Black Mirror S02E01 – Be Right Back

Tempo médio de leitura: 5 minutos

Nota: O texto possui spoilers do primeiro capítulo da segunda temporada de Black Mirror: Be right back.

“Be right back” conta a história de um jovem casal, Martha e Ash, subitamente interrompida por um acidente de carro que vitimou fatalmente o marido.

Ash e Marta. Be right back.

Durante o velório, Sarah, amiga da viúva, conta para Martha sobre um novo serviço onde é possível conversar com pessoas mortas. Não é algo similar às atividades paranormais de falar com os mortos, mas sim uma simulação feita das atitudes da pessoa através de suas postagens em redes sociais.

A primeira reação de Martha é de desprezo pela arrojada proposta de sua amiga. De toda a forma, ela guardou o e-mail de contato desse serviço, possivelmente para um momento onde ele fosse necessário.

Ao descobrir-se grávida de Ash, Martha deparou-se com a solidão e a insegurança do impacto de tão importante notícia. Ela não estava à vontade para se abrir com a família e somente uma pessoa naquele mundo poderia dar-lhe conforto. Era Ash, que, apesar de não estar nesse mundo, era facilmente acessável através de um serviço de simulação de conversas com os mortos.

O homem e a máquina

A máquina entra na vida do homem junto com a revolução industrial em uma relação que experimentou diferentes fases. No início, ela era meramente profissional, onde a interação entre homem e máquina era uma forma de aumentar a produtividade da economia e produzir novos bens. A inovação da economia levou as máquinas para dentro da casa dos trabalhadores, tanto na forma de utensílios domésticos, quantos para fins de entretenimento, como o rádio e a televisão.

Tempos Modernos: O início de uma difícil relação entre homem e máquina

Com o desenvolvimento dos microprocessadores e softwares, as máquinas adquiriram algo que realmente poderia ser chamado de inteligência artificial. Um bom exemplo para notar essa evolução é a trajetória dos videogames: ao compararmos edições de um mesmo jogo de videogame, separadas por 20 anos, é nítido o desenvolvimento gráfico e da inteligência artificial dos personagens.

O estágio mais recente, sobre o qual ainda estamos situados, são as aplicações de big data, onde é possível o processamento de um volume imenso de dados extremamente variados e em alta velocidade, de forma a oferecer sugestões adequadas para o seu estilo de vida, em função do seu footprint, ou seja, do rastro de informação que deixamos ao navegarmos pela internet. Todo esse desenvolvimento tornou mais ubíqua a presença das máquinas e muito mais próxima sua relação com o homem.

E quando essa relação fica íntima demais

Martha estava cada vez mais próxima do simulacro eletrônico de Ash, resolvendo experimentar um produto mais avançado: um androide que teria as feições do seu marido em tamanho real, modelado em função dos dados obtidos de suas redes sociais e capaz de interagir fisicamente com ela.

A chegada do robô tornou mais realista a convivência de Martha com seu falecido marido. A aproximação com a realidade, por outro lado, acelerou os confrontos entre o Ash que morrera e o androide que estava em sua frente. Ao ver Ash materialmente representado, ela sente falta de tudo o que fica oculto na exposição feita por nós nas redes sociais: os defeitos, os momentos ruins e os desejos mais íntimos.

A cena do sexo é a mais emblemática de todas. Justamente quando o ser humano se despe de suas roupas, tanto no sentido literal, quanto as vestes necessárias ao convívio familiar, social e do trabalho, estava Martha, tentando transar com um robô vestido com a etiqueta que apresentamos no ambiente social, nesse caso, o virtual. Como o próprio androide disse:

There’s no sexual response. I didn’t discuss it on line
(Não há registro da minha resposta sexual. Eu não discutia isso na internet)

Uma DR entre Martha e o Androide

O androide de Ash não sangra, age de forma programada no sexo e só se revolta quando isso é solicitado por Martha. Ela não consegue lidar com o papel de administradora de um robô feito para apenas satisfazer seus desejos. Martha leva-o a um penhasco. Ele adverte-a para não pular. Ela pede-lhe para pular e ele se recusa, já que no mundo asséptico das redes sociais, Ash nunca demonstrou vontade de se matar.

No final do episódio, é o aniversário da filha do casal, ali uma menina já crescida. A garota pede mais um pedaço e vai até o porão entregar ao androide Ash. Mas era apenas uma farsa para ela comer mais uma fatia, realizada com a ajuda do seu boneco, que por alguns momentos fez o papel de seu pai na vida de Martha, antes dela nascer.

A economia desenvolve novos produtos a fim de satisfazer necessidades do ser humano, mesmo as que ainda não existem. Esse processo por vezes é tão agudo, que somos tratados literalmente como crianças mimadas — veja o caso dos alunos-cliente das escolas. Durante boa parte da trama, Martha preferiu conviver com o pastiche de Ash a encarar a realidade de sua morte e reorganizar a sua vida através da aproximação com parentes e amigos. Ela foi uma metáfora de como muitos preferem em certos casos o virtual ao real, ainda que aquele seja uma experiência quase esquizoide. Mesmo após ver inviabilizado um convívio natural com o androide ela ainda quis mantê-lo vivo, como um enfeite, a ter que descartá-lo, o que poderia representar em sua mente uma nova morte de seu amado. Uma outra noção esquizoide. Uma outra metáfora para a vida.

Por ora, o desenvolvimento tecnológico não foi capaz de criar um androide com inteligência artificial equivalente à de um ser humano. Mesmo no mundo da série, a distância é grande — apesar de, através do big data, não estarmos muito distantes de um androide como o de Ash. O debate entre o desenvolvimento e a ética em torno da criação de seres com inteligência artificial equivalente à humana, possivelmente será uma das marcas de nosso tão jovem século.

Publicado originalmente no Medium por Gustavo Barreto.

Gosta da série? Você pode ler as reviews dos outros episódios de Black Mirror aqui.


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