Black Mirror S01E02 – Fifteen Million Merits

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Nota: O texto possui spoilers do segundo capítulo da primeira temporada de Black Mirror: Fifteen Million Merits

“Fifteen Million Merits” parece uma das realidades mais futuristas apresentadas na série. Um grupo de personagens vive em celas individuais, pedalando em bicicletas ergométricas, enquanto assistem televisão compulsoriamente. Todavia, talvez esse não seja um futuro tão distante.

Dentro dos seus cubículos, cada pessoa assiste à televisão de forma gratuita, seguindo a ordem de atrações transmitidas nas diversas telas. Ela gasta, se não quiser assistir a um programa, uma determinada quantia em méritos, a moeda vigente na série. Os méritos podem ser acumulados pedalando, fazendo performances dentro do seu quarto e interagindo através dos avatares na TV.

Essa é a vida de quem pedala pra sobreviver em “Fifteen Million merits”

A moeda é usada para adquirir comida e outros utensílios básicos, também sendo utilizada na compra um bilhete de participação de um concurso de talentos. Caso aprovados, eles podem deixar a vida de ciclistas ergométricos e tornarem-se artistas, desde músicos até atores em filmes pornô.

Trata-se, aparentemente, de uma sociedade onde existem apenas dois tipos de trabalho: pedalar uma bicicleta ergométrica ou ser artista. Então, é válido desenhar uma hipótese de como chegaríamos a esse estágio.

Desde a era industrial, há um crescimento maior, em média, da produção (PIB) do que da população, tornando cada um de nós mais produtivos do que nossos antepassados. Logo, é importante encontrar demanda para escoar esse excedente de produtividade e evitar crises de super acumulação — quando existe um excedente de produção, sem mercado consumidor para adquiri-lo. No período imperialista houve a busca de novos mercados cativos em países periféricos, depois da crise de 29, criou-se uma classe média disposta a gastar dinheiro em seu bem-estar e lazer e nos tempos mais recentes, o consumismo e alguns serviços que hoje usamos e não eram tão difundidos antes, como musculação e cursos diversos, seguraram a onda.

A automação aumenta a dramaticidade desse problema com o seu potencial de destruição de empregos operacionais, sobrando apenas os trabalhos intelectuais e os artísticos.

“Fifteen million merits” parece uma hipótese de como será a humanidade quando chegarmos nesse estágio. Um estágio não muito distante, se pensarmos na velocidade em que a automação avança e no aumento do desemprego estrutural.

Existiria uma pequena elite que trabalha em funções intelectuais, representados por todos os artistas apresentados no episódio e uma outra margem sem ter espaço no mercado de trabalho. Uma atividade possível para essa margem, seria alimentar toda a robótica existente no setor produtivo, através da geração de energia. Possivelmente, isso é feito pelos que ficam pedalando o dia inteiro na bicicleta ergométrica.

Tal contexto representaria uma enorme concentração de renda e existiriam formas diversas de promover sustento àqueles situados na margem. Uma delas seria a transferência direta, através de um programa de renda básica de cidadania, onde cada um ganharia uma determinada quantia apenas por existir. Outra, seria a transformação de atividades de pouca utilidade em fontes de renda, como assistir à televisão. Diferentemente da outra hipótese, nessa a renda do indivíduo viria de algo que ele fez, sendo conquistada através do seu mérito — talvez daí venha o nome da moeda da série.

Pedalar uma bicicleta e ir para um cubículo assistir televisão compulsoriamente é uma atividade bastante sacal, principalmente quando feita numa base diária. Alguns conseguem refúgio para o tédio na esperança de tornarem-se artistas, através do show de talentos. Outros, como Dustin, abraçam a vida do entretenimento vazio apresentado na TV. Outros, como o protagonista Bing, ficam apenas presos à vida sem sentido existente ali.

Bing conhece Ali, ouvindo-a cantar no banheiro. Junto com a paixão súbita, um pouco do sentido da vida volta-lhe , que propõe patrocinar a ida de Ali ao show de talentos, através da doação de 15 milhões de méritos para a compra do bilhete.

Os dois chegam à triagem do show de talentos, onde os candidatos podem passar dias esperando serem selecionados. Ali logo é chamada ao palco, e Bing fica acompanhando na cochia. Antes de entrar no palco, porém, Ali é obrigada a beber uma substância chamada “cuppliance” (Compliance in a cup — concordância em copo).

Os jurados do show de talentos do mundo de “Fifteen Million Merits”

No palco, ela faz uma apresentação que arranca aplausos da plateia de avatares. Os três jurados ficam impressonados com a voz de Ali, mas ela não poderia ser selecionada como cantora devido a uma saturação no mercado. Um deles, sugere, uma carreira alternativa a Ali: ser uma atriz pornô.

À hesitação dela, segue-se uma cena torpe de análise dos seus atributos para a função apresentada. Paralelo a isso, toda a raiva de Bin com a proposta ultrajante. Após a pressão dos jurados e da plateia, Ali acaba aceitando a proposta.

Bin estava um dia assistindo à TV em seu quarto, quando começa a ser veiculado o primeiro filme pornô de Ali. Ele não tinha mais méritos para poder não assitir ao vídeo e quebra as telas que formam a parede de seu cúbiculo. O máximo que consegue são fragmentos pontiagudos.

Os fragmentos lhe dão uma ideia. Bin acumula méritos novamente e vai ao concurso. Consegue burlar a necessidade de beber o cuppliance e chega ao palco. Lá, com um caco de vidro pressionando a jugular, denuncia toda a superficialidade do espetáculo e da vida sem sentido a qual eram obrigados a viver. Na frente de todos os seus colegas de pedaladas representados pelos avatares.

Bing e o caco de vidro

Não houve constrangimento ou revolta dos detentores do poder, no caso, os 3 jurados. Eles elogiaram a apresentação de Bing dado o realismo dela e o poder de persuasão. Nesse momento, eu me lembrei do paradoxos de veículos conservadores de mídia veicularem colunas de matiz progressista em suas páginas, chegando ao ponto de serem criticados pelos próprios colunistas. Mais imporante do que o show agradar ao dono da casa, é ser o dono da bilheteria.

O episódio encerra-se em um grande anticlímax. Bing refaz a cena de sua revolta apresentada no show de talentos, em materiais publicitários, para venda de produtos. Bing sucumbiu ao sistema sem precisar tomar a droga da concordância. Não vai ser no futuro desenhado por Black Mirror que conheceremos um homem capaz de destruir o sistema sozinho.

Publicado originalmente no Medium por Gustavo Barreto.

Gosta da série? Você pode ler as reviews dos outros episódios de Black Mirror aqui.


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