Por que o preço do petróleo está caindo?

Tempo médio de leitura: 7 minutos

Panorama

De 2000 a 2008, o mundo presenciou um aumento sem precedentes do preço do barril de petróleo, indo de 25 dólares a quase 150. O rápido aumento da demanda em economias emergentes, como a China e a Índia, e cortes nas produções pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) no Oriente Médio, levaram os preços a patamares nunca antes vistos.

No final de 2008, com a crise mundial, o preço do petróleo chegou a 40 dólares. A recuperação econômica que se seguiu, levou o preço de volta à casa dos 100 dólares; até meados de 2014, ficou variando entre 100 e 125 dólares. Em novembro de 2015, o valor já tinha caído pela metade.

Quando comecei a escrever este texto, no final de Janeiro, o barril estava em 32 dólares. Hoje, dia 11 de fevereiro, o valor já está em 27 dólares.

Queda barril petróleo
Caindo mês após mês

As consequências disso são visíveis. A queda do preço corta os lucros das empresas do setor, o que, como consequência, gera o corte em investimentos e trabalhadores. Quarenta empresas norte-americanas foram à bancarrota. Alasca, Dakota do Norte, Texas, Oklahoma e Louisiana (os maiores produtores de petróleo dos EUA) estão enfrentando dificuldades econômicas. Exxon, Chevron, Shell e a British Petroleum (as maiores empresas petroleiras do ocidente) enfrentam um período complicado.

Para países como a Rússia (cujo orçamento anual é amparado pelas exportações de petróleo e gás) significa um pé na recessão. Com o valor do petróleo baixo, eles têm menos dinheiro para investir e sua moeda (rublo) vai ficando cada vez mais desvalorizada.

Para o Brasil, uma queda nos preços do petróleo significa duas coisas:

a) alta no dólar e inflação.
Contrário ao que muitos pensam, dólar alto não significa apenas viagens mais caras, mas um aumento na inflação. Uma maior inflação significa produtos mais caros; afinal, muitos são importados e seu valor é diretamente influenciado pelo dólar.

Mas os produtos produzidos aqui também sofrem com essa alta do dólar. É o caso da soja, da carne, do café, do açúcar, do milho. Mesmo que eles sejam produzidos no país, quando o dólar está mais caro fica mais vantajoso para o produtor exportar. Então, se ele mantém o produto para ser vendido aqui dentro, ele vai querer receber mais por isso.

b) inviabilização do pré-sal e a Petrobrás;
Com um valor muito baixo (menos do que 45 dólares) a exploração do pré-sal não faz sentido, porque seria um investimento que apenas traria prejuízo. Isso é terrível se pensarmos quanto dinheiro foi gasto nesse projeto. A ávida discussão sobre os royalties, em retrospectiva, não faz sentido algum.

Crise econômica e política, escândalos de corrupção um atrás do outro, moeda desvalorizada, corte de cargos de gerência, ações cujos preços não seriam vendidas nas praias do Rio de Janeiro. Além disso, o preço do petróleo está tão baixo que as operações da Petrobrás podem gerar mais prejuízo do que lucro.

Por que essa queda no preço do barril de petróleo?

São três as razões para essa drástica mudança:

  1. Aumento da oferta;
  2. Diminuição na demanda em países enfraquecidos por crises políticas ou econômicas;
  3. Aumento na produção na Arábia Saudita e outros países da OPEP.
Queda do preço do petróleo
Movimento do preço do petróleo nos últimos 18 meses – WTI & Brent

1) Aumento da Oferta

A produção doméstica dos Estados Unidos quase dobrou nos últimos anos. Isto fez com que o petróleo, que costumava importar, fosse redirecionado para outras regiões. Petróleo de países como Arábia Saudita, Nigéria e Argélia agora competem por mercados asiáticos, e os produtores são obrigados a abaixar os preços. A produção canadense e iraquiana aumenta ano após ano. Mesmo os russos, enfrentando problemas econômicos, continuam produzindo bastante petróleo (até 2014, os maiores produtores de petróleo do mundo).

E o panorama tende a piorar. As sanções ocidentais ao Irã, feitas na década de 80, fizeram com que parasse de produzir quase um milhão de barris por dia e impediram que o país importasse novas tecnologias e equipamentos. Agora, com as sanções levantadas após o acordo nuclear, essa produção tende a voltar com força total, adicionando ainda mais oferta em um mercado completamente saturado – sobretudo se formos pensar que não se sabe de quanto petróleo o Irã realmente dispõe. Sua produção, em Janeiro, já chegou a 3 milhões de barris por dia.

O Iraque, mesmo com a sombra do Estado Islâmico e um estado fragilizado, continua produzindo bastante petróleo, chegando à marca de 4,3 milhões de barris por dia.

2) Diminuição da Demanda

As economias da Europa estão enfraquecidas e cada vez menos dependentes do petróleo, tornando-se mais eficientes em formas alternativas de energia.

Nota: Mesmo que a economia da China esteja desacelerando, sua demanda por petróleo aumentou 2,5% em 2015; ou seja, ela não é responsável, em nenhuma escala, pela queda do preço do petróleo. Pelo menos por enquanto.

Inauguration Of Emirates National Oil Co. Plant
Inauguração de planta de extração de petróleo, Emirados Árabes. Fotógrafa: Gabriela Maj/Bloomberg

3) Arábia Saudita e OPEP

Antes de mais nada, é importante apresentar um dado: a OPEP (da qual a Arábia Saudita é principal membro) é responsável pela produção de 40% do petróleo mundial. Se, por exemplo, a Arábia Saudita quisesse, poderia fazer com que o preço do petróleo subisse, ao cortar sua produção de petróleo.

Mas não parece ser esse seu desejo, mesmo que isso a prejudique.

Economicamente falando, a Arábia Saudita, a longo prazo, precisa que o barril custe 85 dólares. No entanto, tem reservas o suficiente (entre 700 e 900 bilhões) para suportar um período de preço baixo. Além disso, seu custo de produção é baixíssimo em comparação aos outros países: por volta de 6 dólares, cada barril. A menos que o barril chegue a essa faixa, os sauditas não vão perder dinheiro; apenas deixar de ganhar.

Outros membros da OPEP, como Kuwait e Emirados Árabes, também possuem reservas consideráveis, o que significa que também podem suportar o preço baixo.

No entanto, outros membros, como Irã, Iraque e Nigéria, com grandes demandas orçamentárias oriundas de sua poderosa indústria petrolífera, têm menos espaço para manobras. Mas seguem as diretrizes da OPEP, comandada pela Arábia.
Vale ressaltar também que o preço do petróleo é parcialmente determinado pela oferta e demanda, e parcialmente pela expectativa. Demanda por energia está diretamente ligada à atividade econômica.

Demanda pode ser afetada pelo clima e por perturbações geopolíticas. Se os produtores pensam que o preço vai continuar alto, eles investem, o que impulsiona a demanda. Do mesmo modo, preços baixos levam a menos investimentos e, por consequência, menos demanda.

As decisões da OPEP moldam essas expectativas: se refrear a produção, o preço dispara. Mas ela não demonstra sinais de querer diminuí-la. A Arábia Saudita continua a produzir seus costumeiros 10 milhões de barris por dia (um terço do total da OPEP).

Esse tipo de atitude vem em um momento que o Irã está preparado para sair de seu isolacionismo econômico ao retomar sua indústria petrolífera, cujo investimento seria muito prejudicado com o valor do atual do petróleo; que a Rússia estava retomando seu crescimento econômico, muito baseado no petróleo; e que os Estados Unidos estavam quase alcançando sua independência energética.

Lógico que esse é apenas um lado da questão.

Vendo pelo lado da OPEP, encontramos um dilema quase shakespeariano: cortar ou não cortar a produção?

Se cortar, os preços do petróleo voltam a subir; isso significa que a produção dos Estados Unidos continua a crescer sem parar e a OPEP perde espaço no mercado, o que significa perder dinheiro. Se não cortar, os preços continuam a cair e ela perde dinheiro diretamente (pois deixa de faturar em cima de sua enorme produção).

A diferença é que ao não cortar, limita a produção de petróleo dos Estados Unidos e mantém seu espaço no mercado. Economicamente falando, essa é a escolha mais lógica.

Teorias da Conspiração: a queda do preço é intencional?

Muitos poderiam pensar isso, e não estariam completamente errados.

O maior adversário da Arábia Saudita é o Irã, cujo maior aliado é a Rússia (que, como disse acima, é o maior produtor de petróleo). Se os sauditas quiserem enfraquecer a Rússia, esse é um ótimo plano. Afinal, diminuir o preço do petróleo ajudou a acabar com a União Soviética.

Onde entra os Estados Unidos na história? Ora, eles também são aliados da Arábia Saudita (até demais, pois ignoram suas violações aos direitos humanos) e ainda travam uma guerra silenciosa contra a Rússia.
É possível? Sim, mas altamente improvável.

Afinal, pensando logicamente, um país como os Estados Unidos, prestes a se tornar o maior produtor de petróleo do mundo, vai mesmo se dispor a baixar o preço do petróleo intencionalmente e prejudicar sua própria economia?

Conclusão

O preço do petróleo vem caindo porque a oferta vem aumentando e a demanda, em alguns países, especialmente os emergentes, vem caindo. A solução para esse problema é muito simples, nada mais do que uma pequena aula de economia básica: quando o preço cai, você corta a oferta.

Mas a Arábia Saudita e seus aliados do Golfo, ao invés de seguir a economia básica, lideraram uma mudança na política da OPEP para defender participação no mercado contra os produtores que têm custos maiores, ao invés de cortar a oferta para elevar os preços.

É importante notar que isso não está acontecendo por acaso, embora só possamos especular se se trata de uma “guerra” econômica ou se há outra coisa por trás disso.

Curiosidade!

Você sabe por que o valor do petróleo é medido por barril?

Um barril de petróleo não é um barril, literalmente. É uma unidade de volume, que compreende, aproximadamente, 159 litros.

Mas por que fala-se em barril de petróleo?

Em meados do século 19, nos primórdios da exploração de petróleo, este não possuía um depósito padronizado, então era armazenado em diferentes formas e tamanhos. Com o tempo, essa falta de padronização fez com os compradores ficassem desconfiados por não saberem se estava pagando pela quantidade que desejavam.

Para sanar isso, a associação dos petroleiros da época decidiram encontrar um padrão. Das formas e tamanhos diferentes que usavam, o maior era o que compreendia 159 litros (ou 42 galões).

Esse é só um padrão, uma unidade de medida. O petróleo é extraído de diversas formas, transportado em diversos meios, em quantidades diferentes.

O padrão, contudo, é que 159 litros compreendem, vamos supor, 50 dólares. Ou seja, cada litro valeria 30 centavos.


Gostou do texto?

Você pode receber as atualizações do Além do Roteiro inserindo o seu email abaixo e clicando em “Seguir”.

Nicholas Nogueira

Carioca, que abriu sua própria empresa para poder ter tempo de escrever e falhou miseravelmente. Uma pessoa intensa que encontrou na escrita a única forma de extravasar tudo que passa dentro de si.