raí/Mazinho controlando o jogo. O Flamengo da década de 80, com seu meio formado por Adílio, Andrade e Zico. A seleção de 82 com Falcão, Cerezo, Sócrates e novamente o Galinho. A seleção de 70 com Clodoaldo, Gérson, Rivelino e Pelé.

Me perdoem Elias e Fernandinho, mas além da qualidade técnica, sequer seus estilos são comparáveis. O Brasil continua tendo a obrigação da posse de bola, mas na moda ressuscitada dos pontas, a armação da jogada fica para os dois supracitados. Fernandinho não sabe fazer isso, e nem tem esse papel no Manchester City, onde conta com Yaya Touré e David Silva para tal. Elias até faz um pouco no Brasil, onde o nível do futebol está abaixo. Na seleção, porém, revela-se o seu estilo similar ao de Fernandinho.

Além de não combinarem com as funções que se esperam deles para o “futebol moderno”, ambos têm o DNA do segundo volante de “alguma marcação e muita velocidade”. Eles não são os jogadores de contenção que, atualmente, apenas Luiz Gustavo parece saber fazer.

Essa dupla precisa de um time que arme por eles, para que sejam os jogadores velozes que aparecem como surpresa, ou que aceleram para um lançamento em contra-ataque rápido.

William, porém, não é esse cara. Ele conta com Fabregas, e eventualmente Oscar, para esse papel no Chelsea. Fred, novo xodó de Dunga (até ser vendido?), que já foi outro segundo volante, hoje faz a ponta esquerda – que não sabe fazer.

Uma proposta?

Para o time se encaixar no tal futebol moderno que se joga há anos, a mudança tem que ocorrer no material humano. Não temos os mesmos níveis de talento, é claro, mas é possível tentar preservar o estilo. Apenas isso já tem o poder de contribuir para um foco mais interessante na base, por exemplo, e um retorno à produção de talentos em série.

Com os jogadores que a seleção tem disponíveis, a mudança pode ocorrer mais facilmente no meio-campo. Ao invés de usar dois segundo-volantes, e dois meias que mais parecem dois pontas, a ideia é popular o meio-campo com quem mais consegue controlar e passar a bola. Para isso, temos Oscar e Phillipe Coutinho.

football formations

A estrutura do time pode ser variada a seu gosto, assim como muitos dos nomes. Jefferson ou outro goleiro no lugar de Diego Alves, Willian ao invés de Lucas – e por favor, alguém encontre um zagueiro para atuar junto a Miranda -, o mais importante é a preservação do estilo. Montei em minha mente com base no Milan multi campeão de 2003 a 2007, que formava um meio de campo em losango, com Pirlo, Gattuso, Seedorf e Kaká. Apenas Gattuso tinha o ofício da marcação, enquanto Pirlo e Seedorf eram os tais fechadores de espaço. Kaká era o homem da saída em velocidade, carregava a bola e servia os atacantes, tinha liberdade para se deslocar por todo o setor ofensivo. A armação do jogo, no entanto, passava pelos pés dos maestros italiano e holandês.

Ficaria para Lucas ou Willian o papel de Kaká, estilo que ambos mostravam no São Paulo e no Shaktar, respectivamente. Foram deslocados para as pontas, tanto nos clubes europeus, como na seleção. O mesmo nível de futebol nunca foi apresentado, ainda que tenham conseguido se firmar em Paris e Londres com o tempo. Ainda assim, caso a necessidade se apresente em uma partida, ambos podem compor um trio ofensivo.

Já Oscar e Coutinho são os armadores. Eles têm a noção de compactação, vinda de Chelsea e Liverpool, onde variam bastante de posição no meio e convivem com obrigações defensivas. Podem fazer o papel de aproximação com os laterais, na falta dos pontas, enquanto o outro se apresenta no meio ou recua para subida do primeiro volante. A ideia é que um sempre tenha o outro, além do meia ofensivo (Lucas/Willian, ou Neymar em uma troca de posição), para criarem linhas de passe.

O time pode ficar com um centroavante, no caso de Luiz Adriano, ou com dois atacantes velozes e qualidade de passe, o que favorece as jogadas de linhas de passe que a compactação facilita (seria o caso de Firmino ou Tardelli, na Copa América). Podem ainda variar para o trio ofensivo com falso 9 que está na moda, apesar de ser pouco efetivo no Brasil pela falta de capacidade criativa em quem fica com o papel de armar o jogo.

Essa é apenas uma forma de usar um elenco similar ao que é sempre convocado, mudando apenas a configuração do time titular. Mesmo o 4-3-3 pode ser armado com Oscar e Coutinho, juntos ao volante de contenção, nesse caso exigindo que as linhas fiquem joguem ainda mais próximas.

football formations

Não resolve todos os problemas da seleção, quanto mais do futebol brasileiro. Ainda assim, acredito que tentar dar cara de Brasil à amarelinha sempre vale o risco. Paramos de jogar bonito porque não havia garantia de vitória, como em 82. Jogar feio também não garante, bem como causou a maior vergonha da história da seleção. Volta, jogo bonito!


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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.

  • Anônimo

    Os jogadores brasileiros que jogão em alto nivel na europa que se ajuntao com os jogadores no Brasil presisa haver um trabalho de compacta são e velocidade sómente assim teremos resultado de auto nivel .
    Técnico Lourival.