Crise Grécia

Não existe crise da dívida na Grécia; o problema é outro

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Um dos assuntos mais apaixonadamente comentados nos últimos meses é a crise Grega. Após o referendo no qual 61% da população decidiu por não aceitar o programa de recuperação fiscal colocado pelos credores, as negociações continuam. Paralelamente, fala-se, mais do que nunca, da saída do país da Zona do Euro. A Grécia, mesmo após o referendo, ainda está em busca de recursos financeiros externos. Os debates no parlamento europeu se intensificam.

Não tenho, neste texto, o objetivo de discutir se a entrada da Grécia na União Europeia foi boa ou ruim para o país; ela já foi feita, com seus ônus e bônus para a terra de Zeus e Hades. Pretendo aqui, discutir o Tártaro no qual o país se colocou e os 12 trabalhos de Hércules para sair de lá.

Pagar a dívida? Não pagar a dívida? Que tal, antes, partir do início? Como se forma a dívida e por que ela dói?

O Estado tem algumas formas de financiar suas atividades, sendo a retirada de dinheiro dos pagadores de impostos e a emissão de dívida as principais. Para ele gastar mais do que retira da sociedade pelos impostos, o caminho é o financiamento via dívida. O problema é que, em um cenário no qual ele já gasta mais do que arrecada, o endividamento faz com que, em seguida, o problema piore, uma vez que além das despesas anteriores, terá que enfrentar um acréscimo em forma de juros. O risco é que isso vire uma bola de neve.

Com o passar do tempo, os juros vão ganhando peso no orçamento nacional, até que se tornam insuportáveis. Quando se endividar mais para pagar dívida passada é o único caminho e não se confia mais no país e sua capacidade de pagamento, tem-se um grande problema.
Certos setores da sociedade, curiosamente aqueles que aumentam por anos a cobrança por mais endividamento, começam, então, a sugerir o não pagamento da dívida. Parece óbvio; não pagar mais a dívida e seus juros liberará o orçamento do peso dos juros e sobrará dinheiro para ser alocado em outras utilidades.

O que não se vê dentro dessa lógica é que o real problema não foi resolvido. As despesas continuarão, assim, maiores que as receitas. Porém, agora, em cenário no qual o país não pode mais conseguir recursos via emissão de dívida. A gordura gerada pelo orçamento liberado pelo não pagamento logo será queimada e o país voltará a ser obrigado a encarar a restrição orçamentária da sua irresponsabilidade fiscal. O país ficará, então, entre a necessidade de reorganizar suas finanças ou emitir moeda desenfreadamente para suprir seus gastos crescentes. A história nos mostra que a única opção não suicida é a primeira. O Brasil que o diga.

É claro que, aqui, estou ignorando uma consequência principal do não pagamento: a saída dos mercados internacionais, fazendo com que o país e suas empresas necessitem ser autossuficientes, algo, hoje, impensável e que gera fortes danos. Isso não só faz a gordura ser queimada mais rápido como piora a situação quando ela for completamente consumida.

O problema da Grécia não é a dívida, mas sim sua cultura governamental de aceitação à receitas menores que gastos misturada com uma classe política falida. Não existe crise da dívida, existe crise de irresponsabilidade fiscal em longo prazo.

Hoje, o mainstream econômico foca na estabilidade das dívidas públicas (algo que, particularmente, acho um objetivo incompleto). Difícil é a situação do país que, em momento de crise, precisa focar na diminuição da sua dívida. Seu Nikos, conhecido do Além do Roteiro, sabe bem disso.

Nesse texto, não quantifiquei os dados, mas, caso o leitor tenha essa curiosidade, sugiro a leitura desse rápido e esclarecedor artigo do Mercado Popular.

Pode-se achar que, mesmo que em curto prazo, contrariando Milton Friedman, exista almoço grátis, mas o tempo passa e percebe-se que o banquete de hoje é a fome de amanhã. O longo prazo chega e não estaremos todos mortos, mas sim com fome. Muito melhor é ter uma alimentação equilibrada e saudável. Depois de anos de junk food, vem o penar do exercício físico pesado na academia e a reeducação alimentar. É inevitável, a responsabilidade fiscal se impõe.


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