Estrelas Além do Tempo

Estrelas Além do Tempo e os riscos de uma Adaptação

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Estrelas Além do Tempo é um dos filmes mais importantes da recente temporada do Oscar. Conta com indicações de Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado, e a força de uma história que destaca como mulheres negras desconhecidas foram cruciais em eventos astronômicos (literalmente), como a chegada do homem à órbita e depois à Lua.

Por mais fantástica que seja a história, sua execução deixa algumas lições sobre a adaptação de obras e a representatividade de minorias na arte — lições boas e ruins.

De cara vale apontar: um filme não tem que necessariamente ter a melhor direção ou o roteiro mais elocubrante para merecer estatuetas como Melhor Filme. Um grande exemplo é Spotlight. Filmes como O Regresso ou Mad Max tinham mais feitos técnicos — não à toa Mad Max levou tantos prêmios. Spotlight levou apenas Roteiro Original. Ah, e filme, é claro.

A categoria Melhor Filme, no entanto, não é só técnica. Quão capaz é o filme de encantar ou fazer refletir? O quanto ele mexe com a audiência? Histórias como a contada em Spotlight são importantíssimas, necessárias e corajosas. Quando uma história como aquela é bem executada, o filme ganha mais valor do que as possíveis inovações de efeitos ou originalidade no uso das câmeras.

A história de Estrelas Além do Tempo é quase a garantia de suas indicações, com merecimento a meu ver, por ser tão relevante e bela. Ela não consegue, porém, chegar no mesmo nível do ganhador de 2016 porque sua execução não é tão “certinha”. E porque sua adaptação é menos corajosa do que, digamos, Moonlight. Mas chega de subjetividade, vamos explorar esses pontos.

Os riscos da adaptação

O filme foi lançado no dia 23/12/2016 em sessões limitadas nos EUA (o que o permitiu concorrer ao Oscar esse ano), e teve o lançamento nacional em 06/01/2017. Seguiria sendo lançado no mundo, chegando ao Brasil em 02/02/2017.

O livro “Hidden Figures”, da autora Margot Lee Shetterly, foi lançado em Setembro de 2016.

Se os três meses de diferença criam uma impressão de que as datas ficaram apertadas, é porque foi isso mesmo. As produções do livro e do filme ocorreram em paralelo, com o roteiro sendo baseado em um manuscrito de 55 páginas, rascunho do livro. O início da produção do filme ocorreu em Setembro de 2015. Trabalhar adaptando capítulos em desenvolvimento gera um desafio bem diferente de adaptar livros de J R R Tolkien. Não que o último caso garanta algo (“O Hobbit”, estou falando de você).

Outro exemplo de desafio que perpassa uma adaptação está no caso de Al Harrison, personagem de Kevin Costner. Foram três os diretores da NASA em Langley durante a carreira de Katherine, e o diretor do filme, Theodore Melfi, não conseguiu os direitos para representar o seu predileto. Sua solução foi criar uma composição dos três diretores, formando o personagem fictício interpretado por Costner.

A arte se enriquece quando a adaptação de uma obra arrisca, inova, se torna de fato uma nova obra, apenas baseada na primeira. Veja Sherlock (a série da BBC), por exemplo. Obras biográficas ou documentários com cunho histórico, no entanto, correm muitos riscos tomando decisões que divergem a história dos fatos reais. Especialmente quando se vendem como representações dos fatos históricos, caso de “Estrelas Além do Tempo”.

Algumas consequências desses desafios se apresentam nas seguintes decisões do filme:

O banheiro

Katherine (Taraji P Henson) não andava aquele quase quilômetro para ir ao banheiro. Quem andava grandes distâncias era Mary Jackson (Janelle Monáe). Tudo bem, quiseram trazer um elemento de drama para a trama da protagonista. Entretanto, perdeu-se a oportunidade de representar Katherine seguindo o que a própria cientista falou sobre a época. Existia um banheiro próximo para mulheres brancas no seu prédio de trabalho sem a marcação de segregação, e ela simplesmente o usou. Demorou até que alguém percebesse e a confrontasse. O que ela fez? Ignorou o comentário, seguiu usando o banheiro das mulheres brancas. Eventualmente, mudaram os banheiros (deixando de serem segregados), ao invés de mudar Katherine.

Além de mudar um pouco a personalidade da protagonista com essa decisão, o filme pôde fazer do personagem de Kevin Costner o herói que “destrói” a placa do banheiro.

Ué.

O banheiro não tinha placa, Katherine sempre o usou, e quando confrontada sobre o banheiro segregada, simplesmente se impôs, seguindo o uso. Por que dar o tom de herói para Al Harrison, um personagem fictício, então? Soa como um famoso estereótipo hollywoodiano, o homem branco salvador.

Essa análise não significa que acredito num plano maléfico dos executivos de Los Angeles para manter personagens de pele branca como os perfeitos que salvarão tudo. Acontece inconscientemente mesmo. Sendo um pouco presunçoso quanto às suposições, veja como pode ter acontecido nesse roteiro.

A história precisa de picos de tensão, os clímax, aqueles pontos que mudam a direção, viram mundos de cabeça para baixo, como já falamos estudando o Paradigma. A situação do banheiro gera esse clímax, de modo que fica até difícil pensar no filme como possível sem essa cena. O uso do “andar ao banheiro”, transplantado para Katherine, gera de forma simples a sensação de acúmulo com as situações diárias vividas perante o racismo. Não à toa é uma cena repetida à exaustão (apesar da exaustão não combinar com o tom brincalhão que a trilha sonora assume nessas cenas).

Todavia, o próprio filme mostra inúmeras situações (uso de banheiro de outras personagens, ingestão de café, uso do quadro negro, presença do nome de autoria nos relatórios), apesar de não serem todas biográficas, que poderiam ser mais mixadas para gerar esse acúmulo.

Ao focarem no banheiro, roteirista e diretor criam no filme um senso de “problema” no trabalho de Katherine como funcionária, que gera a ação do personagem do Kevin Costner de cobrá-la pela ausência. Então temos a cena clímax, onde ela explode a opressão. Quando Al questiona Katherine, nem passa pela nossa cabeça pensar no chefe como alguém reproduzindo racismo, mesmo que saibamos o que se passa com a protagonista. Porque a justificativa foi criada ao longo da narrativa.

Só que com a visão que o filme dá, o cara “só não tava percebendo as opressões porque não sabia de nada, não tinha racismo nas atitudes dele especificamente, ele só foi cobrar pelo trabalho. Assim que ele fica sabendo, ele vai lá e arranca a placa do banheiro e todo mundo bate palma”. Isso muda a personalidade de Katherine (uma personagem que não faz barulho até que a pressão aumenta e ela extravasa só para se defender), em relação a uma mulher que na vida real sequer aceitou usar um banheiro longe desde o início.

Uma decisão tão importante por uma conveniência da história? Como roteirista e diretor nesse caso são pessoas brancas, pode ser que os inconscientes delas próprias estivessem pedindo por uma suavização, uma salvação de homem branco. Ou fui longe demais nessa última suposição — será?

O racismo diário

Katherine (a real) também fala para a autora do livro que a situação de racismo na Nasa era mais branda do que o filme demonstra, no sentido de que as pessoas não se posicionavam das formas demonstradas no filme. O principal exemplo é o engenheiro Paul Stafford, interpretado por Jim Parsons. Mais um personagem ictício. Sua criação acontece com o intuito de convergir as questões do racismo em uma pessoa — talvez para aumentar a didática? Não sei.

Essa decisão é problemática, ainda que seja compreensível sua complexidade no momento de se fazer um filme. Se o trato com as pessoas era mais brando, roteirista e diretor poderiam sentir falta de momentos dramáticos suficientes para criar clímax e as oscilações de tensão necessárias no roteiro.

Então criam personagens e eventos de tensão, e com isso começam a meter os pés pelas mãos. A criação do personagem Paul é uma bela oportunidade perdida. Tanto a fala de Katherine sobre a época como a inexistência dessa persona ajudam a montar uma história em que o racismo está no sistema muito mais do que em algum tipo de personagem vilanesco. Como já falamos e falamos por aqui, é o racismo estrutural que vale discutir. O filme pincela a estrutura, mas recai na facilidade de apontar um “CPF” como racista.

Essa decisão torna a história também mais palatável para pessoas brancas. Por quê? Pois, justamente nos personagens fictícios, criou-se um paralelo de comparação. Eu, espectador branco do filme, me identifico mais com Al Harrison ou com Paul? Já que, em termos raciais, posso me identificar com os dois, vou variar minha identificação com um ou outro pela postura que eles têm e que considero ter. Se me considero bonzinho, não-racista, sou como Al. Todo mundo será Al.

Apontar o dedo para estabelecer uma pessoa como racista é uma perda de tempo, com tantos problemas estruturais que temos para resolver. Com um “vilão” para apontar e dizer “não sou igual a ele”, fica mais fácil para o público se desassociar da mensagem, dizer que ela é para os outros, não para si. A decisão que poderia vir para a didática do filme acaba minimizando sua força.

Estrelas Além do Tempo gif quadro
Desenhadinho

A desconexão das tramas

Depois das críticas acima, pode te assustar se eu falar que há outro ponto negativo no roteiro, talvez o pior de todos.

“Estrelas Além do Tempo” tem três personagens principais, apesar de uma ser protagonista. Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughan (Octavia Spencer). As três são as figuras escondidas, as três são incríveis, as três superam durezas do racismo. Então qual seria o problema?

Uma pergunta para você pensar rápido, de memória, e seguir. As três foram cruciais para a missão?

Sim. Lembrando do papel que cada uma exerceu em suas equipes, as três foram relevantes, necessárias, fizeram a diferença.

Então porque suas tramas são tão isoladas? Você não sente, ao final do filme, que apenas Katherine foi crucial? As outras estão afastadas, assistindo pela TV.

O escudo térmico que quase não aguenta, mas aguenta, é trabalho da equipe que teve Mary como pioneira. O prazo que conseguiram cumprir seria pulverizado não fosse Dorothy e sua liderança na frente dos computadores IBM.

Pode até ser que a situação da TV seja real, mas o que me assusta é que esse seja o tom de suas relações em todo o filme. Existe um elemento de conexão entre o trio: o carro. É lá que elas falam dos desafios cotidianos, do racismo estrutural, dos obstáculos que enfrentem.

Mas elas passam pouco tempo no carro.

Quando estão em casa, ou em um evento na igreja, suas conversas são sobre vidas amorosas, umas preocupadas em impulsionar os romances de outras.

Vai me dizer que essas três incríveis mulheres, trabalhando em importantes equipes com impressionantes funções, funções essas convergentes para a missão, não conversavam nem um pouquinho sobre seus trabalhos? Sobre as fórmulas, técnicas, a conexão entre seus papéis?

Em nenhum momento Katherine ou Mary interagem com o trabalho ou mesmo a vitória de Dorothy, quando esta domina o computador da IBM. Katherine e Dorothy não aparecem comemorando a vitória de Mary na Justiça. A primeira engenheira negra da NASA, e elas não comemoram?!?

No fim das contas, o filme mais uma vez pincela o racismo em momentos, mas, de resto, estereotipa as relações femininas, ao invés de escalar nas tremendas oportunidades para quebrar ainda mais padrões. Para um título no plural (sejam estrelas ou figuras escondidas), as três tramas que claramente são cruciais para o sucesso da missão não são devidamente interligadas. Duas figuras acabaram meio escondidas mesmo.

A adaptação dos movimentos negros

O filme faz uma escolha sutil sobre a representação do movimento pelos direitos civis fazendo uma diferenciação entre Martin Luther King e Malcolm X.

Acima comentei sobre a representação do racismo em “momentos”, e até do tom brincalhão da trilha em eventos de destaque dramático como a corrida ao banheiro. Esses momentos revelam uma argumentação no roteiro em prol de uma visão de mundo de luta através de tomadas por dentro do sistema e de soluções pacíficas. De onde tirei isso?

Essa percepção não vem de subjetividades apenas. O filme escancara sua preferência pela abordagem de Martin Luther King Jr, frente à Malcolm X. Não é meu intuito entrar no julgamento de valor das duas abordagens, mas você consegue perceber a diferença de destaque?

Em uma cena, Dr King aparece na TV. Malcolm X nunca aparece. Sua maior representação está no marido de Mary, que busca protestos e pensa até na luta armada. Mary Jackson, por outro lado, representa a visão pacífica nas discussões com o marido. Nos protestos com via da não-violência.

Nesse sentido, o roteiro ao menos merece o elogio de estar bem alinhado com sua proposta. Em nenhum momento temos explosões que destoem da preferência por vias internas e pacíficas.

Seja essa a melhor abordagem ou não, a escolha também combina com a história que se propuseram a contar. Se assistimos ao filme esperando um drama de nível “Selma” ou “12 Anos de Escravidão” (comparo aqui o peso dramático, não a qualidade), podemos nos decepcionar por um desalinhamento de expectativas.

Katherine Johnson, a real, adorou a interpretação de Taraji P Henson, ainda que algumas decisões do roteiro tenham suavizado um pouco sua personalidade. A protagonista da história real também comentou que o filme retrata o preconceito de forma mais acentuada e caricata do que ocorria na NASA.

Nem todos os eventos acontecem no asfalto, na frente de câmeras, em capas de jornais. Existe muita coisa importante ocorrendo nas minúcias, como o caso de Mary Jackson. Esse direcionamento casa com o nome dado ao filme, “Hidden Figures” (Figuras Escondidas, em tradução livre).

Não é “figuras exploradas”, “invisibilizadas”, “oprimidas”… É “escondidas”.

É sobre processos lentos, mudanças de longo prazo.

Mas não desista!

Eu poderia me alongar sobre a trilha sonora, mas só darei um gostinho; repare na quebra de impacto que a trilha causa na cena em que Dorothy carrega toda a equipe de “computadoras” para trabalhar na máquina IBM. Dica: era para ser uma cena épica.

Porém, chega de crítica. Parece até que não gostei do filme, não é mesmo? Não é o caso.

Eu adoro a história contada e fico feliz com a representatividade, está muito à frente da maioria dos filmes do Oscar desse ano, por exemplo. Esse tanto de crítica não é para minimizar a importância. É justamente para reconhecermos as escolhas menos corajosas, que simplificam ou até invertem questões reais.

Não gostei tanto da atuação de Octavia Spencer a ponto de dar a ela uma indicação ao Oscar, mas fiquei positivamente surpreso com Janelle Monáe (que também atuou bem em Moonlight). Dois filmes destacados em uma temporada, um deles ganhando Melhor Filme. E ainda canta. Tá pouco?

Como um extra, para deixar você com um gostinho bom e a alma mais leve quando for refletir com essa análise, repare no figurino do filme, especialmente o de Katherine em relação à sua equipe.

Foi a forma sutil, subjetiva, mais interessante que o filme executou. Nas cores das roupas ela estava sempre ali, como a diferente. Variando entre cores fortes e tons escuros, destacando a personagem e, com isso, evidenciando seu isolamento naquele meio.

Estrelas Além do Tempo figurino 1

Compare com esse mesmo “isolamento” no final do filme. Já não existe. A transição é uma bela última mensagem, não acha?

Estrelas Além do Tempo figurino 2

Estrelas Além do Tempo figurino 3
Repare aqui como as cores se aproximam, e Katherine e Al estão fisicamente alinhados

Esse texto nasceu inteiramente de conversas. Obrigado à Jennifer Ferreira, à Jéssica e à Patrícia Moraes pelas trocas que geraram essas visões.


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