Westworld 1x07 Review capa

Westworld 1×07 Review – Trompe L’Oeil

Tempo médio de leitura: 8 minutos

ATO 01

Eu vi esse episódio achando que, embora muito surpreso, tinha entendido tudo.

Errado.

Vi o título e fui buscar seu significado.

Trompe L’Oeil: é uma técnica artística que, com truques de perspectiva, cria uma ilusão ótica que faz com que formas de duas dimensões aparentem possuir três dimensões.

Certo. Vamos focar na expressão “ilusão de ótica”.

Logo no início, Bernard lê outro trecho de “Alice no País das Maravilhas”, do personagem Chapeleiro Maluco:

“Se eu tivesse um mundo meu,
Tudo seria sem sentido.
Nada seria o que é,
Pois tudo seria o que não é.”

Nada seria o que é, pois tudo seria o que não é. Profundo.

Nesse episódio, aprendemos que algo que deveria ser, não é; pois “tudo seria o que não é”.

ATO 02

Começa com Bernard sonhando com seu filho, o que parece que amplia nossa noção de sua humanidade. Mas essa é uma ilusão. Se estivéssemos prestando atenção, já saberíamos, no primeiro minuto de episódio, quem Bernard verdadeiramente é, e que descobrimos só na reviravolta final.

Em seguida, Bernard interroga Hector Escaton (Rodrigo Santoro). Ele teve contato com vários detalhes do mundo exterior e Bernard está preocupado que aconteça o mesmo que aconteceu com Abernathy. Mas, como Ford explica no final, “os anfitriões não podem ver aquilo que os machuca”. Isso é importante pra car@$#$@%.

Na cena, Bernard mostra fotos diversas do nosso mundo, mas isso não significa nada.

Enquanto isso, William e Dolores se aprofundam em Westworld e começam a chegar a lugares muito, muito perigosos.

Hale (representante do Conselho) mostra seu poder ao retirar do parque Hector e usá-lo para seu prazer. Com Theresa, fala que o tempo de Ford chegou ao fim, e que o Conselho só está atrás da propriedade intelectual do parque (a IA e os dados de pesquisas; por isso os transmissores via satélite), não com humanos querendo brincar de caubói. Ford irá sair do parque, custe o que custar, inclusive com um pacto de sangue.

Hale diz que, para isso, precisam mostrar ao conselho quão perigosas são as criações de Ford. Precisam de alguém inesperado. Alguém que nunca deu problema.

Sempre comentei como os cortes para outra cena sempre tem uma conexão. Nesse caso, cortamos para Maeve.

Podemos pensar que ela vai ser o anfitrião inesperado. Continuamos pensando nisso quando os homens com roupas anti-radiação entram. Ainda pensamos isso (com antecipação e ansiedade) quando Maeve pega uma faca para se proteger (mostrando quão avançada está sua consciência).

Mas aí eles pegam Clementine.

O que isso significa? Uma quebra de expectativa? Sim, também. Mas isso significa, como veremos mais tarde, uma conexão direta entre a trama dentro dos bastidores com a trama “fora”. E Clementine servirá como uma motivação para Maeve se rebelar (ainda mais).

A cena com Maeve é mais uma vez brilhante. Ela se cansa da música (que sempre toca) e fecha o piano. Ela fala o mesmo que sempre fala a Clementine “já disse para nunca abrir tanto essa boca a não ser que alguém esteja pagando”. No meio da frase, contudo, ela lembra como suas frases são pré programadas e hesita.

Então, ela pergunta sobre os pesadelos de Clementine. Sua expressão mostra como essa pergunta é inesperada, então ela é obrigada a improvisar.

Maeve, ciente de sua situação, tenta descobrir se Clementine tem ciência da sua, mesmo que um pouquinho. Ela fala sobre seus objetivos de vida, e conseguimos notar em Maeve (graças à maravilhosa atuação de Thandie Newton) que ela está pensando: “pobre coitada, mal sabe que isso tudo é uma mentira”.

Congelam todos os anfitriões. Mas ela não é congelada. Ela conseguiu mesmo fugir do controle dos humanos, inclusive nisso?

William e Dolores conversam no trem. Ele pergunta como ela sabe que o que está procurando é real. Ela não sabe. Ela pergunta a William o que ele está buscando. Ele diz que cresceu no meio dos livros, e estar ali é como estar inserido numa história. Ele só quer saber o que significa.

Não sou adepto da teoria de que William = MIB. Mas este disse, em seu encontro com Ford, que procura um sentido em tudo aquilo. Sentido… Significado… Propósito.

Sim, é bem forçado. Mas talvez faça sentido.

Ford aparece na armação de Hale e Theresa, sobre o perigo dos anfitriões. Falam que os devaneios de Ford causaram erros irreversíveis, e eles mostram isso com a Clementine. Todo mundo sabe que aquilo é uma farsa, especialmente Ford.

Tive uma forte impressão de que Clementine é importante para Ford. Por dois motivos: há um momento em que vemos close-ups dos dois, como se tivessem se encarando; e eles não escolheriam um andróide tão ao acaso assim, se fosse para provocar Ford.

Falam da negligência de Bernard, que não aceitou as críticas de seus funcionários sobre esse novo código, e que este foi aprovado sem a devida inspeção. Mas todos ali sabem que o código é de Ford, então essa é uma tentativa bem frágil de fazer Ford tomar as dores para si, protegendo Bernard. Ou que Bernard ficasse puto e colocasse tudo no c* de Ford.

Nada disso acontece. Porque ninguém sabe que…

Veremos logo, logo.

William e Dolores são emboscados por homens com a mesma arma que vimos, no último episódio, Flood matando vários homens da União.

Essa metralhadora não foi colocada ali ao acaso. Alguns dirão que isso reforça a teoria das duas linhas do tempo. Não prova nem faz o contrário. Serviu apenas para confundir mais todas as cabeças.

Falo isso porque: sim, poderia provar, mas poderia só ser OUTRA metralhadora. Nem deixa de provar, porque pode ser a mesma.

Flood matou vários homens da União, mas quem aparece são confederados. Eles podem ter se beneficiado do ataque de Flood. Ou a metralhadora pode ser posteriormente roubada pelos homens da União.

Enfim, não tem como provar nada ainda.

Maeve e Felix. Ela novamente é morta para voltar aos bastidores. Quer saber onde Clementine está.

Sob a ameaça de Maeve, Félix a leva para onde Sylvester está fazendo em Clementine algo que parece bem doloroso a Maeve.

Bernard aparece e chama Theresa, bem em frente ao outro núcleo narrativo. Nada acontece.

Bernard mostra que sabe que o teste foi uma farsa, e que Ford também. O que Ford fará quanto a isso?

Clementine foi aposentada. Pela expressão de Maeve, e pelo medo dos outros dois, não é algo que ela queira.

Ela percebe que sempre foi uma sobrevivente, mas ser sobrevivente faz parte de seu ciclo. Ela quer quebrar definitivamente esse ciclo. Ela quer fugir.

Vejamos: Dolores está atrás do labirinto, mas Maeve quer fugir. Ambas querem a liberdade. A primeira quer liberdade no sentido macro… a segunda quer uma liberdade mais direta, uma liberdade física.

Só que Maeve foi planejada para nunca sair dali (não sabemos como ainda). Sylvester diz que isso é para proteger a propriedade intelectual da empresa (segunda vez que isso aparece no episódio).

Sylvester diz que será uma missão suicida. Maeve pergunta se acham que ela tem medo da morte. Ela diz que já morreu milhões de vezes, e que ela é ótima nisso. Se não a ajudarem, ela mata os dois.

Bernard está levando Theresa para (supomos) a casa que ele descobriu em que Ford está mantendo sua família androide.

No caminho, Theresa fala sobre propriedade intelectual mais uma vez, e como é a encarregada de protegê-la. Theresa fala que a empresa não tem a intenção de ceder às fantasias das pessoas em serem caubóis. Há algo mais profundo do que isso.

Theresa pergunta como puderam construir aquilo no meio do parque. Bernard diz que os anfitriões foram programados para não verem, mesmo que olhem diretamente.

É aí que… NOSSA SENHORA.

Theresa fala: o que há atrás dessa porta?

Bernard pergunta: que porta?

É tão sutil que pensamos: nossa, ele é um androide, mas quando será que vamos descobrir isso? Ou será que é apenas uma impressão?

Mesmo sem vê-la, ele passa pela porta, e descobrem um pequeno laboratório subterrâneo, uma sala de diagnóstico remota.

Ford construiu (e ainda constrói) androides ali sem contar a ninguém. Vemos o primeiro desenho de um projeto de robô: é sua versão criança. Faz sentido ter construído ali. Ninguém mais sabe sobre ele.

Vemos o segundo desenho, um protótipo. Dolores. Ok, que medo. Aonde isso vai chegar?

Não vemos o terceiro desenho, mas vemos a expressão de Theresa ao vê-lo.

Pronto. Acabou. Westworld, a série mais foda já feita pelo homem, ou por um androide. Já sabemos que Bernard é um androide, antes mesmo de vermos seu protótipo desenhado.

Para Bernard, o desenho não faz sentido. Como não faria sentido uma foto do Central Park, ou das pirâmides do Egito, etc.

É a deixa para Ford aparecer. Ele queria que eles estivessem ali, lógico.

Vemos o desenho de Dolores… e vemos o desenho de Bernard. Sabemos que Dolores é um androide de primeira geração, escrito por Arnold. Se os desenhos estavam juntos, seria absurdo supor que Bernard é um androide de primeira geração? E escrito por Arnold? E influenciado por Arnold? E sendo um anfitrião, por isso estava tão interessado em Dolores?

Ou será que…

ATO 03 – TEORIA – Bernard é Arnold

Essa foto foi mostrada a Bernard por Ford, quando este estava falando sobre Arnold pela primeira vez. O enquadramento é do ponto de vista de Bernard.

Certo, e aí?

E aí que:

  • Agora sabemos que o homem ao lado de Ford é seu pai (o homem que atacou Bernard no ep. 6);

  • Agora também sabemos que os anfitriões não podem ver aquilo que os machuca. Ou seja, se Bernard se visse na foto, ia achar estranho e começar a questionar sua existência. O que ele vê é um espaço em branco, porque aquilo não faz sentido para ele, nem deveria fazer.

Há duas alternativas pouco críveis a essa teoria – talvez Arnold seja outra pessoa, ou talvez Arnold seja o pai de Ford.

Mas, imagine só… Não era Bernard falando com Dolores todo aquele tempo, mas Arnold.

Outra coisa: Ford sempre falou de Arnold como um pouco rebelde. Então, ele mata Arnold e o mantém como robô, sob seu controle:

POR FIM…

Uma (quase) confirmação de que Bernard é Arnold, e que há, no mínimo, duas linhas do tempo. Olhe esse gif:

Os lugares são incrivelmente semelhantes. E ainda há mais:

Há poucas coisas que sabemos de fato sobre o mundo de Westworld, e há muitas coisas que desconfiamos, e outras coisas que sequer desconfiamos. Aposto que nosso queixo irá cair muitas vezes. Nos vemos na semana que vem.

Gosta da série? Você pode ler as reviews dos outros episódios de Westworld aqui.

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Nicholas Nogueira

Carioca, que abriu sua própria empresa para poder ter tempo de escrever e falhou miseravelmente. Uma pessoa intensa que encontrou na escrita a única forma de extravasar tudo que passa dentro de si.