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Game of Thrones – a construção e quebra da promessa de uma história

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Nota2: o texto contém spoilers até a sexta temporada de Game of Thrones.

O homem olhou para a mulher.
— As coisas que faço por amor — disse, com repugnância. Deu um empurrão em Bran.

Até o entorno da página 60 de “Guerra dos Tronos”, livro 1 da saga “As Crônicas de Gelo e Fogo” e origem da série homônima da HBO, paira uma dúvida sobre quem é o protagonista da história: Bran Stark (Isaac Hempstead Wright) ou Ned Stark (Sean Ben). O garoto é o ponto de vista do capítulo 1 do livro, enquanto seu pai parece convergir os elementos da história até então. É com Ned que ocorre o incidente incitante.

O empurrão de Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau) choca por muitos motivos, seja por tentar matar (e acabar tornando paraplégica) uma criança de 7 anos, seja por fazer isso ao potencial protagonista da história. A partir daí, a trama gira mais em torno de Ned. Acabamos não percebendo que George R. R. Martin, o autor da história, fez uma promessa nesse instante: ninguém está a salvo.

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Ah, não vai acontecer nada… QUÊ?

Toda história nos faz uma promessa em seu início. Talvez mais de uma. O gênero do terror, por exemplo, mantém a promessa básica do susto, do medo. Cada filme pode especificar essa promessa a seu modo, como “Corra!” faz com um público específico, detalhado em outro texto. A promessa pode ser de diversão, reflexão sobre aspectos humanos, drama. Algumas histórias colocam valores em cheque, quebram expectativas. “500 dias com ela”, também já analisado aqui, apresenta sua promessa via um narrador observador. O roteirista diretamente nos informa que aquela não é uma história de final feliz entre o casal esperado.

O bom contador de histórias trabalha com sua promessa, coloca-a à prova, sem jamais quebrá-la. Esse é o grande trunfo de Martin no final de “Guerra dos Tronos”, equivalente à primeira temporada da série. Sua promessa não é tão aberta quanto a da maioria das histórias. Nessa história, ninguém está a salvo. Nós leitores ou espectadores, ainda desacostumados com seu estilo, esquecemos ou negligenciamos a promessa feita no início do livro às custas de Bran. Então ele a ratifica, matando Ned.

O Norte se lembra.

Com essa cartada, nós leitores/espectadores nos tornamos o Norte. Ele nos desafia a lembrar que ninguém está à salvo. A cada capítulo ou episódio surge um “Valar Morghulis” (todos os homens devem morrer) em um diálogo para nos lembrar. Passamos a nos relacionar de outra maneira com nossos personagens favoritos. Há um medo real, pois o risco é real. A cada período de relaxamento ou euforia na torcida por um personagem, o golpe volta. A terceira vez, e mais forte, foi o Casamento Vermelho.

Entender a promessa de uma história é uma forma importante para o público de alinhar expectativas e evitar frustrações. “Breaking Bad” dá essa promessa já no título da série. Walter White (Bryan Cranston) está cruzando (foco no gerúndio) uma linha, e se você espera que ele cruze de volta…

“How to Get Away With Murder” repete o processo em seu título. O nome da aula dada por Annalise Keating (Viola Davis) não é à toa, ela ensinará que haverá mortes e haverá gente escapando da lei após acusações de homicídio. Quer todos os personagens vivos e felizes no final? Não veja nenhuma das três histórias citadas até aqui.

Para quem escreve, a promessa da história é um complemento ao tema. Cada história carrega uma visão de mundo de suas pessoas autoras. Existem, no entanto, inúmeras formas de se entregar o tema para o público. A promessa é a pessoa autora trabalhando o “como” antes de colocar qualquer linha no papel ou tela.

A série “House of Cards” discute o poder em cada episódio e evento de sua trama. Quantas histórias você já leu/assistiu/ouviu que falam sobre poder? Para fugir desse clichê, a série trabalhou a promessa de forma magistral em sua primeira cena. Ao colocar Frank Underwood (Aquele-que-não-deve-ser-nomeado) quebrando a quarta parede enquanto sacrifica um cachorro que foi atropelado, a história estabelece claramente quem é o protagonista.

Ele não sentiu qualquer conflito em sacrificar o cão. Com a quarta parede, a série transfere o conflito do protagonista para o público. “Você tem certeza que vai acompanhar essa história?” Uma promessa que combina com a experiência de assistir a um anti-herói. Uma promessa que, coincidentemente, combina com o conflito do público em se relacionar com qualquer obra que inclua Kevin Spacey desde as denúncias.

Spoiler da 5ª temporada de House of Cards
A ascenção de Claire Underwood (Robin Wright), quebrando a quarta parede e assumindo a presidência ao final da quinta temporada, é uma manutenção da promessa da série, que tentou jogar para o público o conflito de decidir entre os dois protagonistas.

Retornando à Guerra dos Tronos, a execução dessa promessa é grande motivo para o fenômeno que a história se tornou mundialmente. Raríssimas histórias tiveram a mesma coragem ao lidar com o público. Contudo, a partir do momento que a promessa é estabelecida, ela se transforma nos limites que mantém a coerência do universo da história. É justamente a quebra da promessa do autor, ocorrida na série, que a fez perder a unanimidade. Ainda que mantenha nível técnico sem precedentes para séries de televisão e uma audiência incrível, críticas deixaram de ser raridades nas últimas duas temporadas. Não adaptar com qualidade a trama de Dorne era um problema. O significado dos acontecimentos com Jon Snow (Kit Harrington) se tornou um problema maior.

Game of Thrones cena 2
Você não sabe nada, Jon Snow

Qual foi a quebra? Parece que nem todos os homens devem morrer. Após voltar do “outro lado”, o personagem bastardo passou a centralizar todas as profecias e teorias e ganhou uma capa de proteção do roteiro.

Ele não morre mesmo que afunde em um lago congelado com zumbis agarrados ao seu corpo. Não morre mesmo que esteja incapaz de lutar quando sai desse lago e é cercado por uma horda de mortos-vivos. Um tio morto-vivo desaparecido surge convenientemente.

Quando olhamos para a morte de Ned, de Robb, mesmo a de Jon, o padrão se revela na promessa de Martin de modo significativo. Todos eles morreram em consequência de decisões ruins. A honra teimosa e ingênua de Ned se perpetuou em Robb e Jon e cobrou o preço em todos. Personagens mais astutos como Tywin Lannister morreram por decisões burras ou podres que tomaram. Até nas punições em vida, como a caminhada de Cersei, esse padrão se mantém.

Veja bem, você não está lendo o relato de alguém que vai parar de assistir. Vou até o final. Cada episódio, no entanto, gera mais ansiedade para que o livro não cometa a mesma quebra de promessa. O frescor da história se perde, já que a garantia de segurança de um protagonista a torna mais parecida com outras histórias. Jon retornou da morte o mesmo, continua tomando decisões seguindo os mesmos conceitos que o levaram à sua morte. Veja como essa quebra diverge da própria visão de Martin, em entrevista à Time, falando da Senhora Coração de Pedra:

Pergunta: A Senhora Coração-de-Pedra surgiu porque era difícil dizer um adeus permanente a Catelyn?

Resposta: É, talvez. Isso pode ter sido parte. Parte também, é o diálogo sobre o qual eu estava falando. E aqui tenho que voltar a Tolkien de novo. E vai parecer que o estou criticando, o que acho que estou. Sempre me incomodou que Gandalf volta dos mortos. O Casamento Vermelho para mim em O Senhor dos Anéis é as minas de Moria, e quando Gandalf cai – é um momento devastador! Eu não esperava aquilo aos 13 anos, me pegou totalmente de surpresa. Gandalf não pode morrer! Ele é o cara que sabe de todas as coisas que estão acontecendo! Ele é um dos heróis principais aqui! Oh deus, o que eles vão fazer sem Gandalf? Agora é só os hobbits? E Boromir, e Aragorn? Bem, talvez Aragorn consiga, mas é simplesmente um momento enorme. Um envolvimento emocional enorme.

E então no livro seguinte, ele aparece de novo, e foram seis meses entre as edições americanas desses livros, que pareceram um milhão de anos para mim. Então todo aquele tempo eu pensei que Gandalf estava morto, e agora ele está de volta e ele é Gandalf, O Branco. E, eh, ele é mais ou menos o mesmo de sempre, exceto que é mais poderoso. Sempre me pareceu um pouco de trapaça. E à medida que envelheci e considerei isso mais, sempre me pareceu que a morte não faz de alguém mais poderoso. Aquilo, de certa forma, sou eu conversando com Tolkien no diálogo, dizendo “É, se alguém volta de estar morto, especialmente se eles sofrem uma morte violenta, traumática, eles não voltam bem como sempre.” Era isso que eu estava tentando fazer, e ainda estou tentando fazer, com a personagem Senhora Coração-de-Pedra.

Leia mais dessa entrevista aqui.

A promessa que Martin nos fez desde o princípio foi quebrada. Independente disso, Guerra dos Tronos vai seguir arrasando na audiência, incluindo a minha, até o fim. Vamos vibrar com muitas cenas de dragões e assistir a vídeos virais de reações do público com os fins de cada personagem que chegou até aqui. Só não vai parecer a mesma Guerra dos Tronos que nos fisgou nos livros ou no início da série.


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Apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva.