Spotlight e o conceito de “cair para cima”

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Nota: o texto pode conter spoilers de Spotlight: Segredos Revelados

Spotlight é daqueles filmes incríveis, que segue além de critérios técnicos para dar nós em aparelhos digestivos de espectadores do mundo inteiro – católicos ou não.

A produção cobre os bastidores de uma reportagem investigativa da equipe que dá nome ao filme, “Spotlight”, parte do jornal “Boston Globe”. Em 2002, o grupo trouxe aos holofotes o escândalo de abusos sexuais de menores envolvendo, mais do que membros, a própria instituição da Igreja Católica, em sua negligência sistêmica ao tratar do grave tema.

A bela reflexão que o longa traz sobre o jornalismo, e até homenagem ao veio investigativo do mesmo, é retratada em textos como esse. Aqui, para expandir a obra em sua exploração internet afora, outro ponto é puxado para atenção. Após o filme, antes da triste e impactante lista de cidades com escândalos semelhantes ao de Boston (incluindo o Rio de Janeiro e mais três cidades brasileiras), aparecem as informações esperadas em qualquer produção baseada em fatos reais – o pós das personas retratadas na obra.

Meus olhos se arregalaram por um misto de incredulidade e cumprimento de expectativa:
Cardinal Law

Bernard Law, como mostra o filme, era a representação da Igreja Católica em Boston. Como tal, o tratamento político por ele dado durante e após as investigações, e especialmente o tratamento a ele dado após a denúncia mostram mais do que ações de um membro – escancaram o sistema de uma das instituições mais grandiosas da história da humanidade.

“Cair para cima” era só a expressão engraçada, inusitada, mais um legado do brilhante personagem Capitão Nascimento. Nos segundos em que lia as consequências “enfrentadas” por Law, a simples gíria mudou de conotação; curiosamente, o sobrenome do indivíduo significa Lei, em inglês. A que lei o nome se refere? Não parece ser a dos homens, sequer a de Deus.

Como dizer não a Deus
“Como dizer não a Deus, certo?” – o poder de um padre sobre uma criança

O então arcebispo, ao renunciar, deixa de representar a instituição em Boston – a “queda” – e é alçado para o centro político da Igreja, o Vaticano e seu entorno, Roma. Passa a ocupar posição tão importante quanto escondida, longe dos holofotes de Spotlight’s e outras equipes. Nos bastidores, agiu uma década depois contra as lideranças das freiras americanas, por apoiarem lutas por direitos civis, em investigação interna da Igreja contra as mesmas.

Talvez inspirado pelo clima do filme, ainda que sem a realidade dos meses necessários para investigações complexas como a retratada, surgiu a curiosidade sobre o paradeiro atual do nada bode expiatório. A dúvida foi antecipada em meados de 2015, pelo repórter Phillip Martin do WGBH News, que descobriu a residência de Bernard Law, o Palácio da Chancelaria, em Roma, em um terreno cujo dono é o Vaticano. Chegou a viver determinado período na própria Basílica de São Pedro, vizinho ao então Papa Bento XVI, até se mudar para o palácio datado do século V.

Bernard Law
A página da Wikipedia o apresenta por “Sua Eminência”. Talvez “Seu Cretino” seja um melhor pronome de tratamento. Crédito: AP Photo, 2014

É notável como a tentativa de “cair para cima” é comum nos escândalos de corrupção recentes no Brasil, ainda que o sucesso venha se reduzindo. Assombra, no entanto, que mesmo com tantas páginas obscuras, uma instituição com o carisma e a missão que diz ter a Igreja Católica se porte de maneira semelhante a ditaduras militares. O rosto atual é do Papa Francisco, contudo, o modus operandi permanece de proteger os seus, ignorar os danos causados, sempre em nome de temas “maiores” e abstratos.

O absurdo não fica preso ao passado. Como revelou no início do mês o repórter John L. Allen Jr. para o site Crux, o treinamento dado em 2015 pelo Vaticano aos novos bispos – programa existente desde 2001, responsável por treinar até 30% do quadro atual de bispos no mundo – instruiu que as lideranças não são responsáveis por relatar casos de abuso sexual de menores à polícia. O dever da denúncia reside com a vítima e sua família, segundo o treinamento. O bispo não deve tomar mais do que medidas internas. Spotlight mostra muito bem como são estas, basicamente realocações motivadas por “licenças por doença” ou outros motivos estapafúrdios. Então a Igreja Católica Apostólica Romana tem, em cada país, um status de instituição militar, com direito a tribunal próprio, quem sabe até Três Poderes apartados?

A reportagem continua, ao evidenciar que a Comissão Pontifícia em Proteção dos Menores, criada pelo Papa Francisco contra a pandemia, não tem participação no treinamento. Parece que a comissão visa colocar títulos em jornais e apaziguar a opinião pública. Crianças continuam sofrendo abuso. Nada deveria ser maior do que isso.


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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.