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Violência não é uma questão de religião, mas de caráter

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A religião, assim como a política, sempre entrou no rol de assuntos que não devem ser discutidos entre amigos (ou, na verdade, com qualquer um); ou se discutidos, fazê-lo como se estivesse pisando em ovos, com a maior cautela possível.

Nosso panorama político mudou, mas só porque mudamos a forma de abordá-lo. Deixamos de lado essa aversão ao assunto porque isso se mostrou totalmente necessário, quase obrigatório.

Agora (na verdade, já faz um tempo) a religião precisa seguir esse mesmo caminho.

Memorial para o atentado na boate americana
Memorial para o atentado na boate americana

Após o último atentado nos Estados Unidos, em uma boate gay em Orlando, na Flórida, que causou a morte de 50 pessoas e feriu outras 50, e o Estado Islâmico reivindicá-lo, o Islamismo foi novamente alvo de comentários de pessoas que conhecem pouco ou nada sobre a religião; e sobre o comportamento humano.

O atentado em Orlando foi uma tragédia; e uma das piores. O mundo provou outra vez que não está preparado não apenas para o homossexualidade, como para o Amor. O ódio é tão grande que estamos todos cegos, preferindo aceitar a violência (e perpetrá-la) a tentar compreender e aceitar coisas que parecem pouco naturais.

Mas não é sobre isso o texto.

O atirador afirmou ser adepto do Estado Islâmico. E, mais uma vez, a religião islâmica se tornou alvo de críticas pesadas.

O Islamismo recebeu (e recebe) muita atenção graças aos atentados de 11 de setembro (perpetrados pela Al-Qaeda de Bin Laden) e o Estado Islâmico (responsável basicamente por todos os últimos atentados mundo afora). Masninguém pode afirmar que o Islã é inerentemente violento por causa desses exemplos históricos e esquecer completamente dos exemplos históricos do Cristianismo. Ou Judaísmo. Ou Budismo (sim, acredite se quiser).

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Ilustração caricaturesca do Islã. “Islã é uma religião de paz!” “Vê? Ninguém discute.”

Muitos ocidentais parecem enxergar a religião de uma forma binária: há a religião boa e a religião ruim. À maioria, a religião boa é o cristianismo (e suas vertentes), enquanto a religião ruim é o Islamismo (com inúmeras vertentes, que quase ninguém sabe a respeito). Ou seja, Cristianismo é pacífico, Islamismo é violento; cristianismo é tolerante, islamismo é intolerante.

Por falta de uma compreensão mais aprofundada, e graças a uma mídia que quer que você despreze o “outro”, é mais ou menos assim que enxergamos o Islã.

Logicamente, está errado.

Desprezamos os países do Oriente Médio (por correlação direta, o Islamismo) devido à sua violência, especialmente em relação a homossexuais e mulheres. No entanto, o Brasil, um país majoritariamente cristão, teve 60 mil assassinatos em 2014, o que representa 11% de todos os assassinatos do mundo. O Brasil é o 5º país com mais assassinatos de mulheres no mundo! Adivinha quantos países do Oriente Médio estão antes? Nenhum. Entre os dez primeiros? Nenhum. A cada 28 horas, um homossexual é assassinado de forma violenta no Brasil, o que, em um ano, refere-se a mais de 300 pessoas. De forma violenta. Não estamos contando os que morrem em acidentes, causas naturais ou aqueles assassinatos que não são ligados a essa causa específica.

Certo, o Brasil é um país extremamente violento, mesmo sem nenhuma guerra oficialmente declarada. E aí?

E aí, que o Brasil, sendo majoritariamente cristão, não tem todas essas mortes diretamente correlacionadas à sua religião, mesmo que seja, na teoria, uma nação laica. Então, querido(a) leitor(a), porque teimamos em correlacionar a violência, no Oriente Médio, ao Islamismo?

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Só o que enxergamos do Islã.

Não que o Islã não seja violento; ele é. O Alcorão tem passagens muito violentas, em especial no final. Mas a Bíblia também tem. Todas as religiões, monoteístas ou não, têm sua parcela de escrituras violentas e intolerantes, bem como uma história sangrenta.

A conquista de Canaã, pelos hebreus, é considerada um genocídio, e está na Bíblia (Antigo Testamento):

Porém, das cidades destas nações, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida. Antes destruí-las-ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos perizeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o Senhor teu Deus. Para que não vos ensinem a fazer conforme a todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, e pequeis contra o Senhor vosso Deus – Deuteronômio, Capítulo 20, Versículos 16-18

Assim Josué conquistou a região toda, incluindo a serra central, o Neguebe, a Sefelá e as vertentes, e derrotou todos os seus reis, sem deixar sobrevivente algum. Exterminou tudo o que respirava, conforme o Senhor, o Deus de Israel, tinha ordenado – Josué, Capítulo 10, Versículo 40.

Um pastor norte-americano, em Novembro de 2015, afirmou que “homossexuais merecem a pena de morte”, citando o Levíticos 20:13:

O homem que se deitar com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação, deverão morrer, e seu sangue cairá sobre eles.

Há outras escrituras bíblicas radicais e violentas, mas para ilustrar melhor, vamos citar exemplos históricos:

Há exatamente um ano, houve um atentado, em Charleston. Um garoto entrou em uma Igreja simbólica da comunidade negra e matou 9 pessoas. Acontece que ele era cristão devoto, batizado como protestante. Mas ninguém disse que aquele atentado foi de cunho religioso, disse?

Um vídeo de um pastor evangélico americano dando um sermão CELEBRANDO o massacre em Orlando: “a boa notícia é que há menos 50 pedófilos no mundo, porque, você sabe, são todos uns pervertidos e pedófilos nojentos”. Ele continua sua barbárie ao falar “essas pessoas deveriam ser mortas, de qualquer forma, mas deveriam ser mortos nas formas certas, sendo executados pelo governo, que iriam julgá-los, condená-los e tê-los executados”.

Nos últimos 2000 anos, até os países muçulmanos expulsarem as populações judaicas em 1948, judeus foram alvos de perseguição e intimidação nas mãos de cristãos.

As Cruzadas mataram tantos judeus em nome da fé cristã, que é considerado o segundo maior genocídio judeu, perdendo apenas para o Holocausto. Perpetrado por Hitler. Um cristão. O Holocausto causou 8 milhões de mortes. As Cruzadas, por volta de 3 milhões.

No século XIV, durante a peste negra que devastou a Europa, cristãos massacraram judeus por acharem que eles eram os culpados pela peste negra, pois eram menos afetados (isso foi posteriormente explicado porque eles tinham uma rotina higiênica melhor, graças aos comandos da Torá). Por volta de 5000 judeus foram mortos em uma série de massacres, que durou décadas.

Mas não apenas contra judeus. Entre si também.

Depois de Martin Lutero anexar suas teses à porta de uma Igreja, criando uma nova vertente do cristianismo, explodiu uma guerra entre cristãos que durou anos, derramando sangue tanto de católicos quanto de protestantes, para ver qual vertente era mais verdadeiramente cristã. Não tão diferente assim do que ocorreu entre sunitas e xiitas.

Há outros exemplos:

A Inquisição, a Guerra dos Trinta Anos, as guerras religiosas francesas. O colonialismo, como forma de expandir a fé cristã. Ku Kux Klan. IRA (Exército Republicano Irlandês).

A violência também está no Judaísmo. Ano passado, Yishai Schlissel, um judeu ultraortodoxo, esfaqueou 6 em uma Parada Gay. Em 1994, Baruch Goldstein matou 29 muçulmanos enquanto rezavam e feriu 125, em um evento que ficou conhecido como Massacre na Caverna dos Patriarcas.

Hanukkah, o feriado favorito dos judeus seculares (que muitos acham ser a vitória dos macabeus em preservar a religião judaica contra os gregos, que em 167 AC decretaram a proibição da religião judaica), celebra a vitória dos judeus radicais e puristas contra os judeus helenistas, em uma sangrenta guerra civil.

Inclusive o Budismo, que muitos pensam ser a mais pacífica das religiões, pois defende uma abordagem não-violenta, já teve seus episódios de violência. No Sri Lanka, a maioria budista lutou contra a minoria hinduísta e perseguiu os muçulmanos Rohingyas.

O ponto não é provar que o Cristianismo e o Judaísmo são maus. Não são. O ponto é afirmar que nenhuma religião é inerentemente pacífica. Como o islamismo também não é. Nem o hinduísmo, até mesmo o budismo. Nenhuma religião é inteiramente nada a não ser o que seus seguidores a fazem ser.

Pessoas são violentas. Pessoas gostam de arranjar inúmeras justificativas que as eximam de sua responsabilidade pessoal, geralmente amparando-se na abstratividade das religiões.

É desrespeitoso culpar o Islamismo por causa de um punhado de gente má. A culpa é do ódio, da falta do amor. Amor esse que as religiões também tentam pregar há séculos, mas parece que ninguém está a fim de aprender.


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