Our Endless Numbered Days - Iron & Wine

Álbuns que você deveria conhecer – “Our Endless Numbered Days” – Iron & Wine

Tempo médio de leitura: 7 minutos

Iron & Wine, apesar do que o nome possa sugerir, não é o nome de uma banda, mas o nome de um cantor e compositor norte-americano, Samuel “Sam” Beam (mesmo que ele se apresente com uma banda).

Com uma barba dessa, o cara tem que ser fodão.
Com uma barba dessa, o cara tem que ser fodão.
As influências de Sam compreendem, principalmente, Nick Drake (seus três álbuns entre os melhores da história, na revista TIME e Rolling Stones) e JJ Cale (responsável pela música Cocaine, do Eric Clapton, e dois sucessos da banda Lynyrd Skynyrd).

“Our Endless Numbered Days” é o segundo álbum de sua carreira, mas o primeiro gravado em um estúdio profissional (o primeiro, ele gravou em um estúdio em sua própria casa).

Esse álbum pode não ser famoso, mas suas músicas apareceram em grandes filmes e séries, como: House, Em Boa Companhia, A Última Música e Grey’s Anatomy.

Sam é um poeta, e não há nada em suas músicas que esteja lá por acaso. Assim, ele brinca com a sintaxe e a métrica, além de usar um pouco de percussão e mudanças de andamento (compasso), para alcançar ao máximo o que ele deseja expressar. Isso, lógico, aliado à sua bela voz (uma voz suave, de alguém que já viu o pior da vida, mas encontrou sua paz).

O álbum trata do amor e da morte, e o relacionamento entre os dois; mas feito de uma forma que parecesse uma conversa casual, entre o próprio casal, ou uma lembrança.

Obs. Estar no show deles deve ser uma experiência incrível; contudo, suas performances são mal gravadas, então, na maior parte dos casos, usarei o vídeo da música gravada, não sua execução ao vivo (como é tão comum nos textos de músicas daqui).

On Your Wings

Logo no início do texto, falei que nada nas músicas de Sam está lá por acaso. Aqui, vemos que é verdade. O álbum trata do amor e da morte, e do relacionamento de ambos; o que se relaciona muito com a brevidade da vida. Então, ele abre o álbum com uma guitarra soando como o tique-taque de um relógio.

Em toda a música, ele se refere a “God” (Deus), como numa prece. E fala:

“All these men that you made
How we wither in the shade
Of your trees, on your wings
We are carried to the sea”
(todos esses homens que você fez
como murchamos na sombra
de suas árvores, em suas asas,
somos levados para o mar)

Mar, no contexto do álbum, significa morte.

Há uma versão ao vivo aqui, muito (mas não tanto) diferente da original.

Naked as We Came

Uma exceção, uma espetacular exceção.

A música trata de um casal falando de suas mortes iminentes, da forma mais pura e casual possível, mostrando que há um inevitável ciclo (em uma analogia, a migração dos pássaros e a morte; ambas as coisas são certezas na vida):

“Birds are leaving over autumn’s ending
One of us will die inside these arms”

Logo em seguida, ele fala que iremos do mesmo modo que viemos:

“One of us will die inside these arms
Eyes wide open, naked as we came”

Cinder and Smoke

Uma das músicas mais bonitas do álbum, e, para mim, a mais indecifrável. De qualquer forma, pegue seu fone de ouvido, deite na cama e feche os olhos. Agradeça-me depois.

Letra aqui.

Há uma versão ao vivo aqui, muito (muito mesmo) diferente da original.

Sunset Soon Forgotten

Versão original

Versão mais animada, mas que foge um pouco do espírito da banda.

Essa música aborda a pureza da infância, e como as memórias antigas ecoam em nossas mentes, de tempos mais simples e ordinários.

Teeth in the Grass

Teeth in the Grass (“dentes na grama”) é uma metáfora para morte; uma imagem aproximada de sepulturas brotando do chão, como dentes na grama.

And when there’s nothing to want
When we’re all brilliant and fast
When all tomorrows are gone
There will be teeth in the grass
(quando não houver nada para desejar
quando formos brilhantes e rápidos
quando todos os amanhãs se forem
seremos dentes na grama)

Love and Some Verses

Essa música pode ser interpretada como o amor incondicional de um pai por sua jovem filha, enquanto ela cresce e passa por mudanças.

Love is a dress that you made
Long to hide your knees
(amor é um vestido que você fez
longo para cobrir seus joelhos)

Essa parte mostra a pureza e um senso de proteção, que só um pai poderia ter.

Radio War

Uma música cuja beleza só compreendi ao escrever esse texto (isso explica o porquê de gostar tanto de escrevê-los).

All the while that she wept
She had a gun by her bed
And a letter he wrote
From a dry, foundered boat

O título da música e esse verso me mostram que é sobre uma viúva, que perdeu seu marido na guerra, e agora está contemplando suicídio enquanto lê uma carta que ele escreveu, de um barco naufragado.

E o final, ainda mais belo, fala da morte e da solidão:

“And the beast, never seen
licks its red talons clean
Sara curses the cold
No more snow, no more snow”
(e a besta, nunca vista
lambe suas garras vermelhas até ficarem limpas
Sara amaldiçoa o frio
sem mais neve, sem mais neve)

Each Coming Night

Fala bastante da imortalidade do amor, que uma pessoa se vai, mas permanece no amor do que ficou:

“Will you say to me when I’m gone
Your face has faded but lingers on
Because light strikes a deal with each coming night”

Free Until They Cut me Down

Versão Original.

Não é exatamente a versão original, mas acho MUITO foda. Foda pra caralho.

Fever Dream

A melodia é composta com um toque de tristeza, que me deixa pensativo.

“Some days her shape in the doorway
Will speak to me
A bird’s wing on the window

Compara ela a um pássaro, no sentido da expectativa de que temos ao tentar tocar um, que, no caso, ele pode voar e ir embora.

Sodom, South Georgia

Essa música traduz a essência do álbum, do ciclo imutável da existência, vida e morte, repetindo-se perpetuamente. Nesse caso, há um tipo de impotência e, ao mesmo tempo, esperança, no reconhecimento disso.

“Papa died while my girl
Lady Edith was born”
(papai morreu enquanto minha garota
Lady Edith nascia)

Passing Afternoon

Minha música favorita do álbum, e a letra mais incrível, por se tratar mesmo de uma poesia. Além disso, Sam consegue colocar o nome de uma flor de difícil pronúncia (Bougainvillea) no meio da poesia, sendo estruturalmente consoante com a rima e a métrica, além de ser uma metáfora ao coração da mulher.

Acho que muito mais que dizer do que a letra se trata, devo mostrá-la a vocês. Acompanhe a música, perceba a beleza, a sutileza da letra, acompanhando uma melodia simples e delicada:

“There are times that walk from you like some passing afternoon
Summer warmed the open window of her honeymoon
And she chose a yard to burn but the ground remembers her
Wooden spoons, her children stir her Bougainvillea blooms
There are things that drift away like our endless, numbered days
Autumn blew the quilt right off the perfect bed she made
And she’s chosen to believe in the hymns her mother sings
Sunday pulls its children from the piles of fallen leaves
There are sailing ships that pass all our bodies in the grass
Springtime calls her children until she let’s them go at last
And she’s chosen where to be, though she’s lost her wedding ring
Somewhere near her misplaced jar of Bougainvillea seeds
There are things we can’t recall, Blind as night that finds us all
Winter tucks her children in, her fragile china dolls
But my hands remember hers, rolling around the shaded ferns
Naked arms, her secrets still like songs I’d never learned
There are names across the sea, only now I do believe
Sometimes, with the window closed, she’ll sit and think of me
But she’ll mend his tattered clothes and they’ll kiss as if they know
A baby sleeps in all our bones, so scared to be alone”


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