Obelisco de Luxor

O dilema da apropriação cultural

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Era cada vez mais extenuante para Luana suportar a chapinha que usava para ir ao colégio. Sem seu uso, não se sentia digna de exibir suas raízes frente às colegas de classe. Com seu uso, escondia mais do que raízes, escondia sua própria identidade.

No correr dos ponteiros do relógio, essa dicotomia tornou-se insustentável. Belos são esses dias em que uma pessoa encontra os limites de suas amarras. Não sem dor, claro. Quebra de verdade dói, e Luana chorou. Chorou para se libertar.

Grupos de Facebook, vídeos no YouTube, textos internet afora e pessoas amigas contribuíram para a desconstrução das barras de calor que alisavam seu cabelo. O processo poderia ser longo, mas em uma semana Luana já se sentia mais Luana. Os estudantes à sua volta sentiam também.

A menina, que agora parecia mais adulta que todos ali – pois sua aparência passou a exportar mais do que RG e CPF -, sabia de duas amigas de cabelos naturais ricos em cachos guardados à décima potência, limitados por sinais de “igual” de chapinhas. Gentilmente, contribuiu para suavizar duas vezes o mesmo processo por que passara.

Tornaram-se três os cabelos inundados em “pontes de enxofres” (as ligações químicas formadoras das ondulações nos cabelos); pontes que, curiosamente, quebram normas.

Luana prosseguiu seus estudos de desconstrução até esbarrar em um assunto: apropriação cultural. Sentiu o calo sendo pisado. As amigas as quais ajudou a libertar são brancas, diferentes de si na cor da pele. Uma delas, Marina, foi além dos cachos rumo a um afro imponente. Estariam elas se apropriando de sua cultura?

Expansão cultural

A dúvida de Luana pode existir também para Marina, ou para Jorge, um menino rico que canta funks atuais, jazz e samba dos anos 20 (aposto que você imaginou branco pelo “menino rico”), ou Kauê, que replica o cabelo de Cristiano Ronaldo pelas ruelas do Complexo do Alemão (aposto que… você sabe).

Pode existir e dói, pois afeta diretamente a formação de nossa identidade. Nos perguntamos: quais elementos de diferentes culturas podemos absorver para entendermos – e até criarmos – quem somos? Quão presos estamos aos limites da cultura dominante no ambiente onde vivemos?

Cada pessoa acaba por representar uma perspectiva sobre esse movimento de culturas. Para Kauê, é provável que a cultura dominante seja a que percebe nas novelas, exibidas na televisão ligada todas as noites. Essa cultura que vem de fora, que não nasce na favela, chega com força tal que perde o título de forasteira e domina. Bem como a cultura que forçou Luana a usar cabelos lisos por tanto tempo para se sentir aceita.

Para Marina e Jorge, a mesma cultura que se expande por sobre a favela ou através do corpo da mulher negra é a cultura que os direciona de berço. Contudo, por mais privilégios que carreguem como pessoas ricas/brancas, estão oprimidas na potência de suas escolhas, por suas naturalidades capilares estarem escondidas, ou seus gostos musicais viverem relegados à margem.

Quando as culturas de Luanas e/ou Kauês se expandem, captadas por Marinas e Jorges, um medo congelante toma conta daqueles que sempre tiveram em suas culturas espaços de resistência, ao contrário de espaços de expansão. Teme-se que, ao invés de captadas, suas culturas sejam cooptadas.

Protecionismo cultural

É esse medo que reforça um fenômeno já antigo de protecionismo cultural. Uma identidade coletiva sendo tomada como propriedade de um grupo.

O protecionismo complementa a expansão da cultura dominante. Os hábitos que chegam à favela através da novela, por exemplo, se inserem e tornam-se hábitos daqueles moradores. Todavia, eles não são os representantes, os associados a essa cultura dominadora. Enquanto existem naquele espaço limitado, esses novos hábitos os conferem maiores graus, níveis. Quando levam seus novos hábitos aos habitats dos “mais adaptados”, o grau recebido é de ridicularização.

“Olha que ridículo esse neguinho com cabelo do Cristiano Ronaldo, hahahaha!”.

Esse choque confere à cultura nascida no ambiente “menor” seu título de resistência.

Assim, o passinho da favela passa a ser dançado com orgulho por Kauê. As tranças e turbantes dos cabelos afro passam a ser usados com confiança por Luana.

Todo símbolo de confiança se expande, por algum motivo que especialistas em ciências sociais e psicologia podem explorar melhor. A Marina e o Jorge, que queriam romper com as amarras que suas “culturas-pátrias” mantinham, se beneficiam da expansão consequente desses novos símbolos de orgulho, ganhando vertentes para construir suas identidades.

É nesse momento que o protecionismo é replicado na outra direção, quando Luana e Kauê torcem os olhares ao verem os elementos de suas culturas sendo usados. Depois de tudo que sofreram, não é agora que deveriam perder o que conquistaram, sensação frustrante que vem do medo da cooptação.

Protecionismo Cultural
Quando uma receita não pode gerar outra receita -> protecionismo

Mas por que impedir Marina de fazer um afro a partir de seu cabelo natural, ou Jorge de tocar e apreciar Pixinguinha, Miles Davis e Mc Marcinho? São eles os vilões, os representantes da apropriação cultural?

Apropriação cultural

Se não conferimos a todo esse conjunto de costumes, gostos e crenças uma classificação de objeto tomável por propriedade, não há razão para negar à Marina e Jorge suas afinidades. É bom que a cultura, mesmo a de resistência, os alcance e ganhe grau de liberta.

A apropriação cultural não é a ação ou afinidade de um indivíduo. Assim como tratamos sobre o racismo aqui, ela é sistema. Um fenômeno sistêmico, que se alastra de maneira majoritariamente inconsciente nas atitudes das pessoas (físicas e jurídicas).

Um forte exemplo é um desfile de moda. Alguns casos recentes mostram a ascensão dos turbantes. Publicações mostram cabelos de origem afro, como o temporário rastafari de Cleo Pires, gerando filas de espera por cabelos iguais.

Mas onde estão pessoas associadas às origens desses elementos culturais?

Cleo Pires com dreadlocks
Ela tem todo o direito de usar o cabelo. Escroto é só ela ser “digna” aos olhos da indústria de virar capa de revista com esse cabelo.

Não é problema uma mulher branca desfilar com uma cabeleira afro majestosa ou um turbante. Contudo, quando os desfiles só têm mulheres brancas com turbantes de origens africanas (ou de origens árabens, hindus), temos uma mensagem sistêmica. Quando só mulheres brancas e biotipo europeu aparecem em capas de notícias e revistas por seus novos dreadlocks, temos uma mensagem sistêmica.

Não é problema uma banda de homens brancos querer participar de um festival de jazz, cantar Nina Simone ou Miles Davis. Todavia, quando um festival de jazz chama apenas homens brancos para se apresentar, temos uma mensagem sistêmica.

Quando as pessoas conectadas a essas culturas são sistematicamente excluídas – exclusão pela indústria, pelos agentes determinantes dos padrões almejáveis -, enquanto os elementos destas são utilizados, podemos usar o negrito para nomear – curiosamente. Isso é apropriação cultural.

Ninguém quer perder o grau alcançado, axioma que vale para o privilegiado, da pessoa ao sistema. Então, quando a cultura dominante percebe a expansão de culturas de resistência, agirá para não perder seus privilégios.

Seja lá quem for a entidade roteirista desse universo, a humanidade caminha por linhas tortas. Nessas linhas, não aceitar o funk ou oprimir o cabelo afro é uma tarefa cada vez mais árdua. Como a forma dominadora pode controlar isso?

Aceitando, ela, os elementos “estrangeiros”, e determinando, ela, as classificações que esses elementos terão. Ao invés de culturas coexistirem, uma procura aglutinar a outra para controlar seu percurso – tal qual uma mega empresa comprando startups de grande potencial. Então o cabelo afro está “de boa”, desde que usado por pessoas brancas. Cantar funk ou rap não é problema, desde que não se siga um caminho até letras como as de Criolo. Beyoncé pode ser Beyoncé, desde que não produza álbuns como Lemonade.

É esse controle que indústrias de roupa ou moda exemplificam. A taxação do bonito e do feio para os elementos culturais que conquistam espaços é força motriz da apropriação cultural.

Como a combatemos?

Da parte que busca vozes e espaços, de Luanas e Kauês, é importante continuar agindo como Luana. Quanto mais pessoas se conectam com suas identidades, melhor, e se nossa cultura facilita esse contato, o caminho é oferecê-la, não negá-la.

Da parte de Marinas e Jorges, é primordial reconhecer as origens e os “espaços-pátrios” das culturas que os abraçam, transformando-se em agentes de quebra das taxações, classificações que as desfavorecem.

Não basta usar o cabelo afro, é preciso desconstruir a imagem de que pessoas negras de cabelos afro são inerentemente feias ou desleixadas. Desconstruir que pobre cantando funk é pessoa “sem educação”. Desconstruir que homem homossexual é feminino e gosta de rosa por sua sexualidade, que mulher homossexual é “machona” ou objeto de fetiche por sua sexualidade. Aproveitar seus grupos de Facebook e Whatsapp, as rodas de cerveja no bar ou até os encontros de estudo dos grupos de igreja para se posicionar.

Para artistas ou pessoas públicas, com alcance, é dar os créditos. Oferecer os espaços. Mesmo nas nossas “linhas do tempo”, quando a propriedade do outro é maior, basta oferecer o espaço, vulgo “compartilhar”.

Daqui, eu quero é ver mais pessoas de cabeleiras e turbantes. De quaisquer cores.

P.S. a imagem de capa é o Obelisco de Luxor, em Paris. O monumento existe há 3300 anos, e foi movido do Egito no Século XIX. O movimento de apropriação cultural pode ter se tornado mais sutil, mas que não fiquem dúvidas de sua existência.


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