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Westworld 1×01 Review – The Original (A Original)

Tempo médio de leitura: 9 minutos

Ato 01

Sempre que nos deparamos com uma série nova, buscamos um motivo para vê-la; ou, se estivermos muito ocupados, para não vê-la. Então, sinta-se à vontade para escolher dentre uma das opções abaixo:

  1. Anthony Hopkins no elenco;
  2. É da HBO;
  3. História, mesmo que não 100% original, abordada de uma forma única e inovadora;
  4. Outros incontáveis atores fantásticos no elenco: Ed Harris, James Marsden (Ciclope em X-Men), Thandie Newton (vários), Jeffrey Wright (beetee em Jogos Vorazes); Rodrigo Santoro (mais por ser brasileiro); Jimmi Simpson (House of Cards); e a lista segue.
  5. Do mesmo roteirista de Interstellar e a Trilogia do Batman, Jonathan Nolan;
  6. Tem como produtor-executivo J.J Abrams (Person of Interest, Lost, nova trilogia do Star Wars)
  7. Alguns (ou todos) os motivos que abordarei abaixo.

Escolha o 7, Escolha o 7, Escolha o 7

Agora que você (também) escolheu o 7, vamos lá…

A premissa da série é ousada, embora não totalmente original. Digo isso porque a série foi baseada em um filme de 1973, de mesmo nome, escrito por Michael Crichton; que, por sua vez, é o mesmo criador de Jurassic Park.

Acho que esqueci desse motivo, hein?

Só que a história original de Crichton não se aprofundou muito mais do que o feito em Jurassic Park: tecnologia se virando contra as pessoas que a criaram.

Jonathan Nolan e sua esposa, Lisa Joy, pegaram sua ideia e a expandiram de forma extraordinária.

No filme, o ponto de vista é dos humanos desafortunados que ficam presos em um parque onde os androides começam a funcionar de forma estranha. Em Westworld, o ponto de vista é dos próprios androides. A personagem principal, Dolores (Evan Rachel Wood), é uma androide.

A premissa ousada que disse ali em cima é a seguinte: o que aconteceria se esses androides começassem a ganhar ciência de sua situação? O que aconteceria se eles descobrissem que foram criados apenas para satisfazer os humanos; que passaram toda sua existência sofrendo para que os humanos se divertissem?

Ato 02

Westworld é um vasto e remoto parque onde convidados pagam um preço bem alto para ter experiências no Velho Oeste com anfitriões androides.

É bem simples: um humano paga uma grana preta e é levado a um mundo fantástico, onde tudo pode acontecer; onde suas decisões jamais têm consequências. Lá, há diversos androides, chamados de anfitriões, que seguem ciclos narrativos próprios e que se adequam às influências dos convidados (os humanos). Os anfitriões estão lá, como é dito logo no início do episódio, para satisfazer toda e qualquer vontade dos convidados, mesmo que isso os prejudique ou os mate.

Mas isso não tem importância. Porque, a cada novo dia, a memória dos androides é apagada (ou, se eles foram mortos, são renascidos), e um novo ciclo começa. A série faz questão de mostrar isso, iniciando novos ciclos, com pequenas diferenças ou não, na primeira meia hora do episódio.

Ou é assim que deveria funcionar. Mas as coisas logo começam a dar errado. Descobrimos que as memórias não são apagadas, mas novas são armazenadas no lugar das antigas. Mas estas ainda estão lá…

A série se divide em dois fluxos narrativos: o primeiro, lógico, é dentro de Westworld (com os anfitriões e convidados); o segundo é fora de Westworld, nos seus bastidores, onde estão os responsáveis por fazer esse mundo fantástico funcionar.

O episódio inicia com a foto de capa deste texto. Alguém que não vemos (mas podemos saber pela voz, mais tarde, que se trata de Bernard Lowe, chefe de programação do Westworld) pergunta se Dolores alguma vez questionou a realidade de seu mundo. Ela diz que não. Nós ainda não sabemos, mas essa será a questão primordial do episódio, e da história.

Enquanto ela responde a algumas questões, observamos ela em sua rotina. Acorda, desce a escada, passa pela varanda e troca algumas palavras com o pai. Vai à cidade e encontra outro androide, Teddy. Eles já se conhecem, e já notamos que fazem parte do mesmo ciclo narrativo. Eles passam o dia junto. À noite, ela nota que há algo errado e vai ver o seu pai.

É aí que conhecemos o personagem mais enigmático e perigoso da série – tão enigmático que sequer tem nome. Homem de Preto (Man in Black), representado por Ed Harris.

Nessa cena, achamos que o personagem de Ed Harris é humano, e que nada que os androides façam podem atingi-lo. Mas isso talvez não seja verdade. Os androides são programados para não fazer mal aos humanos, até porque ali não é uma realidade virtual; é uma realidade mesmo, só que com androides.

Então, não faria sentido que fosse impossível machucar os humanos. Faria mais sentido que fossem programados para não lhes fazer mal.

Daí o perigo do nascimento de uma consciência artificial. Essa programação não existiria mais.

Tudo bem. Vamos voltar ao personagem de Ed Harris. Não faria sentido se ele fosse humano, porque se um androide o atacasse (como Teddy faz), o controle de Westworld ia acusar uma falha. Mas isso não acontece. E também não faz sentido que ele seja um androide, pois vemos que ele não segue um ciclo narrativo fechado. Cada hora ele faz algo diferente, então ele tem liberdade que os outros não tem. E se ele estivesse com uma falha, o controle de Westworld também acusaria um problema.

Então, fica a pergunta: o que e quem ele é?

A cena é importante também pois mostra o sofrimento de Dolores, que é levada por Ed Harris, muito provavelmente para ser estuprada. Ouvimos seu grito e a cena corta para ela acordando de novo. Ou seja, ela não se lembra de nada; e, para ela, tudo que ocorreu foi irrelevante.

Ou será que não?

Já no fluxo narrativo dos bastidores de Westworld…

Dr. Ford (Anthony Hopkins) é o inventor do parque, e está sempre em busca de inovações que tornem os androides menos máquinas e mais humanos. Ele age como um deus mesmo, o que é o mais claro indício que algo vai dar errado.

Ele incluiu na última atualização algo que eles chamam de “devaneio”, que são gestos bem peculiares, como idiossincrasias. Isso torna os androides mais humanos e distintos entre si. Bernard Lowe (Jeffrey Wright), o chefe de programação, compara isso a um subconsciente, um detalhe que está lá, mas não sabemos que está lá. Isso é interessante, porque se há um subconsciente, há algo que controla o androide além de sua “consciência”, que foi o que homens como Bernard criaram. Isto é outro forte indício de que os androides logo vão ser mais do que deveriam ser, que é a espinha dorsal do episódio.

Uma falha ocorre dentro de Westworld. O xerife apresenta um comportamento estranho, como se estivesse em curto-circuito. Esse é o Incidente Incitante para o fluxo narrativo dos humanos, não dos androides. Para estes, isso não faz a menor diferença.

Por enquanto, ainda acham que é um problema isolado. Cogitam a possibilidade de ter sido a atualização, mas que é improvável. Só que isso acontece outra vez, deixando em perigo os convidados (mesmo que eles não possam ser machucados, como é estabelecido logo no início do episódio).

Ao perceberem que há outra falha, reforçam a possibilidade da atualização ser a causadora. São 200 androides atualizados. Para evitar qualquer problema, decidem retirar esses 200 androides de circulação.

O problema é que uma retirada desse tamanho vai influenciar o ciclo narrativo do parque inteiro, o que é muito perigoso. Então, bolam a ideia de criar um assalto ao saloon da cidade, que envolve uma chacina, justamente dos androides defeituosos. É duplamente positivo: vai retirar os 200 androides e vai satisfazer os convidados com uma novidade.

Ao mesmo tempo, Dolores está pintando em algum lugar do parque, quando convidados aparecem. Ela é simpática, como manda seu ciclo narrativo, e faz um garotinho alimentar os cavalos. Ele, fascinado e confuso por esse novo mundo, percebe que Dolores não é humana e pergunta: “Você não é real, né? ”.

A resposta dela mostra como isso foi pré-programado. Ela responde que precisa ir, porque está escurecendo, embora o sol esteja no alto. Lógico que o chefe de programação previu algo desse tipo, obrigando o androide a se afastar.

Isso fica mais claro na cena seguinte. O pai de Dolores encontra um pedaço de papel no chão, que acaba sendo uma foto de uma mulher no Central Park. Mais tarde, ele mostra à filha e pergunta se a foto tem algum significado. Ela diz que não.

Isso, meus queridos e minhas queridas, é o Incidente Incitante do fluxo narrativo dos androides.

Um novo ciclo começa. Dolores fala a mesma coisa que disse duas ou três vezes ao pai. Ele sempre respondia. Dessa vez, não respondeu. Dolores pergunta se está tudo bem. Seu pai diz: “eu tenho uma pergunta. Uma pergunta que não deveríamos fazer”.

Se ele questiona algo que não deveria questionar, é porque ele tem uma consciência além da consciência que lhe deram. Ele possui uma questão existencial. Mas é interessante notar o seguinte: como ele sabe que a pergunta que ele está se fazendo é uma pergunta que não deveria fazer?

Seu pai parece entrar em um curto-circuito. Dolores vai à cidade buscar um médico no mesmo instante em que começa o tiroteio planejado nos bastidores de Westworld. Teddy é morto (porque foi estabelecido que ele era um dos defeituosos), o que faz Dolores ficar desesperada. Ela fica ali até o momento em que os humanos dos bastidores chegam para limpar a cena. Sabendo do problema de seu pai, decidem levá-la também.

Dolores é confrontada por um dos funcionários, que lhe pergunta se ela alguma vez questionou a natureza de sua realidade (muito semelhante ao que acontece no início, embora o personagem que questiona seja diferente, e as perguntas, também). Ela diz que não, embora, pelo menos é a minha opinião, ela pareça estar mentindo, ou dizendo exatamente o que esperavam que ela dissesse. Pode ser só uma impressão.

Seu pai, por outro lado, deve ser desligado, mas Ford decide descobrir o porquê de ter acontecido o que aconteceu.

Quando Ford confronta o pai de Dolores (em uma das cenas cuja atuação é tão impressionantemente fantástica, que já é uma das minhas favoritas – e, vejam só, não é a atuação de Anthony Hopkins), descobrimos que ele está tendo acesso às suas configurações anteriores – quase como um subconsciente, não?

Ford tenta diminuir as consequências disso, afirmando que não se trata de nada além dos trabalhos anteriores voltando para assombrá-los. Mas nós, como espectadores, sabemos que não vai ser tão simples.

É uma promessa – se ele pode fazer isso, outros podem, e outros irão.

Só uma observação final. Quando Dolores é questionada sobre sua realidade, ela também fala que não machucaria um ser vivo. Porque ela foi programada para isso: para não machucar outro ser vivo.

A última cena é uma mosca pousando em seu pescoço – como havia pousado antes em outros androides. Eles não reagem. Nessa cena, no entanto, a mosca pousa e ela mata.
O que isso te diz, hein?

Ato 03

Quão longe você iria, se pudesse fazer o que mais deseja, sem nunca sofrer as consequências?

Uma odisseia obscura sobre o nascimento da consciência artificial e a evolução do pecado, explorando um mundo onde todo e qualquer apetite humano, por mais nobre e depravado, pode ser tolerado e, às vezes, até mesmo incentivado.

Westworld é sobre inteligência artificial e o advento de sua consciência; mas, além disso, é especialmente sobre a natureza humana.

Pós-Créditos

O que falar dessa direção de fotografia que mal conheço e já considero pakas?

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Gosta da série? Você pode ler as reviews dos outros episódios de Westworld aqui.


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