E a sua opinião? #1 – A falácia da imparcialidade

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Nota do editor: esse é o primeiro texto de uma série sobre nossa capacidade de formar opiniões. Em um tempo de visões acirradas, precisamos recuar e entender o que nos faz tão radicais. Começamos desmistificando uma das principais defesas que projetamos, a imparcialidade.

Somos dois contra a parede,
E tudo tem três lados
E o amanhã arremessará
Outros dados

Prótons, elétrons e nêutrons.
Estados Unidos, União Soviética e Terceiro Mundo.
Dilma, Aécio e votos nulos.
A turma do Facebook, a turma do Facebook e a turma do Facebook.

Já tratamos de dualidades por aqui, mas como nos lembra o Skank, mesmo o Yin Yang tem um “terceiro lado”: o do observador. Geralmente, é aquela pessoa que se posiciona como apaziguadora de conflitos, que pondera argumentos de vieses divergentes ou escolhe o América diante de um Fla-Flu. As habitantes do terceiro lado podem ser intituladas de moderadoras, omissas, imparciais, aquelas que ficam em cima do muro, ou somente neutras.

Por que falácia?

É possível ser imparcial. Também é possível escalar o Monte Everest. Por algum motivo, tendemos a pensar no primeiro como muito mais fácil que o segundo.

Diferentemente da montanha mais alta do mundo, a imparcialidade parece ao alcance do toque. Em casos simples, como o silêncio deste autor no Além do Roteiro em toda essa confusão política, bastaria dizer “mas eu não prefiro PT ou PSDB, por isso não postei sobre!”, para me proteger levantando o muro da omissão, essa segurança rápida e eficaz às exigências de posicionamentos ou opiniões.

Por mais veloz e inconscientemente ocorra o processo mental, esse exercício de não participação é uma escolha, e como tal, considera milhares de informações de entrada para gerar a (falta de) saída. Tudo aquilo que nossos sentidos captam, que aprendemos e absorvemos culturalmente, nosso próprio modelo de raciocínio, são ao mesmo tempo motores e paredes, que fornecem movimento e limites/direção a nossas decisões. Nada disso é imparcial, sequer novidade.

Para quem tem interesse em se debruçar nos vieses de nossa mente, recomendo Subliminar, de Leonard Mlodinow. O risco de nunca mais confiar em si mesmo – ou passar a confiar demais – fica por conta própria

Há um caminho “fácil” para a imparcialidade. A completa falta de conhecimento sobre o assunto. Sem qualquer informação sobre o contexto, zero mesmo, é inviável ponderar sobre, refletir, chegar a uma opinião ou decisão. A omissão, nesse caso, naturalmente representará uma imparcialidade. Convenhamos, todavia. Sobre o que temos absolutamente zero informação em 2016?

Com a enxurrada de informações que recebemos, e a consequente maior dificuldade de “não saber nada sobre algo”, sobra o caminho “difícil” para a imparcialidade. Basicamente, esta necessita do cumprimento de algumas condições para existir.

Imagine uma esfera fechada e transparente, onde consegue enxergar todos os ângulos simultaneamente, enquanto uma cena ocorre dentro dela. Sua intervenção é aguardada, de modo que há tempo para avaliar as consequências possíveis e tomar a melhor decisão.

Esse cenário é tão lindo quanto utópico.

As três premissas básicas que se apresentam nesse cenário são irreais ou impossíveis: conhecimento total sobre o contexto; previsão de todos os cenários possíveis; critério de decisão infalível. Cada uma das premissas apresenta seus inúmeros desafios rumo à uma imparcialidade perfeita, tantos que nem me interessa discutir todos (sinto muito pela sinceridade). Foquemos o conhecimento do contexto, o início desse processo.

Temos sentidos que, apesar de mecanismos fantásticos para enxergarmos em 3D ou nos conferir equilíbrio, são repletos de falhas. Nossos olhos, por exemplo, têm um ponto cego, automaticamente preenchido pelo cérebro. Fora o ponto cego, a imagem que nosso globo ocular gera rumo ao cérebro não pode ser chamada de “Full HD”, como pode-se conferir na comparação abaixo:

O círculo à esquerda mostra a imagem original da estrada capturada por uma câmera, e como normalmente a enxergamos. O círculo à direita mostra a mesma imagem, capturada por uma retina humana, no caso um olho direito, focado no centro. A quase total falta de foco ao redor do centro da imagem vista pelo olho mostra a perda exponencial na resolução das imagens que vemos a todo o tempo, – isso está acontecendo com você agora, na tela. Spoiler: é seu cérebro que conserta essa impressão.

No centro, o ponto em amarelo representa um pequeno pedaço de nossa retina onde faltam receptores de pigmentação azul. Partindo do ponto amarelo para a direita, formando um ângulo de 15° com o centro, está o ponto cego (um aparente buraco negro no canto inferior esquerdo da placa), equivalente ao local da retina onde os receptores de luz são substituídos pelas mais de 1 milhão de fibras que levam a imagem captada para o cérebro. Os mesmos fatores ocorrem no olho esquerdo.

Ou seja, você até olha, mas enxerga quase nada.

Não bastasse a limitação na coleta de informações, pelas limitações sensoriais, a capacidade de processamento do que recebemos também não está sob controle como imaginamos (o que entra um pouco naquela capacidade de previsão de cenários).

“o sistema sensorial do homem envia ao cérebro cerca de 11 milhões de bits de informação por segundo. Porém, qualquer pessoa que um dia tenha tomado conta de algumas crianças que falam ao mesmo tempo pode testemunhar como nossa mente consciente não consegue processar algo próximo desse número. A verdadeira quantidade de informação com que podemos lidar foi estimada entre dezesseis e cinquenta bits por segundo. Portanto, se nossa mente consciente tentasse processar toda essa informação enviada pelo sistema sensorial, nosso cérebro travaria, como um computador sobrecarregado.” (Subliminar, pág. 43)

É interessante perceber que podemos aperfeiçoar nossos sentidos, adquirir conhecimentos técnicos para melhor uso das informações que conseguimos processar, analisar muitos e muitos estudos de caso, viver inúmeras experiências como viagens ou diferentes empregos, ou mesmo filosofar, como parece o caso. O conhecimento pleno sobre um dado contexto permanecerá inalcançável, contudo.

Em meio a tantas impossibilidades, melhor do que tentar atingir essa imparcialidade total de maneira ativa, a ação que mais nos leva a falar “estou sendo imparcial” surge como alternativa. A omissão. A escolha de não deliberar sobre a esfera.

Ok, omissão não parece ação, contudo, podemos pensá-la pelo ato/escolha de “não se… (envolver, importar, estressar, frustrar, etc, a seu critério)”, como falado anteriormente.

Na omissão, não se toma partido, decide-se não decidir, não escolher um dos dois ou mais lados em jogo. O maior engano cometido com o raciocínio omissão = imparcialidade reside na crença inconsciente de uma independência entre as 3 premissas vistas (conhecimento do sistema, previsão de cenários e critério de decisão). Assim como um critério de decisão falho acaba com a imparcialidade, o melhor sistema decisório continuará capenga sem conhecimento do contexto; decidir não agir pode ser uma má decisão influenciada por essa falta.

Um grande exemplo é o voto nulo, abordado em um dos primeiros textos da casa. Existem muitos motivos para se votar nulo, como a aversão a todos os candidatos de uma eleição, protesto contra a classe política ou contra a obrigatoriedade do voto, todos combustíveis para a escolha de omissão. No entanto, a imparcialidade não é um deles.

Acontece que, em eleições, temos informações. Campanhas dos candidatos, conversas com amigos e família, pesquisas eleitorais, são algumas das formas pelas quais as obtemos. Podem ser dados ingênuos, ou até manipulados, porém, são contexto. E, via de regra, nas muitas dualidades que se apresentam, um dos lados está ganhando. A omissão perante um desequilíbrio é uma escolha, consciente ou inconsciente, de não alterar esse desequilíbrio.

O direito a essa escolha é legítimo, por vezes necessário. Escolher não ter uma opinião, uma definição, é usualmente visto como covarde, porém, pode ser uma atitude bastante corajosa. O ponto aqui está na consciência dessa escolha. Não votar no candidato com 51% dos votos, sequer no candidato com os outros 49%, não é imparcialidade. É uma decisão de “deixar os 51% ganharem”.

Progresso: 51% do texto concluído. Mentira, talvez 80%.

Eleição é um exemplo didático, mas essa noção se conecta com as disputas facebookianas, boicotes ao Oscar, boicote ao Porta dos Fundos por um vídeo (ignorando os vídeos anteriores) e outras questões cotidianas. Afinal, se omisso você já é parcial, imagina se posicionando? Calma, também sou, não é uma acusação. Como os olhos provam e a capacidade de processamento do cérebro não deixa mentir, toda nossa construção de opinião está acoplada a um nível de parcialidade, do radical aos jornalistas e juízes mais éticos. Não é à toa que jornais se enchem de profissionais e cortes como o STF não contam com um só juiz. A melhor forma ativa de se aproximar da imparcialidade é somando diferentes parcialidades – não que essas organizações sempre consigam isso, né Veja, cof cof.

Qual a conclusão então? Sei lá. Por vezes pode ser melhor se omitir, em outras se posicionar. A dica está nessas formações que buscam imparcialidade. Ela se aproxima se há pluralidade. Tem isso na sua linha do tempo? Se aproxima se há diálogo. Enxerga isso em meio às hashtags? E vale fazer essas coisas abraçando a própria parcialidade, se mantendo aberto enquanto enxerga o que valoriza. Mesmo sem ser mulher, tenho informações suficientes para saber que minha omissão favorece a manutenção do desequilíbrio que já existe contra elas. Por isso, posso me posicionar na desconstrução do machismo. Mesmo sem ser [escolha uma minoria], você deve ter informações suficientes para não ser omisso na diferenciação de sistemas envolvidos nessa causa. A gente sabe que não será imparcial mesmo parado, então por que não tentar se posicionar da melhor forma possível?

Você não precisa se obrigar a uma opinião – como o Além do Roteiro não se obrigou a comentar essa fase política. Nessa fase julgo até que o melhor que tenho a oferecer é a omissão, um elemento de silêncio no mar de vozes roucas e loucas. Você não é obrigado a criar textos, ir em passeatas, compartilhar publicações, fazer discursos para amizades no bar. Pode sim se omitir sobre esses ou quaisquer assuntos. Pode focar em ouvir. Até torcer para o América em um Fla-Flu.

Mas imparcial…

Veja os outros textos da série aqui:

E a sua opinião? #2 – A Espiral do Silêncio

E a sua opinião? #3 – Você enxerga o mundo pela Janela de Overton

E a sua opinião? #4 – Quando a Opinião Vira Teoria Conspiratória

E a sua opinião? #5 – Uma defesa à hipocrisia


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