Por que masculinizamos amizades femininas?

Tempo médio de leitura: 14 minutos

Esse não é um texto sobre casos em que uma mulher é masculinizada por seus amigos homens. Não é um texto sobre o impacto negativo que essa cultura tem sobre as mulheres. Você pode se aprofundar nessas nuances com autoras com muito mais propriedade para essas abordagens.

Esse texto é sobre buscar entender como a masculinização de amizades femininas por homens ocorre. Por que ocorre. Quais gatilhos e amarras sociais geram esse comportamento, para sabermos controlá-los ou desligá-los. Para termos mais relações mais saudáveis com a outra ~metade~ da população.

Não adianta, no entanto, tentarmos responder essas questões se você não acreditar que homens masculinizam mulheres que são suas amigas.


Descrição do gif: Barney e sua “wingman” Robin, personagens da série How I Met Your Mother. via GIPHY

Homem pode ter amiga mulher?

Não sei qual a resposta que você tem em mente, mas sei que ela diz muito sobre quão verídico o título soa para você.

É bastante seguro dizer, por simples observação da norma cultural de meios cis heterossexuais, que a maioria dos homens têm mais amigos homens.

Muitos só têm amigos homens.

“Mulher de amigo meu, pra mim, é macho!”

Existe uma série de tabus sobre amizades entre homem e mulher heterossexuais. Circula o senso-comum de que um e uma não podem ser amigos “de verdade”. O macho sempre pensará primeiro no potencial sexual daquela relação. Sempre buscará um indício de interesse além da amizade, quando não criará esse indício. Homens só podem ter uma amiga mulher se:

  1. Ela for lésbica; ainda assim, é provável que ele desenvolva fantasias com essa amiga, como a de transar com ela (“sou tão macho-alfa que uma mulher lésbica não resistiu a mim”) ou de ter um ménage.

  2. Ela for namorada/esposa de um amigo, situação que puxa a primeira frase destacada no texto; ainda assim, ela estará sujeita a “piadas” como: “Mulher de amigo é que nem cebola; como chorando” .

  3. Ela não for desejada sexualmente em relação ao padrão de beleza, sendo gorda ou considerada feia, por exemplo. Nada que não possa ser esquecido quando alguma bengala física ou psicológica, como a bebida, puder ser usada de desculpa frente aos parças. Não que fosse trazer muito prejuízo. Provável que, caso aconteça, vire apenas mais uma história na lista de “derrotas engraçadas” que esses parças lembrarão nos churrascos e bares.

Ou seja: homem não consegue ter amiga mulher.

Descrição da imagem: comentário de um homem no Facebook, em resposta à outro comentário, que diz: “…você foi potencialmente verdadeira na sua colocação. Eu apenas consigo conceber uma amizade pura entre homem e mulher, partindo dessa tua colocação; se ele recusar-se a transar com ela alegando ele que entre as partes apenas existe uma amizade. Daí então é amizade, do contrário é apenas um tubarão, ou qual fosse uma raposa à espreita, esperando a oportunidade de almoçar a presa.”

A capacidade masculina de relativizar os já poucos casos onde seria menos tabu uma amizade entre homem e mulher reforça o estereótipo do homem como um animal sexual incontrolável. O macho responde a instintos em primeiro lugar. Se um homem não é capaz de ter sequer uma amiga sem “perigo de gol”, começam a florescer narrativas como “mulher com roupa curta não se dá o respeito” (cultura do estupro), ou “já aguenta” para meninas de 12 anos que “já tenham corpo” (cultura da pedofilia).

Por que toda mulher é alvo?

Imagine o período da chegada da Peste Negra à Europa, no século XIV. Estimativas apontam uma redução da população do continente entre 30% e 60%. Milhões de pessoas mortas.

Tanto a (falta de) estrutura social na Pré-história como fases de crises (epidemias, escassez natural ou guerras) eram terríveis para o crescimento populacional. Na espécie humana, somente fêmeas engravidam. A cópula precisa acontecer no período do mês em que o óvulo está disponível. Basicamente, 1 em 30 dias. A gestação dura 9 meses, na maioria dos casos carregando apenas uma criança.

Essa obviedade serve a notarmos que a natalidade é lenta. Adicionando a mortalidade na equação, o crescimento populacional foi irrisório por muito tempo, quando não negativo em fases como a da Peste. Do ponto de vista da espécie humana, cada gestação se torna valiosíssima. As mulheres, capazes da gestação, se tornam valiosíssimas, no que tange a sobrevivência da espécie.

Em todo esse processo, quando o homem é estritamente necessário? Naquele 1 dia da cópula. Em todos os outros momentos, ele poderia ser necessário na proteção da tribo ou lutando guerras ou caçando ou plantando. Sempre mantendo a população. Somente naquele 1 dia o homem a ajudava a crescer.

Nos outros dias do mês, não duvido que você encontraria cada um desses homens competindo de alguma forma. Pense na quantidade de guerras que estudou ocorridas na Antiguidade. A formação, apogeu e declínio de civilizações baseadas na conquista e defesa de territórios ou recursos.

Esse modelo sóciopolítico promove homens jovens (na média, os mais fortes da população), que dominem agressividade. Pois esse era o perfil necessário para vencer guerras.

Então os homens cresceram aprendendo a competir acima de tudo e a usar a violência.

Olhar para a fêmea como “alvo” é um comportamento que cresceu fazendo sentido, ainda que tosco, para uma população com dificuldade de crescimento e forte competição masculina. A sociedade precisava da procriação e os homens dominavam a arte da competição. É com essa “habilidade” que eles foram “resolver o problema populacional”. Dá para notar que a sociedade cresceu “cagada”, mas na época só importava o fato inconsciente de que cresceu, ou não foi dizimada.

Alana vai ser minha wingman hoje!

Esse cenário traz outra pergunta. Qual macho conseguiria copular com a fêmea de sua tribo?

Não importa. Ainda que exista uma parcela de escolha das partes antes do sexo, do ponto de vista populacional, qualquer macho não infértil é suficiente para copular com todas as fêmeas. Ele não está preso a uma gestação demorada e pode atuar frequentemente.

O homem é, portanto, muito mais descartável do que a mulher do ponto de vista de sobrevivência da espécie. Qualquer homem (quase) é suficiente, nenhum macho específico é necessário.

A competição e o descarte

Uma mente crescendo com a noção inerente de que é descartável. Será que uma criança se sente confortável crescendo sob essa lógica?

A noção intrínseca de que é descartável gera no menino e no homem a necessidade de não ser descartável. Uma insegurança que gera o anseio por se sentir essencial.

Um bando de homens tentando se tornar essenciais significa um bando de gente competindo — já que a atenção suficiente para preencher as demandas de vários egos só pode ser infinita. Para o grupo de seres que, na média, tem porte físico maior, a força é o meio evidente, óbvio, de demonstrar poder.

Joice luta igual menino!

Surgem as agressões físicas. Quem perde, chora. De dor, de vergonha. Sente emoções que entendemos como ruins, associadas a um resultado que consideramos ruim.

Choro, tristeza e outras emoções e demonstrações indesejadas passam a ser associadas aos mais fracos, aos perdedores. Até o ponto em que mesmo demonstrações que não ocorram por uma derrota se tornam a derrota.

Ted Barney
Descrição da imagem: Ted e Barney com medo em How I Met Your Mother

Os homens passam a se afastar dessas emoções, claro. Afinal, é necessário poder para se sentir essencial. É necessário status para não ser descartável. Um ciclo que se retroalimenta até os homens não saberem sentir tais emoções.

Mais velho, o macho perde força, virilidade. A maturidade para lidar com esse processo natural não existe. O macho sequer sabe lidar com as emoções conflituosas que surgem.

Ele deve demonstrar força, não que “sabe se cuidar”. Os machos, então, morrem mais cedo que as fêmeas. Jovens morrem pela violência física esperada, velhos morrem de doenças físicas e emocionais consequentes.

Pesquisas com a população dos EUA mostram que homens cometem cinco vezes mais suicídios do que mulheres, garotos adolescentes nove vezes mais do que garotas. Os garotos também são diagnosticados com depressão e déficit de atenção quatro vezes mais do que garotas de mesma idade. Homens representam dois terços da população de rua, tem mais do que o dobro das chances de se tornarem alcoolistas e têm aproximadamente três vezes mais chances de se viciarem em drogas. Homens buscam menos ajuda profissional, médica ou psicológica, mesmo quando adquirem problemas de saúde ou depressão.1

A necessidade que o homem tem da mulher

A humanidade caminhou para os dias atuais trazendo instituições como o casamento e uma série de movimentos de mudança. Porém, essa lógica continua alimentando a formação da masculinidade.

Mesmo com avanços medicinais, o perfil continua: homens morrem mais cedo, morrem mais de formas violentas (e matam mais, muito mais). O suicídio é mais comum para homens e para meninos do que para suas contrapartes femininas.

Como é que um homem sobrevive, então?

Uma das formas mais eficientes é: casando.

Barney Robin casando
Descrição da imagem: Barney e Robin se casando em How I Met Your Mother

Aquelas competências que o cara deixou de lado para focar na força e na competição foram absorvidas pelas garotas (não que elas quisessem). A cultura desenhou e manteve essa lógica — lembrando que cultura não é uma entidade independente de nós.

Para lembrar de ir ao médico, apoiar inseguranças, ouvir derrotas escondidas e muitas outras demandas masculinas, lá estão as mulheres no papel de mães ou de esposas (ou os dois). Não é exagero, como mostra o trecho abaixo2.

Homens são tão emocionalmente incompetentes sem mulheres que casar é literalmente a decisão mais saudável que um homem pode fazer em sua vida. Uma publicação de pesquisa sobre supressão emocional chegou ao ponto de dizer: “restrição emocional é a causa líder de por que homens morrem mais cedo [do que mulheres]”.

Homens casados vivem mais e atingem melhor resultado em basicamente todas as estatísticas de qualidade de vida, incluindo felicidade e expectativa de vida. O casamento é aparentemente tão importante na estabilidade emocional dos homens que alguns sociologistas chegam a afirmar que casar pode aumentar a expectativa de vida de um homem em quase uma década. Homens idosos em bons casamentos têm menores taxas de doenças do coração, câncer, Alzheimer, depressão e estresse do que idosos solteiros.

Casar, para um homem, é um investimento em saúde física e mental. É completar sua defasagem emocional com a expertise de uma mulher.

Quando surge uma amizade entre homem e mulher

Não dá para todos os homens do mundo esperarem o casamento. Imagina: “só vou lidar com minhas emoções quando casar”.

Ok, muitos fazem isso. Ok, muitos, nem isso.

Contudo, deve ter como reforçar ou adiantar um pouco esse lado. Uma amizade com uma mulher seria ótimo para esse fim, certo?

Pô, mas por que o cara não conta com os amigos para isso? Porque os amigos homens estão embarcados na mesma lógica. Têm baixa habilidade emocional, insegurança quanto ao descarte. Competem com a mesma necessidade de demonstrar força.

A importância do status é tal que não basta parecer um alfa dentro do grupo. É importante que o seu grupo seja alfa na comparação com outros grupos. A demonstração de fraqueza de um amigo é suficiente para explodir uma onda de insegurança para todos os integrantes. Todos podem se sentir “diminuídos” em consequência.

“Isso é papo de recalcado, maluco sem amigos!”

Não estou falando de todas as amizades. Relações saudáveis e genuínas superam esse tipo de dinâmica. Mas pensa bem, todas as amizades são saudáveis e genuínas? É claro que eu não estou falando das suas. Só estou falando do padrão. Você está fora do padrão, é lindo e foda.

Voltando ao padrão, é natural que um homem não se sinta seguro de revelar suas vulnerabilidades, aquilo que será lido como fraqueza, para pessoas com esses vieses. Então ele olha para o lado e vê uma mulher, aquela ser humano que tem o direito de chorar, de ser vulnerável, que tem mais preparo para navegar por emoções difíceis e indesejadas. Não que a mulher tenha escolha. É o papel que foi designado a ela, uma prisão contra a qual ela luta. No entanto, o cara não vai lembrar disso na hora que está precisando.

Ele vai lá ser amigo dela para preencher esse vazio de habilidade emocional.

“Porra Yann, tá foda, tenho várias amigas e não é cagado desse jeito!”

Eu sei, não é tão assim. Relações são específicas, pessoas são específicas. Entretanto, podemos tirar o “eu” da jogada e olhar para os elementos repetitivos nas pessoas e padrões à nossa volta.

O desenvolvimento de uma amizade entre homem e mulher

Como dito acima, relações são específicas, então amizades acabam surgindo de encontro a esses estereótipos.

Contra mesmo?

A sociedade valoriza, espera a relação romântica entre homem e mulher. Cada amizade se forma sob ou apesar desse contexto. É difícil garantir, por exemplo, que em cada relação de amizade as duas pessoas vão evitar todo o tempo pensamentos como “e se?”.

O peso social gera um potencial, uma tensão, inerente a essas relações. Uma tensão que pode ser mitigada, ignorada, consumada ou até virar destrutiva.

O garoto está conversando com a garota, falando sobre um problema familiar. Uma derrota doída. Um medo dilacerante.

Esses anseios e inseguranças são bem recebidos. Afinal, a garota sabe lidar melhor com emoções do tipo. Então o espaço “ela” se torna um espaço seguro para o garoto. Um círculo de confiança mais raro de encontrar em amizades masculinas. Um círculo para o qual ele retornará a cada insegurança, buscando abrigo.

Muitas vezes esse processo gerará uma confusão no garoto. Deve ter algo mais nessa relação. Por que ele se sentiria tão capaz de se abrir com ela, se não é com os amigos?

O interesse romântico/sexual vira possibilidade (para Hollywood, a única possibilidade). Uma série de gatilhos se amontoa. A galera começa a perceber e zoar essa atenção. A garota fica com vergonha (até porque pode não ter interesse romântico algum, ou mesmo que tenha). O garoto fica inseguro sobre aquele espaço seguro.

Letícia? Mó bruta! Se tu não chegar logo, é capaz de ela chegar em tu antes.

Ou não rola interesse romântico de nenhuma parte. É só uma amiga.

A galera começa a perceber e zoar essa atenção. Porque a galera faz isso. Sempre. Afinal, é assim que nossa sociedade sabe ler amizades entre homem e mulher. Negando que são amizades, assumindo potenciais romances.

Então, em qualquer cenário acima, a imagem do rapaz ou do homem é só o interesse sexual. Seja um garanhão tentando conquistar mais uma (a raposa à espreita, como disse o amigo sem rosto lá no início). Seja um pombinho apaixonado. Seja um bobo caminhando para uma armadilha.

Talvez o cara não esteja nem aí. Só queira pegar, ou só queira aquele apoio e acabou. Mesmo assim, ele não quer se manter na posição sacaneada nas zoações da sua galera.

Pior se o cara está aí. Porque gosta da mulher, ou porque gosta da amizade e quer mantê-la, nutri-la. De alguma forma, viver essa relação.

Ainda que o interesse seja só a amizade, a insegurança já desembarcou. Todas aquelas neuras do status, da demonstração de força, voltam. Como que esse homem se protege disso?

Como ele pode manter essas amizades sem sentir esses anseios? Sentindo-se seguro frente aos olhos de fora?

Acredito que você pescou a hipótese.

A masculinização das amizades femininas

É nesse momento que o garoto masculiniza a garota. Porque o padrão de amizade que ele pode manter sem resistências é a amizade masculina.

Uma série de frases e codinomes começam a surgir. A exemplo das frases espalhadas ao longo do texto.

À medida que sente a amizade com uma mulher crescendo, o homem passa a buscar traços masculinos que deem sentido a esse vínculo. Passa a usar o vocabulário mais próximo ao que usa com amigos. Piadas semelhantes, simulações de soquinhos e programas de bróder proliferam.

Cuidado no Fifa, ela joga mais que muito macho!

A mulher gostar de filmes de ação, de heróis, ser gamer, são aspectos que facilitam justificar essa identificação através de artificialidades. Ao mostrar essa masculinização para o mundo, via comportamento, o homem está dizendo: “Ei, tá tudo bem eu ser amigo dela, porque ela é meu bróder!”.

No entanto, os tratamentos que o homem dava a essa mulher antes, ou os que permanecem ocorrendo a ela e outras mulheres por se associarem a um viés feminino, não passam a ser reproduzidos com os amigos homens. A menina é “parceira” porque vai no jogo de futebol, mas o cara não passa a ir nos eventos tidos como femininos.

Barney Robin
Descrição da imagem: Barney e Robin no laser tag, em How I Met Your Mother

Porque a questão não é misturar os tratamentos diferentes à medida que amizades crescem. Não é quebrar estereótipos, revelar intimidades. A questão é padronizar o tratamento dado a amizades mais íntimas segundo um conceito aceito. E o homem é o padrão aceito.

Com essa reprodução do padrão, a gente acaba mostrando para as mulheres à nossa volta, com quem nutrimos amizades, que as valorizamos por quão machonas elas conseguem ser. Não basta serem como desejam, precisam atender mais um parâmetro que só estabelecemos para o nosso bem.

Como não masculinizar?

Acredito que esse é o ponto mais subjetivo. Depende de empatia, de menos egocentrismo e menos falocentrismo (homem como centro do universo).

O que começa essa história toda, não só esse texto, é nossa dificuldade social em aceitar que podem, sim, existir amizades genuínas entre homens e mulheres.

Enquanto elas não puderem existir, todas as que existirem buscarão formas de se encaixar em parâmetros aceitáveis. Como o homem carrega mais privilégios, saímos na vantagem para estabelecer esses parâmetros.

Não só ouvi como já falei todas as frases citadas durante essa reflexão.

E essa:

Cíntia come igual homem!

E mais essa:

Joana bebe pra cacete, mais macho que o João!

E tantas outras as quais as mulheres lembram com mais clareza do que eu. Alterei os nomes, pois não é acusar o meu objetivo. Tudo aqui é um grande mea culpa, parte do processo que caminho.

Processo que me faz olhar para cada amizade que tenho hoje com mulheres incríveis e buscar enxergar as pessoas completas e complexas que ali estão. Eliminando a necessidade de vesti-las com estereótipos só para me proteger de minhas próprias inseguranças. Até o ponto em que encaro essas inseguranças para desenvolver as habilidades emocionais que estão faltando.

Objetivo de vida: a habilidade emocional do irmão de Charlie.

Um caminho que continuarei seguindo e que compartilho porque acho, de verdade, que todo mundo ganha. As mulheres, por não serem encaixadas em padrões que não querem. E você homem ganha se tentar também. Até uns anos de vida.

Gostou do texto?

Você pode receber as atualizações do Além do Roteiro inserindo o seu email abaixo e clicando em “Seguir”.