Kenneth Lonergan e Casey Affleck

Machester à Beira-Mar: a conexão entre o protagonista e o início da história

Tempo médio de leitura: 7 minutos

Como começar uma história? Não falo da primeira ou da segunda cena, mas do evento que de fato inicia a trama. Falo do incidente incitante, o propulsor da narrativa que estamos prestes a acompanhar.

Manchester à Beira-Mar consegue criar um evento que transcende o papel de início da história. Sua função na trama revela o brilhantismo do roteiro vencedor do Oscar de Roteiro Original.

No início do filme, após 10 minutos de caracterização do protagonista, não sabemos ainda que assistiremos a uma história que mescla linhas do tempo.

Vemos Lee (Casey Affleck) trabalhar como zelador, consertando encanamentos, eletricidade ou tirando o acúmulo de neve da calçada de prédios. Aprendemos sobre seu temperamento. Uma resposta agressiva a uma cliente que desvirtuou suas intenções. Uma briga no bar com dois homens de negócio que simplesmente o olharam.

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Descrição da imagem: Lee atende o telefone

A trama realmente começa no minuto 13. Lee recebe uma ligação. Sai imediatamente de sua rotina e pega o carro. Chega a um hospital após enfrentar o trânsito.

INT. UTI – SALA DA ENFERMEIRA – CONTINUAÇÃO. DIA

– e se aproxima de GEORGE, 50, um pescador local, grande, pesado e abatido pelo clima, que está conversando com a ENFERMEIRA IRENE, 40s. Eles reagem quando Lee se aproxima.

GEORGE

Oi, Lee.

LEE

Ele tá morto?

Os olhos de George se enchem de lágrimas. Ele não sabe como reagir.

ENFERMEIRA IRENE

Sinto muito, Lee. Ele faleceu há cerca de meia hora.

LEE

Oh.

ENFERMEIRA IRENE

Sinto muito.

Lee olha para o chão, mãos na cintura. A enfermeira Irene dá um estranho afago em seu braço. Lee encara o vazio por um momento.

São 26 segundos que gritam significado. A relação que outras pessoas tem com Lee, seu esforço em controlar reações – já vimos o que acontece quando ele não controla.

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Descrição da imagem: Lee recebendo a notícia

No entanto, o mais importante é o fato de ele chegar meia hora atrasado (uma hora no filme). Exatamente o tempo que o engarrafamento tomou dele o tirou a última chance de ver seu irmão mais velho vivo.

Nós não sabemos, ainda, porque essa cena, esse instante, é brilhante. Só podemos perceber isso assistindo a todo o filme.

O padrão de um incidente incitante

Os eventos que iniciam uma história, que mudam bruscamente a direção da vida da personagem, são naturalmente importantes. É fácil entender a relevância de Walter White descobrir que tem câncer em Breaking Bad. O desequilíbrio que Frank Underwood sente ao ter o cargo de Secretário de Estado negado em House of Cards. A necessidade que surge em Frodo quando Gandalf o apresenta o Um Anel. A curiosidade de Diana quando Steve Trevor aparece em Themyscyra, em Mulher Maravilha. São eventos que ressoam por toda a trama, muitas vezes influenciando cada decisão do protagonista.

O mesmo ocorre com a morte de Joe (Kyle Chandler) em Manchester. A vida de Lee muda de rumo de repente, ainda que ele não saiba o quanto. A diferença para os muitos filmes que citei é uma: o incidente incitante em Manchester é parte da caracterização e construção de Lee, com uma intensidade que nenhum dos exemplos acima consegue replicar.

A estrutura em flashbacks

Sim, mesmo o câncer de Walter White não é tão incrível e conectado. Por mais impactante que ele seja “de cara”, se torna um detalhe com o tempo, até que desaparece, ainda que devesse ser terminal.

Manchester trata o incidente incitante de forma incomum, a começar por seu uso de flashbacks. Vamos entender com calma a forma.

Quando uma história trabalha com linhas do tempo diferentes, um fator curioso acontece. O início não necessariamente é o início de fato, podendo ser o meio da história ou até o final.

Alguns filmes tratam o evento inicial com bastante criatividade. “A Chegada” tem o incidente incitante logo no início, a chegada propriamente dita dos alienígenas. A primeira cena, no entanto, de Louise e Hannah, parece um flashback. Quando os alienígenas aparecem, na cronologia da história, parece ser um evento que acontece no meio, não no começo.

Ao fim, descobrimos que Hannah só existe no futuro. Só então entendemos que a chegada dos alienígenas é início cronológico tanto do filme como da história. Esse é o tradicional, de histórias lineares, mas nesse caso nos engana.

“Amnésia”, o filme que iniciou o fã-clube de Christopher Nolan, faz o oposto. Como a história caminha de trás para frente, o evento inicial do filme não é o incidente incitante da história, é seu clímax. A cronologia da história começa quando o assaltante invade a casa de Leonard e sua esposa e ele adquire sua deficiência na memória.

Manchester não nos engana com sua estrutura. Considerando o uso dos flashbacks, o incidente incitante está localizado da forma mais convencional possível. No início do filme, no meio da cronologia. Os flashbacks apresentarão o antes. No presente, caminhamos com Lee linearmente.

Quando o evento constrói o personagem

O valor desse incidente incitante, sua relação com Lee, é a falha inerente ao protagonista.

A morte de Joe, por si só, é o evento que inicia a história. Lee começará a cuidar dos arranjos do enterro. Apoiará o sobrinho, Patrick (Lucas Hedges), por alguns dias, até termos a revelação de que Joe o escolheu como guardião do filho no testamento. Nesse ponto, sua vida sofrerá outra virada brusca e seguiremos com a história.

Já que apenas a morte era suficiente para essa mudança, não havia razão, pensando apenas no andamento da trama, para Lee não conseguir chegar a tempo no hospital. Não chegar a tempo de ver seu irmão com vida.

Ao chegar atrasado, Lee falha.

ENFERMEIRA IRENE

Sinto muito, Lee. Ele faleceu há cerca de meia hora.

LEE

Oh.

ENFERMEIRA IRENE

Sinto muito.

Lee olha para o chão, mãos na cintura. A enfermeira Irene dá um estranho afago em seu braço. Lee encara o vazio por um momento.

Cerca de quarenta páginas depois, quando chega a revelação do testamento de Joe, aprendemos, junto com as memórias de Lee, sobre a tragédia da família. Ele perdeu suas três crianças. Por sua culpa. Por não colocar a grade na lareira.

No entanto, o pior não é ele ter esquecido a grade. É, na metade de um caminho de 15 minutos (ou seja, de 30 a 40 minutos para ida, compra e volta), ele ter percebido que esqueceu da grade. Ter achado que isso não seria um problema.

Apenas para ver sua vida desabar, meia hora depois.

Essa é a marca do passado de Lee, o evento mais traumático, que define o personagem.

Ao colocar Lee como guardião no testamento, Joe está oferecendo um tipo de redenção para o irmão. Cuide de meu filho, se conecte, volte a ter uma vida, vá além de só sobreviver.

O protagonista, no entanto, já começa essa história falhando de novo. Chegando atrasado de novo. Mesmo sem esquecer nada dessa vez, mesmo tendo consciência do tempo que levaria para chegar, como pode-se ver em sua conversa no telefone com o médico que avisou sobre Joe.

LEE

Alô… É o Lee… Oh… Quando foi?… Bem, como ele está?… Ok. É… Ok… eu, é… Não. Não, não faça isso. Eu vou agora mesmo… Ok, eu provavelmente estarei aí em uma hora, uma hora e meia se o trânsito não estiver muito ruim… Ok, obrigado.

Mesmo consciente do tempo, correndo, buzinando pelo caminho, Lee não chega a tempo. Falha, como falhou com a família no incêndio. O roteiro está nos dizendo, desde o início, que essa é a tragédia de Lee. É mais forte que ele, é um destino que ele não pode superar.

Um fato que se confirma ao final do filme, quando ele próprio admite que nunca superará o ocorrido.

Olhar para o incidente incitante de Manchester à Beira-Mar depois de chegar ao final do longa confere um novo peso a esse evento. O início do filme repete o passado do próprio protagonista, de alguma forma selando qualquer possibilidade de alternativa para Lee. O roteiro mostra como o passado do protagonista e o evento que inicia a história podem se conectar além de uma simples conveniência ou força externa. Digno de um vencedor do Oscar.

Bônus: Esse é o segundo texto de um exercício aprofundado sobre Manchester à Beira-Mar. A descoberta, cena a cena, do roteiro foi realizada aqui. No terceiro capítulo do exercício, fiz uma análise da construção de Lee, observando porque a história foca esse momento de vida do personagem.

Tem interesse em fazer o exercício você mesmo? Dividir o próprio roteiro de sua vontade em cenas? O Além do Roteiro está aberto para hospedar sua própria análise. Você faz, aprende, e publicamos com seu nome aqui. Se gostou da ideia, dá uma olhada nesse link para ver quais filmes já foram feitos. Nesse outro link, você vê como entrar em contato com a gente. Só vem!


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