Álbuns que você deveria conhecer – “The Perfect Element I”, Pain of Salvation

Tempo médio de leitura: 17 minutos

Esse álbum, como todos os da banda, apresenta um conceito. Antes, eu mostrei o “BE”, que é mais focado na humanidade e em um conceito abstrato de DEUS (não necessariamente Aquele que conhecemos). Este, é também focado na humanidade, mas muito mais específico.

O álbum apresenta dois personagens, “Him” e “Her” (ou “He” e “She”), mostrando seu desenvolvimento desde a infância até a adolescência. É uma história sobre duas pessoas lutando contra as feridas infligidas pelo passado, sobre o amor como um caminho para reconciliação e sobre a sociedade que introduz inúmeros defeitos em algumas pessoas e depois se esforça para excluí-las quando elas se tornam perigosas.

Também como todos os da banda, o álbum é extremamente complexo, tanto musicalmente quanto em relação às letras, abrangendo desde sexualidade, abuso sexual infantil, uso de drogas, amor, dor, raiva, perda, vergonha e decepção.

A música aqui varia desde a peculiaridade alternativa de bandas como Faith No More, à melodia de Queensryche, à sensibilidade musical de bandas como Pink Floyd, King Crimson e Gentle Giant, perfumado com toda classe jazzistíca que a proposta da banda permite (veja as harmonias das guitarras em “In the Flesh” ou solo em “Song for the Innocent”).

Chapter I: “As these two desolate worlds collide”

1) Used

A história se inicia com a apresentação do personagem masculino He, que sofreu abusos sexuais quando criança e se sente impuro, ao mesmo tempo em que usa as drogas para tentar fugir dessa realidade.

So let me in, to be your lung
Just breathe me deep
and take another sip
So still
A taste so sweet but so bitter the kill
(me deixe entrar, para ser seu pulmão; apenas me respire fundo e dê mais um trago; tão imóvel; um gosto tão doce, mas tão amargo é o matar)

Pelas drogas, ele começa a se acostumar à dor, a suportá-la, e repete várias vezes: “Getting used to pain”.

Ele prossegue, mostrando que nunca conseguiu falar a respeito:

I am crying unwept tears
through this violence
I’ll die trying to break
this thick crust of silence
(eu choro lágrimas silenciosas durante essa violência; eu vou morrer tentando quebrar essa grossa crosta de silêncio)

Ao tentar lidar com isso, muitas vezes usa a violência:

They will bleed till I’m empty
If I deserve to die I’ll make it show
(eles vão sangrar até eu ficar vazio; se eu merecer morrer vou fazê-lo)

A música vai chegando ao clímax, com Daniel Gildenlow alcançando notas cada vez mais altas (leia-se agudos), e quando você acha que ele chegou ao limite, ele alcança uma nota ainda mais alta, mostrando que a dor irá persegui-lo para sempre, manchando-o, deixando-o sujo, transformando-o.

O final mostra muito claramente como ele lida com tudo isso:

Blood stains
Cut veins
Filthy
Murder
Leave me
(manchas de sangue; veias cortadas; imundo; assassinato; deixe-me)

2) In The Flesh

Agora, somos apresentados à personagem feminina She, que vaga sozinha pela cidade:

“She walks these empty streets alone
Looking for something they call ‘home’
Hoping to find some peace of mind
Sometimes we need to walk alone”
(ela vaga por essas ruas vazias sozinha; procurando por algo que eles chamam de lar; esperando encontrar paz de espírito; às vezes precisamos andar sozinhos)

Vemos que ela fugiu de casa, embora sua mãe implore para ela ficar:

“She is set on running away
Though her mom was yelling she must stay”
(ela é obrigada a fugir; embora sua mãe grite que ela deva ficar)

E logo descobrimos que ela está grávida e se culpa por isso:

“She has a wound close to her womb
Blames herself for letting it in”
(ela tem um machucado perto de seu ventre; se culpa por ter deixado acontecer)

A música vai chegando ao clímax quando She começa a falar consigo mesma:

Now she bites the words
“Never”
She kicks the ground
“Never”
Swallows her tears
“Never will I go back”
She hits the walls
“Leave me!”
Scratches herself
“Leave me!”
Begs to all Gods
“Rip me from this sick flesh!”
(agora ela morde as palavras “nunca”; ela chuta o chão “nunca”; engole o choro “nunca voltarei”; ela bate na parede “me deixe”; arranha a si mesma “me deixe”; implora para todos os deuses “me livrem desse corpo doente”)

A música chega ao seu clímax quando duas vozes (ela e possivelmente o pai) começam a cantar como num diálogo (essa parte é do caralho, por sinal), mostrando que ele quer o aborto:

“I will always be there”
“No!”
She holds her ears
“You know that I love you”
Pretends that she doesn’t hear
“We’re in this together”
“We share the same skin”
Panic in his voice now
“Free us from sin”
(sempre estarei lá; “não!”; ela tapa seus ouvidos; “você sabe que eu te amo”; ela finge que não ouve; “estamos nisso juntos”; “nós compartilhamos a mesma pele”; pânico na voz DELE agora; “nos livre desse pecado”)

She continua falando que não irá voltar, mas, no fim, vê que não tem alternativa:

“She swears to the pavement’s heart of stone
That these city lights will be her home
But still as they burn she will return
Back to the adults. . . of her home”.
(ela jura ao coração de pedra; que as luzes da cidade serão seu lar; mas enquanto elas queimam ela irá retornar; aos adultos de seu lar)

3) Ashes

Depois de apresentados os dois personagens, agora é o momento em que eles se encontram (quem se interessa sabe que esse é o Incidente Incitante).

Ambos tem um passado traumático, e estão em busca de algo que lhes falta; estão buscando diferentes formas de tentar recuperar o que perderam durante os anos. Eles se entendem:

“You claim I don’t know you,
but I know you well
I read in those ash eyes
we’ve been through hell
I’ve walked with the weakest
just to feel strong
You’ve given your body just to belong”
(você afirma que eu não conheço você; mas eu te conheço bem; eu vejo em seus olhos que passamos por um inferno; eu andei com os fracos só para me sentir forte; você entregou seu corpo apenas para pertencer)

E He fala porque se sentem atraídos:

“I taste your sorrow and you taste my pain
Drawn to each other for every stain”
(eu saboreio sua tristeza e você, a minha dor; atraídos um pelo outro por todas as máculas)

4) Morning on Earth

Aqui, He ainda está tentando entender o que aconteceu, já que ele está acostumado a ser abusado, a ser violento. Mas agora:

“Now there is something inside of me
that aches as I hear you
Breathing here when you sleep
between these morning sheets”
(agora há algo dentro de mim; que dói quando ouço você; respirando enquanto dorme, em meio aos lençóis)

He está diferente. Ele sabe que está diferente e não entende, embora goste:

“Morning arrives on an Earth
I’ve never seen before
Revealing a life that
I never really understood”
(A manhã chega a uma Terra; que nunca vi antes; revelando uma vida; que eu nunca realmente compreendi)

Um passado cheio de abusos e agora ele encontra o amor (ou algo semelhante a isso, que ele não entende). Ele via essa vida antes, mas não era a vida DELE, então era um conceito abstrato demais para compreender. E agora, está acontecendo com ele.

O mais importante é que He vê ali que ainda é uma criança, presa em um corpo de homem:

“Hear this voice, see this man
standing before you
I’m just a child trapped
inside the body of a man”
(ouça essa voz, veja esse homem; parado em frente a você; sou apenas uma criança; presa no corpo de um homem)

O fato de ser criança está mais ligado à inocência das coisas, ao desconhecido. Como uma criança que vê algo novo pela primeira vez e está encantada.

No fim, já sabendo que tudo que eles podem ter é compartilhar o passado, ele volta a repetir:

Hear this voice, see this man
standing before you
I’m just a child trapped
inside this fallen man
See this child
(ouça essa voz, veja esse homem; parado em frente a você; sou apenas uma criança presa no corpo desse homem acabado; veja essa criança)

Ou seja, o que ele quer é que She veja a criança que há nele; o potencial de ser o que seria caso não fosse seu passado. Tudo que He pede é que ela tenha fé.

Chapter II: “It all catches up on you when you slow down”

5) Idioglossia

Nota: O termo Idioglossia se refere a uma linguagem privada entre duas ou mais pessoas, geralmente entre crianças. He e She têm essa linguagem particular, uma linguagem em comum, que diz respeito ao sofrimento que ambos tiveram no passado. Então, dor, tristeza, sofrimento, amargura, são coisas que ambos conhecem, e os outros não.

A música começa em um caos. Violenta. Raivosa. O compasso inicia em 12/16, evoluindo para 15/16 e depois para 17/16. Perceba que além de transformar o início num caos, mostra também uma evolução (possivelmente de idade, pois passa de 12 a 15 a 17).

Em uma relação com outra pessoa abusada, não há como não se lembrar do que aconteceu consigo. Então a música começa com “It all comes back to me” (eu me lembro de tudo) e ele se violentando:

Face to the floor
Heart in my mouth
My forehead hits the pavement
Again – numb – again”
(rosto contra o chão; coração na boca; minha testa bate na calçada; de novo – entorpecido – de novo)

Sua raiva transformou-se em uma violência contra si mesmo. Mas por quê?

“Memory leave me be
Close that eye
leave love blind”
(memória, me deixe; feche esse olho; deixe o amor cego)

He não quer essas memórias, quer o amor cego; ou seja, que não enxergue seu passado abusivo em She.

Então, ele começa um conflito interno. Ele sai de sua superfície e vê que há alguém melhor que ele, e se pergunta quando ele perdeu a si mesmo e o que foi tirado dele:

“I scratch the surface and see
Someone better than me
Where did I suffer that loss?
What was taken from me?”
(eu arranho a superfície e vejo; alguém melhor do que eu; onde eu sofri essa perda? o que foi tirado de mim?)

A melodia de “Ashes” retorna, enquanto ele canta:

“As I search through the ashes
For someone to blame
I’m afraid to see my face
As I walk through the ashes
I whisper your name
Meeting you have forced me
To meet myself”
(enquanto eu procuro nas cinzas; alguém para culpar; tenho medo de ver meu rosto; enquanto eu ando nas cinzas; eu sussurro seu nome; conhecer você me forçou; a conhecer a mim mesmo)

Ainda contra o chão, ele promete a si mesmo que nunca mais acontecerá:

“Vow to the floor
Oath to the taste of dust
In my mouth – never!
I bite the words – never again!”
(promessa ao chão; juramento ao gosto da poeira em minha boca – nunca! eu mordo as palavras – nunca de novo!)

O mais foda é que o vocalista consegue expressar essa raiva, e você consegue senti-la.

E He continua com seu ódio, percebendo onde ele se perdeu:

“And no water could ever wash
The anger from that first stain”
(e água nenhuma poderá lavar; a raiva daquela primeira mácula)

Agora a música chega ao seu ápice, com o vocalista interpretando brilhantemente a angústia de He, enquanto um backing vocal fica cantando “Memories…”:

“I have swallowed all these tears
Thought they’d be gone
After all these years
Now this heart is waking up
With a new hunger
For my own blood”
(eu engoli todas as aquelas lágrimas; pensei que elas teriam acabado depois de todos esses anos; agora esse coração está acordando; com uma nova fome; pelo meu próprio sangue)

Suas mágoas do passado estão o transformando numa pessoa violenta. E ele começa a fazer com os outros o que fez consigo, logo no início:

“Face to the ground
Heart in their mouth
Foreheads hit the pavement
Again – Numb – Again
Sharing my hostility
A streetful of insanity
This is payback for every tear in me
Hole in me
Black in me
Black”
(rosto contra o chão; coração na boca deles; testas atingem a calçada; de novo – entorpecido – de novo; compartilhando minha hostilidade; uma rua cheia de insanidade; isso é a vingança por toda lágrima em mim; buraco em mim; mancha em mim; mancha)

Nota: “Black” aqui talvez signifique não “preto”, mas “mancha”.

No fim, ele fala “it all comes back to you” e termina com uma reflexão:

Is this all I am?
(isso é tudo que sou?)

Nota: o final é uma cacofonia de vozes, vindas de todos os lados (colocando um fone fica muito óbvio). É como se estivéssemos dentro da mente dele.

6) Her Voices

Ainda em suas reminiscências, He se lembra de uma garota que conheceu quando era pequeno. Ela era uma sonhadora, que sofreu bullying pelas outras crianças e foi obrigada a criar amigos imaginários.

“So she filled the void
with unearthly friends
Voices of hers – greater… than us”
(então ela preencheu o vazio; com amigos imaginários; vozes delas – maiores… que nós)

Continua contando que ela contou a eles sobre suas vozes, o que não foi bom, porque gerou ainda mais bullying:

“We picked and pierced
We ripped and we tore
We hit and we scratched
to make in her a hole
Glares and eyes
Whispers and notes”
(pegamos e furamos; cortamos e rasgamos; batemos e arranhamos para fazer nela um buraco; olhares e olhos; sussurros e bilhetes)

A música entra em um instrumental incrível, chegando ao clímax, com direito a coro, violinos e facilmente um dos melhores momentos do álbum:

“We fed her shouts
For the collection of her voices”
(nós alimentamos os gritos; para a coleção das vozes dela)

Em seguida, mostra como a vida da garota foi destruída:

“Their ugly truth
Outnumbered by far her beautiful dream”
(a feia verdade deles; superou em muito o lindo sonho dela)

E possivelmente a mais importante constatação de He na música:

“Were her eyes in yours already when we met?
Am I still paying debts to recover life?”(estavam os olhos dela nos seus quando nos conhecemos? eu estou pagando ainda para recuperar a vida?)

Ou seja, ele se lembra que destruiu a vida de uma garotinha quando era pequeno e se pergunta se tudo que lhe aconteceu é carma, se ele está pagando por isso.

7) Dedication

Essa música amplifica a sensação de perda de He, enquanto ele lamenta a morte de seu avô.

Porém, ela parece algo mais pessoal, ligeiramente desvinculado do conceito geral do álbum, então não me aprofundarei.

8) King of Loss

Aqui há um tom político (e é certamente a mais difícil de ser apreciada) mostrando o papel de He na sociedade.

“Mother, at my first breath
Every paragraph was set
As I inhaled the scent of debt
Mother, that first stolen air
On papers saying I’m not mine”(mãe, na minha primeira respiração; cada parágrafo estava escrito; assim que inalei esse odor de débito; mãe, na primeira roubada de ar; em papéis dizendo que eu não sou meu)

Aqui He fala que toda criança já nasce em débito. Ou seja, tem de pagar o hospital, comida, fralda. É um custo sem nenhum retorno financeiro imediato. Seu próprio nascimento foi uma perda, onde ele teve de passar a vida toda tentando recuperá-la, já que nasceu “não sendo dele”.

Esse conceito me lembra o livro Senhora, de José de Alencar:

“Queria que me dissessem os senhores moralistas o que é esta vida senão uma quitanda? Desde que nasce um pobre diabo até que o leva a breca não faz outra coisa senão comprar e vender? Para nascer é preciso dinheiro, e para morrer ainda mais dinheiro. Os ricos alugam os seus capitais; os pobres alugam-se a si, enquanto não se vendem de uma vez, salvo o direito do estelionato.”

“We crown you, the King of Loss
Better get on your feet
Best be one of us
Better get yourself on the list for success
Dress up as a state investment
Charm the press
A breed from the seed of only
One short breath”(nós o coroamos o Rei da Perda; Melhor ficar de pé; Melhor ser um de nós; Melhor entrar na lista para o sucesso; vista-se como o investimento do estado; cative a imprensa; Um fruto da semente de apenas um breve suspiro)

Ele se enxerga como uma ferramenta, uma peça de engrenagem em uma máquina. Foi-lhe dito que há uma propósito maior, mas ele não parece acreditar nisso.

Então, enquanto uma voz canta “Mother, listen to me mother”, ele indaga:

Is this all I am? Is this all I’ll be?
This is not enough!(isso é tudo que eu sou? é tudo o que serei?; isso não é o bastante)

Desde o início ele foi moldado pela sociedade para ser exatamente o que ele deveria ser (mesmo não escolhendo isso). Quando ele decide tomar as rédeas de sua vida, percebe que, mais do que tudo, foi moldado pelo seu passado e que não consegue fugir dele. Então se pergunta se ele sempre será assim, se é tudo o que será.

“This is not what I wanted
But for every drop of blood I lost myself
I, too, lay bleeding on the sidewalk”(isso não era o que eu queria; mas a cada gota de sangue eu me perdi; eu também deito aqui sagrando na calçada)

Ou seja, toda dor que ele inflige, por conta de seu ódio pelo passado, volta para ele. Se os outros sangram por sua causa, ele sangra também.

Antes do último refrão, He fala “Long live to dying king” (vida longa ao rei moribundo). O que serve de transição para o próximo e último capítulo.

Chapter III: “Far beyond the point of no return”

09) Reconciliation

Reconciliation (Reconciliação) traz a melodia de “Morning on Earth” injetada de fúria e velocidade e vocais angustiados.

Essa reconciliação é com seu passado.

“Now – to be truly free
I’ll let it come to me
So – break me if you must
When you break this crust
Freedom is to see”(agora – para ser verdadeiramente livre; eu tenho de deixar isso chegar a mim; então – quebre-me se precisar; quando quebrar essa crosta; liberdade é enxergar)

Então repete-se o refrão de Morning on Earth, e em seguida:

“I hate these hands soaked in blood
I hate what these eyes have seen
Up to my knees in filth and mud
How it hurts to become clean”(odeio essas mãos encharcadas em sangue; odeio o que esses olhos já viram; até os joelhos em sujeira e lama; como machuca ficar limpo)

Ele está tentando, desesperadamente tentando. Mas será que vai conseguir?

10) Song for the Innocent

Essa música fala dos sonhos de um mundo feliz, impossibilitado pela crueldade deste mesmo mundo.

Essa música antecede o clímax do álbum, quase como um sonho; talvez da mãe de He lhe dizendo sobre seus sonhos, antes de tudo lhe acontecer.

11) Falling

Instrumental

12) The Perfect Element

Essa é uma das maiores obras da música progressiva moderna.

O tom é logo estabelecido: uma sombria tranquilidade, calma e retrospectiva, ainda que triste e desolada.

He está sozinho, destruído.

“These walls built to stand come-what-may
Lie shattered in the ashes
His skin against this dirty floor
Eyes fixed on the ceiling”
(esses muros construídos para suportar o que vier; encontram-se em pedaços nas cinzas; sua pele contra o chão sujo; olhos fixos no teto)

Os muros são a sua mente, despedaçada.

“In his head a thunderous
Cry of desperation
Tearing voices from his past
Scream for his attention”
(em sua cabeça um ensurdecedor grito de desespero; vozes lamentosas de seu passado; gritam por sua atenção)

Como no fim de “Idioglossia”, sua mente está cheia de vozes do passado, gritando por atenção, o que impossibilita que ele se limpe.

“Behind those eyes a world explodes
No one there to save him
All pain that he’s been passing on
Answers to his craving
Once more”
(por trás desses olhos, um mundo explode; ninguém para salvá-lo; toda dor que ele vem passando adiante; atende ao seu desejo; uma vez mais)

Ele está sozinho, e toda a dor que ele infligiu nos outros, para tentar sufocar a sua própria dor, retorna para ele.

Uma voz sussurra, no vazio: I will never leave this shame (nunca vou abandonar essa vergonha).

“Falling far beyond
the point of no return
Nothing to become
and nothing left to burn”
(caindo bem distante de um ponto sem volta; nada para se tornar, e nada mais para queimar)

O refrão é muito claro: não há mais volta, não há o que queimar para tentar se tornar um novo alguém. Ele está ferrado. Sempre será assim.

“Stealing meaning from this child
We took away his reason
His soul put under lock and key
His heart blackened from treason
But if you take from those you fear
Everything they value
You have bred the perfect beast
Drained enough to kill you”
(roubando o sentido dessa criança; tiramos seu propósito; sua alma guardada e trancada; seu coração obscurecido pela traição; mas se você tirar daqueles a quem você teme; tudo que eles dão valor; você terá criado o monstro perfeito; vazia o bastante para matá-lo)

Agora, quem fala não é mais He, mas talvez a sociedade, mostrando que roubou o propósito dele e criou um monstro.

“Once he had
forests and mountains
That were only his
Once he would run
through the summer days
Catching memories
for ages to come
Now he is dressing this naked floor
With his flesh and blood”
(um dia ele teve florestas e montanhas que eram só dele; um dia ele iria correr através dos dias de verão; coletando memórias por anos por chegar; agora ele vestindo esse chão nu; com sua pele e sangue)

O clímax da música chega, certamente a parte mais bonita do álbum, mostrando que um dia ele tinha o mundo todo à sua disposição, uma criança feliz reunindo memórias. Mas agora ele é uma pessoa acabada, literal e figurativamente.

Depois de mais uma cacofonia de vozes, o refrão se repete, e se estende um pouco mais:

Nothing left to say,
The pain will go away
Now you must surely see,
That you are killing me
You are killing me
Now you are killing me
(You must never leave this shame!)”
(nada mais para dizer; a dor irá embora; agora você certamente deve ver; que você está me matando; você está me matando; agora você está me matando [você nunca deve abandonar essa vergonha!])

Essa parte chega a dar calafrio, pois é cantada não de uma forma triste, mas de uma forma resoluta, de alguém que aceitou seu destino. Talvez o melhor destino que ele poderia esperar, visto que nunca se livraria do seu fardo.


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