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Black Mirror 4×02: Arkangel — o aspecto cíclico das tragédias

Tempo médio de leitura: 12 minutos

Nota: essa é uma série de análises aprofundadas em aspectos técnicos sobre a quarta temporada de Black Mirror, feita para a Revista Subjetiva à convite do editor Lucas Machado e republicada aqui para mantermos nossos estudos no grupo do Facebook do Além do Roteiro. O texto contém spoilers sobre o segundo episódio da quarta temporada de Black Mirror.

É comum falarmos em “arco do personagem” quando queremos tratar sobre as mudanças pelas quais um protagonista passa. Ou mesmo para personagens coadjuvantes. Quais são suas transformações? Onde a pessoa começa, onde ela termina?

Falar em arco atrai pois somos tão ávidos por mudanças na tela como somos resistentes à mudança na nossa vida real. Mas se toda história carrega mudanças profundas, a coisa fica meio inverossímil, não é?

Por esse motivo, algumas histórias não provocam mudanças. Podem até apresentar oportunidades, mas terminam com protagonistas exatamente onde começaram. Essas são as tragédias. A base de uma tragédia é a não-mudança, a estagnação; o protagonista tem oportunidades de agir diferente e não age.

É esse o arco (ou a falta de) apresentado em Arkangel. Para sermos capazes de visualizar, sentir a tragédia, a história precisa funcionar de forma cíclica. Ou jamais perceberíamos que o fim é uma estagnação em relação ao começo. Esse aspecto cíclico estará no roteiro, na fotografia, e cada elemento que a produção tiver o cuidado de abordar.

A necessidade da protagonista

Tudo o que precisamos saber sobre Marie, a mãe que acompanharemos por todo o episódio, é apresentado na primeira cena.

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O amarelo dessa cena combina com a inocência da infância que está para nascer ali. A cor clara ajuda a compor esse clima leve, de um momento puro.

Junto ao amarelo, vemos um verde nos panos que fazem a divisão que impede Marie de ver o nascimento, ou nos móveis dos médicos, aos quais Marie não tem acesso. O verde é interessante aqui, pois o tom usado remete a uma cor de nojo. Vamos guardar essa informação.

Marie vive um momento de forte ansiedade, esperando pelo nascimento da filha em uma cesariana. Essa ansiedade se transforma em aflição quando Sara nasce sem chorar ou gritar. Vira desespero.

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Imóvel na maca, Marie está impotente. Esse momento cria em seu âmago a necessidade que a impulsionará em todas as ações ao longo do episódio. O controle sobre a filha.

Sendo o amarelo e o verde as cores que dominam a cena, eles absorverão o significado embutido pelo roteiro na história. Se aqui Marie passa a necessitar do controle, o amarelo e o verde acompanharão essa necessidade. Veremos como.

A infância inocente

A necessidade está estabelecida, mas ainda não temos uma história. Uma premissa, um evento que iniciou uma série de outros eventos. Mãe e filha apenas seguem suas vidas.

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A cozinha é tomada por amarelo. A infância de Sara é inocente, pura. Essa condição nos acompanha quando Marie decide levar Sara ao parque.

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Os elementos amarelos do parquinho atraíram Sara. É nesse momento, com a distração de Marie, que a filha some, perseguindo o gato. O amarelo, mais uma vez, significa uma cena de impotência da mãe. Aqui, temos o chamado incidente incitante, o evento que dá início a história, que elimina a estabilidade prévia.

Ao reencontrar a filha, tendo a necessidade de controle trazida à superfície por um evento tão traumático, a mãe decide entrar no programa Arkangel, em fase de testes. É um chip implantado no crânio da filha, capaz de monitorar todos os sinais vitais da menina, enviar sinal GPS e alertas de perigo por variações hormonais, gerar um feed ao vivo do que a menina enxerga e até filtrar elementos que provocam picos emocionais.

A cena no laboratório Arkangel tem vários elementos importantes.

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O primeiro é Sara vestindo o amarelo, a cor de sua inocência. Essa é a última vez que veremos Sara usando o amarelo em seu figurino. Alguns elementos vermelhos pipocam na tela, podendo representar o perigo que o Arkangel representa e a família não percebe.

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O vermelho mais forte da cena aparece na roupa da cientista, indicando que ela, nesse momento, é a fonte do perigo. Mas outro ponto me chamou mais atenção aqui. A parede. Ela representa o Teste de Rorschach, o famoso teste da psicologia que circunda a pergunta “o que você vê?”. A associação com a funcionalidade de permitir ver no tablet do Arkangel aquilo que Sara vê ao vivo é direta.

Outro detalhe visual importante no cinema é a composição dos elementos na tela, que passa pelo posicionamento de objetos e pessoas, como acontece com o posicionamento no palco em peças de teatro.

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Marie está ao lado da imagem do teste, dá passos para o lado, fica na frente da imagem. A cena está, subjetivamente, dizendo que Marie está assumindo o controle sobre o que Sara vê. Algo que veremos acontecer explicitamente quando Marie assumir o poder sobre o tablet, tapando a visão da filha do cachorro que a amedronta e de outros elementos de adrenalina.

O amarelo do controle

Uma vez que adquire o Arkangel, o amarelo para de pertencer ao mundo de Sara e representar a impotência da mãe. A cor some do figurino da filha, aparecendo pela última vez no dia do implante da tecnologia, enquanto ela está no balanço. O adeus se dá no balanço, pois é esse o elemento usado na primeira transição de tempo. Em histórias que trabalham com eventos cíclicos, até mesmo essas repetições ajudam a compor o quadro.

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Uma vez que saiu da filha, o amarelo passa a acompanhar o ambiente que a mãe controla. O símbolo prévio de sua impotência se torna o símbolo de seu controle.

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Na esquerda, o amarelo ao redor de Sara. Na direita, o amarelo através dos olhos da filha no tablet. Quando olhamos apenas para Marie, no meio, ela é acompanhada de um verde na parede, do mesmo tom dos panos que a impediam na sala do parto.

Esse verde de “nojo” compõe o decaimento moral da mãe, apelando para o controle.

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O verde pela primeira vez dominando o ambiente. Ele é comum ao longo do episódio, toda vez que o decaimento moral é evidente.

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À medida que a infância de Sara avança, o amarelo e o verde ao fundo se multiplicam. As luzes ao redor do controle sempre são amarelas. A parede do quarto é verde.

Lembra do decaimento moral dessa cor? Sara, graças ao controle do Arkangel, não consegue absorver emoções necessárias, por não saber lidar com geradores de estresse. O bloqueio visual acaba retirando importantes limitações e aprendizados morais que ela viveria nessa fase da vida. Uma criança, contudo, busca aprender essas coisas, levando ao ponto em que Sara se mutila e dá um tapa na mãe.

O fim do controle

Marie acaba compreendendo o impacto que gerou na filha. O Arkangel até fora proibido em muitos lugares da Europa e seria proibido em breve no Reino Unido.

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Quando libera a filha do fardo, o figurino de Sara absorve elementos vermelhos, representando que agora ela precisará encarar perigos aos quais ela não tinha acesso antes. Sem o controle, o amarelo começa a sumir da casa.

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O armário foi trocado, as paredes pintadas. O verde também some do ambiente. O controle e o decaimento moral resultante foram embora da vida de mãe e filha.

Até mesmo o cabelo de Sara ficou menos amarelo. Em seu caso, isso combina com sua fase adolescente, descobrindo eventos mais “tensos”, diminuindo sua inocência. Suas roupas cada vez mais escuras ao longo do episódio andam em paralelo ao caminho de descobertas mais “obscuras” como o sexo sem proteção e as drogas.

Se a história fosse sobre a percepção de uma mãe com necessidade de controle de que ela precisava mudar, o episódio acabaria aqui. Mas estamos falando de uma tragédia. Marie é uma personagem estagnada, incapaz de mudar.

O ciclo da tragédia

A primeira dica que o roteiro nos dá, na linha do tempo de Sara adolescente, de que a lógica do controle retornará, está na vida sexual de Marie.

Uma personagem sem mudanças, fadada a repetir os mesmos processos, deve sair com pessoas que já fazem parte de sua vida.

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Na esquerda, seu paciente da fisioterapia. Ela diz “mesmo horário, semana que vem?”. Na direita, o paciente, anos depois, na cama com ela. Ele diz “mesmo horário, semana que vem?”.

Ela retorna para casa e decide ligar para a filha. Descobre que ela mentiu sobre ver um filme na casa de uma amiga. Chega em casa e resolve dar uma “espiadinha”, como diria Pedro Bial.

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Ela vê a filha fazendo sexo. A câmera vira e vemos o fundo verde retornando. Marie retornou ao processo de controle, à sua corrupção pessoal.

A partir desse momento, o trio amarelo+verde+Arkangel retomam conta da tela no restante do episódio.

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O controle de Marie também aumenta em alcance, afetando Trick, o ficante de Sara. Graças às drogas que ele forneceu, a mãe o caça e o ameaça se ele chegar perto novamente da filha.

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A porta do galpão se fecha, assim como o rapaz se fecha para a garota, ao ignorar o contato. Alguns elementos amarelos aparecem enquanto Sara tenta contato por telefone. O controle de Marie representado, forçando o distanciamento de Trick.

Repare como a fotografia de uma cena do casal sem ser observado muda com relação ao casal, no mesmo ambiente, sendo observado.

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Na primeira imagem, uma cor azulada, mais fria. O cabelo de Trick é todo preto. Na segunda imagem, Sara chega para confrontar o rapaz que a afastou, e um elemento amarelo nunca antes visto no local aparece. Quando a câmera inverte para mostrar Trick, uma luz amarela bate na lateral de seu cabelo. O controle de Marie afetando o que ele fala, como ele age.

A tragédia consumada

Uma tragédia cíclica precisa de um fim que retome o início. Para Sara se libertar do controle da mãe e continuarmos achando que estamos assistindo Black Mirror, alguém tem que morrer, perder a consciência ou algo bizarro do tipo. Mantendo a coerência do episódio e até punindo Marie por sua própria não-mudança, Sara precisava atacar Marie novamente.

Na cena do tapa na mãe, ainda criança, a parede atrás de Sara era verde, representando sua confusão moral naquele estágio. Após perder Trick, Sara embarca na mesma confusão moral.

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O Arkangel garantiu à Marie a capacidade de controlar o que Sara via. Filtrar o que ela não devia ver. Ironicamente, o filtro permitiu que Sara atacasse a própria mãe. Um filtro que apaga a linha que determina o limite da moral de ambas.

A morte de Marie aqui deixaria uma ponta solta, no entanto. A cena do incidente incitante. Para fechar o ciclo de vez, o episódio mantém Marie viva. Agora ela perdeu Sara de vez. Morreu para a filha. Sem poder acompanhar pelo tablet, a imagem de Sara parece se afastar até em sua memória.

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O ciclo se encerra com Marie vivendo o mesmo evento traumático.

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De alguma forma, parece que Sara consegue ter um final feliz ao se libertar da mãe. Uma impressão de que o final não é tão Black Mirror.

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Esse é o último plano do episódio. Lembre das cores ao longo do episódio. Dos significados que elas absorveram. Olhe com atenção. O que você acha que esse final diz?


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Editor, também escreve em

Marido da Patrícia, apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva e na Trendr.