Brasil x Dinamarca

Os bastidores de Brasil x Dinamarca

Tempo médio de leitura: 5 minutos

Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Fonte Nova, nas Olimpíadas, ficariam enojadas

A discussão no vestiário é ávida. Antes do jogo contra a Dinamarca, os jogadores sentem a pressão pelo resultado. A torcida da Fonte Nova faz barulho a favor da seleção, mas um primeiro tempo ruim poderia reverter o clima do estádio. Em meio à tensão, Neymar, o capitão do time, é chamado. O Presidente da CBF, Marco Polo Del Nero quer conversar.

  • Neymar, como está a moral do time?

  • O pessoal tá tenso, mas vamos pressionar no início, fazer logo um gol para jogar tranquilo.

  • E se o gol não sair cedo?

  • A gente luta até o final. Agora não é hora para duvidar, né.

  • Certo. Em caso de um cenário ruim, eu tenho uma solução. Você tem que combinar isso com os outros em campo.

  • Tudo bem Presidente, diga.

  • A partida terá ter um vencedor. Obrigatoriamente.

  • Claro, vamos ganhar pô.

  • Não é isso. Já ouviu falar na Copa Caribe de 1994?

  • Não conheço não.

Del Nero começou sua história.

“Foi um campeonato de seleções da América Central, com formato diferente das Olimpíadas, mas começando normalmente com fase de grupos. Só que havia uma regra diferente, determinada pelos organizadores. Todas as partidas precisavam ter um vencedor. Se terminasse empatada, a partida ia para a prorrogação.”

  • Que ideia doida, Presidente! Obrigar a ter um vencedor, parece basquete ou vôlei.

  • Eu não comecei a parte doida.

  • Como assim?

“Acontece que o gol de ouro ainda existia. Nesse torneio, os organizadores mudaram o valor do gol de ouro. Ele passou a valer dois gols.”

“Houve uma partida entre Barbados e Granada, a última de um dos grupos. Granada tinha um saldo de gols melhor, então Barbados entrou em campo precisando vencer por dois gols ou mais. O que acontecerá com a gente se Iraque ou África do Sul ganharem hoje por 1 gol de diferença.”

“Barbados vencia por 2×0 até os 38 minutos do 2° tempo, quando o time de Granada reduziu a diferença para 2×1. O resultado passou a classificar Granada. Então, o time de Barbados usou o regulamento e fez um gol contra, empatando a partida.”

“Agora, o jogo ia para a prorrogação, e Barbados só precisaria de um gol para ganhar por dois de diferença e se classificar, graças à regra do gol de ouro. E com meia hora para tentar, no lugar de contar praticamente só com os acréscimos do 2° tempo para fazer 3×1.”

  • Presidente, mas essa história é muito louca. E você está dizendo para fazermos um gol contra? A torcida vai acabar com a gente!

  • A torcida vai acabar com a gente de qualquer jeito se não conseguirmos a classificação. Eu não posso arriscar. E saiba que Barbados conseguiu aquela classificação. Após o 2×2 no tempo normal, o jogo foi para a prorrogação, e Barbados fez o gol de ouro, vencendo por 4×2.

  • Por que Granada não fez o gol contra depois de Barbados? Podia usar a mesma arma para se classificar

  • Tentou. Mas Barbados defendeu os dois gols até o fim do 2° tempo.

  • Por acaso Barbados terminou a Copa Caribe como campeão?

  • Não, mas isso não vem ao caso. Nos preocupamos com os próximos jogos depois. A Olimpíada não é um torneio Fifa, então já fiz os arranjos para mudarmos o regulamento com o Comitê Olímpico e os presidentes das federações. Só vim avisar você, para que o time saiba o que precisa fazer.

  • Não! Vamos esperar o 2° tempo. Se a gente for pro intervalo com um 2×0, essa mudança não vai ser necessária.

  • Vocês conseguem depois desses dois primeiros jogos?

  • Com certeza.

  • Ok, vou segurar. Menos do que 2×0 no intervalo, e mudarei o regulamento.

Neymar voltou para o vestiário na hora da entrada em campo. Os jogadores o olhavam apreensivos. O que será que foi falado em um momento tão importante?

Logo após o hino, Neymar chamou todos rapidamente no meio do campo.

  • Estão arranjando uma mudança maluca de regulamento pra gente se classificar. Se não fizermos mais que 1×0, vamos ter que deixar o jogo empatar, mesmo que precisemos fazer um gol contra.

  • O quê? Fazer gol contra? Que história é essa? – Perguntou Gabriel Jesus.

  • Estão inventando loucura e a gente que vai ser xingado depois. Vai dar merda – disse Renato Augusto.

  • Eu sei. Depois explico melhor, a parada é que precisamos ganhar logo. Fazemos 2×0 no primeiro tempo, e depois fechamos com goleada. É isso ou a gente tá morto na saída do campo.
    E assim foi. O Brasil fez 2×0 até o intervalo, e fechou a partida em 4×0. Nenhum regulamento mudou, e a equipe se classificou em 1° do grupo.


É claro que a história acima é puramente ficcional. A presença de Del Nero entrega mais do que qualquer outro elemento. Ele não iria a um vestiário de estádio em Salvador, com medo de ser preso.

O incrível é que os detalhes sobre a Copa Caribe não são parte da ficção, mas a real motivação desse conto. A edição do torneio em 1994 realmente teve esse regulamento estranho, e melhor ainda, a incrível história da partida entre Barbados 4 x 2 Granada.

O site Snopes.com, notório detetive virtual da veracidade das histórias que circulam na internet, confirma o caso, e a partida também aparece no livro Sports Law (Leis do Esporte, em tradução livre)

O melhor de tudo? Tem vídeo. Assista abaixo essa loucura:

P.s. Esse texto foi feito a partir do tema Copa Shell Caribe de 1994, sugerido pelo amigo Gustavo Barreto em uma brincadeira em que me propus a fazer um texto para um tema dado em comentários de um post no Facebook. Alguns temas saem por lá mesmo e você pode dar uma olhada aqui.


Gostou do texto?

Você pode receber as atualizações do Além do Roteiro inserindo o seu email abaixo e clicando em “Seguir”.

Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.