Álbuns que você deveria conhecer – BE – Pain of Salvation

Tempo médio de leitura: 16 minutos

Complexo. Ambicioso. Megalomaníaco. Inclassificável.

Todas essas palavras podem ser utilizadas para descrever tanto o álbum quanto Daniel Gindenlow, a mente por trás dele. É o quinto álbum da banda de metal progressivo Pain Of Salvation, que está na ativa desde 1997, e todas as palavras acima podem descrevê-lo muito bem, mas não o suficiente.

Devo avisá-los que as músicas são para poucos. Não só porque seu conceito envolve a compreensão de deus (possivelmente não o Deus cristão, ou, na verdade, qualquer deus de qualquer religião) como uma entidade responsável pela criação do universo, mas porque os compassos das músicas mudam tanto quanto seus estilos, que variam entre elementos do folk, rock, metal, música clássica, uma absurda quantidade de efeitos, e sons que simplesmente parecem ter vindo de outro planeta. Além do mais, é um álbum conceitual, onde o conceito vale tanto (senão mais) do que a própria música.

BE procura explorar as diversas faces da existência humana, através do início de tudo, o desenvolvimento de tudo e o fim de tudo.

Não é apenas um álbum, é uma filosofia da vida explicada através da música. Mesmo que isso soe pretensioso, esse álbum aborda temas que pensamos todo o tempo (como morte, esperança, fé, a existência de um deus, etc.), mas que se mantém vago o suficiente para que qualquer ouvinte tenha sua própria interpretação.

Obviamente, essa versão da história do universo e o conceito cósmico da humanidade não tem a mínima chance de alcançar o sucesso musical. E essa é uma das melhores partes do álbum.

1) Animae Partus (“I Am”) – A God Is Born (Um Deus Nasce)

O álbum começa com a narração do Animae, algo ou alguém que existiu por tanto tempo quanto ele/ela/isso consegue se lembrar e contempla sua própria natureza, iniciando uma jornada de compreensão de si mesmo(a).

“I was not
then I came to be
I cannot remember NOT being”
(eu não era, então passei a ser, não consigo me lembrar de não ser)

É puramente falada, uma passagem narrativa, com vozes distorcidas (masculinas e femininas) representando Deus pensando como e por que surgiu.

“Perhaps I was always
Forever here…
And I just forgot”
(talvez eu sempre estive aqui e apenas esqueci)

Essa reflexão é interessante, e podemos transpô-la à nossa vida. Você se lembra de não existir? Lógico que não. Para você, você sempre existiu. Mas chega um momento em que você começa a se perguntar por qual motivo está aqui e começa a buscar um sentido para sua vida.

Exatamente como Animae.

“I will call myself God
and I will spend the rest of forever,
trying to figure out who I am”
(Vou me chamar Deus e passarei o resto da eternidade tentando descobrir quem eu sou).

Só que Animae, ou Deus, não percebe o óbvio: se Ele não sabe o que está fazendo, como a humanidade terá uma chance?

2) Deus Nova (Novo Deus)

Nota: “Deus” é masculino e “Nova” é feminino, o que, apesar de estar gramaticalmente incorreto, faz sentido se pensarmos que Deus é, ao mesmo tempo, masculino e feminino.

Após Deus ter chegado à conclusão de que precisa conhecer a si mesmo para descobrir suas raízes, ele cria a humanidade:

“trying to understand myself
I created the world to be an image
of myself, of my mind”.
(tentando me entender, eu criei um mundo para ser o meu reflexo e da minha mente)

Ele remove de sua mente seus pensamentos, ideias e conflitos e os utiliza para criar a humanidade. Esta, por sua vez, é o reflexo da mente de Deus. Um experimento para revelar seu próprio existencialismo.

Essa música é a passagem entre o mundo sem humanos e o mundo com humanos. É caótica, contanto progressivamente os anos, bem como o crescimento populacional no mundo.

No fim, Deus diz:

“I see them interact, develop.
I see them take different sides
As were they different minds,
believers in different ways, in different gods.
I think they will teach me something.”
(Eu os vejo interagir, desenvolver. Eu os vejo tomar diferentes partidos, com diferentes pensamentos, crentes de formas diferentes, em deuses diferentes. Acho que eles vão me ensinar algo).

Então, seu aprendizado começa…

3) Imago (Homines Partus) – Imago (O homem nasce)

“Imago” é a imagem da humanidade em sua forma mais natural; é o reflexo do Animae.

A primeira música de verdade possui uma aura folk, com a letra inicialmente falando sobre a beleza do mundo, e como os novos humanos estão dispostos a contemplá-la.

Seu estilo é meio medieval, com flautas e percussão, como era no início dos tempos. Não havia guitarras distorcidas ou baixos elétricos na época.

“Take me to the forests, take me to the trees.
Take me anywhere, as long as you take me.
Take me to the ocean, take me to the sea,
take me to the Breathe and BE.”
(leve-me às florestas, leve-me às árvores, leve-me a qualquer lugar, desde que me leve; leve-me para o oceano, leve-me para o mar, leve-me ao respirar e ser)

Vale notar que “breathe and be” é uma expressão que, para mim, significa “existir e viver”, porque um Ser pode respirar, mas pode não estar verdadeiramente vivo.

O homem nasce alegre e inocente, puro em sua imaginação e fascínio no mundo em que está inserido. O Homem é curioso e faminto por conhecimento, igual ao seu Criador.

Mas…

“Give me of the forests, give me of the trees
Give me anything as long as it’s for me.
Give me of the ocean, give me of the sea.
Give me of the Breathe and BE.”
(dê-me as florestas, dê-me as árvores, dê-me qualquer coisa, desde que seja para mim; dê-me o oceano, dê-me o mar, dê-me o respirar e ser )

Enquanto os humanos se desenvolvem, eles começam a desejar coisas que não podem ter ou que não podem ser. Mesmo limitado de tantas formas, o Homem imagina o “poder ter” e o “poder ser”.

O Homem deseja aprender, mas também sente que sabe tudo. Seu ego cresce e cresce, tornando-se maior e mais amplo, e ele começa a reivindicar as coisas como suas:

“Give me all the forests, give me all the trees,
give me everything as long as it’s for free.
Give me all the oceans, give me all the seas.
Give me all the breathing BE.”
(dê-me todas as florestas, dê-me todas as árvores, dê-me tudo, desde que seja de graça; dê-me todo o oceano, dê-me todo o mar, dê-me tudo que respira)

4) Pluvius Aestivus – Chuva de Verão

Na música anterior, a letra diz:

“Summer came with restlessness and curiosity.
Summer came with longing for the things we could not be.”
(o verão veio com desassossego e curiosidade; o verão veio com o desejo de coisas que não podemos ser)

Ou seja, associa o verão ao “desassossego” e à “curiosidade”, e ao desejo de ser coisas que não pode ser. Mostra que uma tempestade se aproxima, uma tempestade de amargura, ressentimento e inquietação no coração da humanidade.

É uma peça clássica de cinco minutos, toda baseada no piano, que cresce a partir do momento que a orquestra se junta, dando um ar de melancolia, refletindo um lado obscuro da humanidade, talvez refletindo a desilusão de Deus em ver sua criação tomar o caminho errado, apesar de todos os seus esforços.

5) Lilium Cruentus (Deus Nova) – Blood Stained Lily (New God)

A letra reflete a lamentação do ser humano em relação à brevidade da vida, onde um personagem se vê diante da perda de um ente querido e não sabe como reagir. Aos poucos ele chega à conclusão de que:

“I need to be strong
Need to be brave
I need to put faith in something
How could I live on
Not hoping we will meet
Again?”
(eu preciso ser forte, eu preciso ser corajoso; eu preciso ter fé em algo; como poderia seguir em frente sem esperar encontrar você de novo?)

O Homem, percebendo quão frágil é sua existência, decide se agarrar a algo, à fé ou à esperança. Geralmente, ambos.

Isso, exclusivamente, é muito presente no ser humano. Não pensamos nisso todos os dias, mas é uma sombra que nos persegue. Não apenas a morte, mas nossa fragilidade. Qualquer coisa, a qualquer momento, pode vir e nos despedaçar. Se pensarmos muito nisso, ficamos loucos; se não pensarmos, não queremos encarar a realidade.

No álbum, essa fragilidade entra em um conceito mais específico, mostrando que o Homem descobre seu ponto mais fraco (sem perceber que é parte essencial de sua própria humanidade) e começa a tentar descobrir maneiras de vencer a morte. Não apenas vencê-la, mas culpar alguém quando ela acontece:

“Life seems too small
when Death takes its toll
I need something
to blame for this pain”
(a vida parece tão pequena; quando a Morte vem cobrar seu tributo; eu preciso culpar alguém por essa dor)

6) Nauticus (Drifting)

Assim como Deus criou a humanidade, a fim de compreender a si mesmo, a humanidade criou computadores, a fim de buscar respostas e solucionar problemas. Cria-se, assim, um ciclo, onde cada ser vai tentando compreender a si mesmo.

Mas, nessa música, uma sonda que está vagando sem direção, enquanto busca respostas, acaba se voltando ao seu próprio criador, gerando um paradoxo. Ou seja: o ser humano, tentando entender a si mesmo, volta-se para o Criador, que criou a humanidade justamente para compreender a si mesmo!

A música prossegue em uma transição para a próxima. Mr. Money (um óbvio estereótipo não só dos homens de negócio, mas da própria ganância e ambição humana) está com a Miss Mediocrity (outro estereótipo, talvez um pouco machista, mas que diz respeito à vulgaridade humana e seus desejos superficiais). Pode-se interpretar que ambos os personagens são duas faces da mesma moeda.

Enquanto dialogam, uma pessoa é entrevistada no rádio. O entrevistado explica sua criação, visando a perpetuação da vida humana através de um estado de “congelamento”, atualmente conhecido como criogenia. Nesse estado pode-se congelar uma pessoa até se encontrar a cura de determinada doença, fazendo com que se viva para sempre.

7) Dea Pecuniae – Goddess of Money

Essa música, da forma como é dramatizada ao vivo, poderia ser uma importante peça da Broadway, como uma crítica ao paradigma econômico em que vivemos. Veja:

“I could have bought a Third World country
With the riches that I’ve spent
But hey
All modern economics claim that I deserved
Every single cent”
(Eu poderia ter comprado um país de terceiro mundo; com todas as riquezas que gastei; mas ei, a economia moderna afirma que eu mereci cada centavo)

É interessante notar que a maior parte das bandas de progressivo se amparam em suas belas passagens instrumentais, com seus músicos virtuosos (Dream Theater, Mars Volta, Rush). Mas, nesse álbum, especialmente nessa música, as passagens instrumentais (belíssimas, pode-se notar) servem apenas para complementar uma letra brilhantemente escrita, cuja importância é crucial para a música e o conceito do álbum como um todo.

Dea Pecuniae (deusa do dinheiro) pode ser vista como a versão feminina do Mr. Money. De certa forma, ela representa o pecado. Mr. Money é o personagem principal: um homem com a maior riqueza da Terra, que gasta boa parte de sua fortuna na criogenia para alcançar seu maior desejo – ser congelado e não ser despertado até que seja imortal.

8) Vocari Dei – Messages to God

Na música anterior, vimos uma face hedonística e repugnante da humanidade, mas o mundo não está assim tão escasso de esperança.

Ainda.

Agora, em uma música unicamente conceitual, ouvimos vozes faladas refletindo seus relacionamentos com deus, em forma de mensagens deixadas na secretária eletrônica (em um conceito que pode ser encontrado no filme Todo Poderoso – e que, na verdade, é algo já imaginado pelos cristãos).

Vemos pessoas experimentando uma conexão real com deus, sentindo que deus é real e relevante em suas vidas; mas, também, vemos pessoas questionando sua existência. Há pessoas que estão irritadas com deus e outras que estão tristes pela bagunça feita pelos humanos. Outros tentam entender seus planos, enquanto outros deixam as coisas em suas mãos.

Contudo, o tema mais recorrente das mensagens são coisas como “estou tão perdido” e “preciso de você”.

9) Diffidentia (Breaching the Core) – Mistrust (Breaching The Core)

Diffidentia (ou “desconfiança”) começa com “eu nunca vou me submeter a todas as coisas que você diz, DEUS!”, em uma atmosfera de caos e ruína. Buscar respostas, sem nunca encontrá-las, fez com que a humanidade começasse a renunciar seu Criador. Não apenas renunciar, mas, com arrogância, começar a questionar o Criador e seus planos. Imago não quer ser pequeno, e tampouco quer se submeter a regras.

Sua criação começa a se despedaçar, esquecendo-se de quem é. Ela busca algo maior que deus, uma forma de ser (BE) maior que deus.

“Searching for yourself is like looking for the house you stand in
How could you possibly find it?
It’s everywhere
It’s all you know
And there are no other points of reference!”
(buscar a si mesmo é como tentar encontrar a casa onde você está; como é possível encontrá-la? Está em todo lugar, é tudo que você conhece. Não há ponto de referência!)

Ainda assim, Animae compreende algo em sua observação: que um ser nunca pode tentar se entender, porque o que se busca está sempre na perspectiva de quem o busca. Não há ponto de referência, não há como desvincular o observador e o observado. São o mesmo ser!

O que um dia foi uma poderosa conexão, agora é apenas um fragmento do que fora. Animae percebe o que está acontecendo com a humanidade e começa a encolher e desaparecer. Como um pai que percebe que seu filho está velho demais para ser colocado sob suas asas, Animae decide deixar Imago descobrir as coisas sozinho, sem sua interferência.

10) Nihil Morari – Nothing Remains (Nada Sobrevive)

A jornada prossegue, chegando ao seu final, enquanto tanto Animae quanto Imago continuam a aprender. O primeiro aprende que não pode compreender a si mesmo logicamente, enquanto o segundo começa a compreender as consequências de seus erros.

“When there´s nothing more that we can trade, own, steal, or sell…
When there´s nothing whole because we took it apart, and just left, moved on…
When there´s nothing left for us to break, use, abuse, or rape…
Then you´re free to count how much you saved!”
(quando não houver mais nada que possamos negociar, possuir, roubar ou vender… quando nada for inteiro porque o desmontamos, e abandonamos, seguimos em frente… quando não restar mais nada para deturpar, usar, abusar ou violar… então poderemos calcular quanto economizamos)

A humanidade devastou a terra. Seu materialismo e ideais apáticos causaram um grande dano à Terra, às outras pessoas e às suas próprias almas.

“You think we have developed fast; that we’re civilized and intelligent
I’ll let you in on a secret: we have developed Things!”
(você acha que nos desenvolvemos rápido, que somos civilizados e inteligentes; vou te contar um segredo: nós desenvolvemos coisas!)

O vocal vai ficando cada vez mais furioso e desesperado, enquanto percebe que a humanidade cresceu demais. O Homem acha que seu desenvolvimento tecnológico é brilhante, que está na melhor fase de sua existência, sem se atentar ao fato que 99% das pessoas “não conseguiria montar uma lâmpada se tivessem uma arma apontada em suas cabeças”. Ou seja, as pessoas não conseguem fazer as coisas mais básicas para assegurar sua própria sobrevivência.

A música progride e entra em um reino de puro caos, iniciando uma contagem do crescimento da humanidade, culminando em 9 bilhões de pessoas, no ano de 2050.

“I’m sorry!
For the things we did and did not do
Forgive us; the fools that rushed ahead without a clue
I am sorry
Please forgive us
For this human lack of humanity
This evolutionary travesty
This tragedy called “Man””
(Desculpe pelas coisas que fiz e não fiz; nos perdoe; os tolos que se apressaram sem saber de nada; desculpe, por favor nos perdoe; pela falta de humanidade nos humanos; essa falsa evolução; essa tragédia chamada “Homem”)

No último minuto e meio, o vocal se desculpa repetidamente por ninguém ter previsto as consequências de um crescimento tão acelerado e o que isso poderia fazer ao mundo. As implicações são claras: um grande desastre está prestes a acontecer.

Em um momento, o narrador também tem uma interpretação interessante:

“If there´s nothing to do,
God we´ll turn to you,
But if we´re an image of you
i reckon you are just as puzzled and ugly too”.
(se não restar nada a fazer, Deus nós vamos nos voltar para você; mas se somos sua imagem, eu entendo que você é igualmente confuso e feio também)

Ou seja, se o Homem falhar, isto quer dizer que Deus falhou também. Se o Homem é mau, Deus também é.

11) Latericius Valete – If You Are Strong, Be Strong

Em “Deus Nova”, a população cresceu exponencialmente através dos séculos. Em “Nihil Morari”, a música exatamente anterior a esta, a população cresceu rapidamente em intervalos de décadas entre os anos 2000 e 2050. Nessa música, uma catástrofe global (ou um Apocalipse) reduziu a população da Terra de 10 bilhões a 1.2 milhões.

Essa música é inteiramente instrumental, exceto por uma linha:

2060: 1.2 milhões de pessoas.

12) Omni – Everything (Tudo)

A música começa com um som fúnebre de órgão, enquanto vários âncoras discutem a horrível tragédia que acometeu a humanidade – uma tragédia ecológica; epidemias, que sem o suporte do resto do mundo, podem dizimar populações inteiras; Terceira Guerra Mundial.

Em seguida, a música verdadeiramente começa, onde beleza e tristeza se misturam, dando um ar de finalidade. Finalidade por que, com a terra devastada pelo próprio homem, a única esperança que resta à Humanidade é Nauticus, como podemos ver aqui:

“I see us in you, Nauticus
As you’re drifting along
Built to last
Young and strong
Will you find us the answers
Before we are gone?”
(eu nos vejo em você, Nauticus; enquanto você fica à deriva; feito para durar; jovem e forte; você encontrará as respostas antes de irmos embora?)

Como dito antes, a humanidade construiu um tipo de sonda espacial inteligente (Nauticus), na esperança de encontrar respostas. O Homem está com problemas, seu planeta está se tornando inabitável, devido às ações do próprio Homem, e eles estão ficando sem tempo.

13) Iter Impius – Wicked Path

Mr. Money está de volta, no que se pode considerar a melhor música do álbum (e, talvez, de toda a história humana).

O personagem, que fizera com que fosse congelado em um estado de hibernação (criogenia), até se tornar imortal, acorda para descobrir que o Homem destruiu a si mesmo. Seu objetivo antes era, tendo toda a riqueza e poder do mundo, tornar-se essencialmente um deus.

Mas não é isso que acontece…

“I woke up today
Expecting to find all that I sought
And climb the mountains of the life I bought
Finally I’m at the top of every hierarchy
Unfortunately there is no one left
But me”
(eu acordei hoje, esperando encontrar tudo aquilo que desejei; e escalar as montanhas da vida que comprei; enfim estou no topo de toda e qualquer hierarquia; infelizmente, não restou ninguém, exceto eu)

Ironicamente, ele alcança seu objetivo de estar no topo da hierarquia, embora não tenha ninguém para estar abaixo dele.

Mesmo após a cruel compreensão de que o que ele mais desejava agora não tem significado algum, Mr. Money se recusa a “cruzar a linha”, mantendo-se egocêntrico até o fim, preferindo governar as ruínas da humanidade a morrer.

Ele ainda não aprendeu. Ele ainda está perdido.

Obs: essa música pode até ser uma referência a “Breaking Bad”, onde Walt lentamente destrói todas as razões que o levaram a fazer o que faz, até que ele é abandonado, sozinho e quebrado, em uma montanha de dinheiro e sangue em suas mãos.

14) Martius/Nauticus II

Uma das músicas mais brilhantes, em um dos conceitos mais complexos do álbum.

Na música Nauticus, descobrimos que, a fim de entender mais de si mesmo, a humanidade construiu uma sonda espacial, que estava vagando pelo espaço.

Agora, em uma brilhante conclusão da história, Nauticus se torna algo mais, muito mais do que apenas uma máquina:

“I am Nauticus now
And so much more
I am all you know
I’m at the line – just at the line
An eternity at the blink of an eye
In this place called time
I’m everything
Everywhere
I am all, omni, BE!”
(Eu sou Nauticus agora; e muito mais; sou tudo que você conhece; eu estou na linha – apenas na linha; a eternidade num piscar de olhos; nesse lugar chamado tempo; eu sou tudo, todo lugar, tudo, omni, BE!)

Com a humanidade devastada, a única coisa que resta de sua existência é essa sonda espacial, contendo todo o conhecimento humano. De certa forma, é um deus. Nauticus dá a si mesmo o nome de Martius, filho de Marte, deus da guerra, nascido de tempos de conflitos e instabilidade.

Martius continuará sua existência até o momento em que começará a nutrir dúvidas de sua existência e tente entender a si mesmo, iniciando um novo ciclo.

15) Animae Partus II

E o álbum termina assim, com esse novo ciclo sendo iniciado, em uma música onde o silêncio impera, até o momento em que uma voz grita:

“I am!”
(eu sou!)


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  • Bruno Fernando

    There’s room for all God’s creatures, right next to mashed potatoes

  • Perfeito…parabéns pelo belo texto

  • Uma obra prima, quando peguei o álbum em seu lançamento eu demorei um tempo pra conseguir digerir todo o conceito que ele nos apresentava. Excelente texto.