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Black Mirror 4×05 — Metalhead: Em busca de significado

Tempo médio de leitura: 9 minutos

Nota: essa é uma série de análises aprofundadas em aspectos técnicos sobre a quarta temporada de Black Mirror, feita para a Revista Subjetiva à convite do editor Lucas Machado e republicada aqui para mantermos nossos estudos no grupo do Facebook do Além do Roteiro. O texto contém spoilers sobre o quinto episódio da quarta temporada de Black Mirror.

O episódio mais polêmico da quarta temporada de Black Mirror. Esse é o mínimo que se pode dizer sobre Metalhead. Após quatro análises mais técnicas, esse é o momento onde precisamos diminuir um pouco esse viés. Falar de significado. Se você preferir um termo técnico, falemos de tema.

O jogo das cores

Talvez a primeira questão seja: por que preto e branco? Há alguns motivos possíveis.

Metalhead apresenta um cenário distópico. A tecnologia não é uma mera ferramenta para o humano. Aqui, a ideia não é explorar a humanidade por sua relação com a tecnologia.

Nesse episódio, o navio zarpou. O mundo distópico e/ou pós-apocalíptico apresenta a humanidade lutando para sobreviver em um domínio de robôs.

A luta pela sobrevivência é a luta primária do ser humano, de qualquer animal. Do ponto de vista evolutivo, não é só primária como é a primeira. Esse tema é um retorno ao passado. O preto e branco, a ausência de cor, também é um retorno ao passado.

Um mundo onde a tecnologia é inimiga do ser humano tem no preto e branco o reforço dessa relação. A humanidade volta a um mundo mais analógico, pois perdeu o controle sobre o digital.

A ausência de cor também diminui nuances. Um mundo onde cada segundo vale a sobrevivência é mais próximo do binário. Lutar, morrer, correr, viver.

O preto e branco nos deixa mais perto de como os cães-robôs enxergam o mundo por sua visão digitalizada. O domínio é deles, portanto, o ambiente tem a cor que eles enxergam.

Todos os argumentos acima conferem razões para a escolha estética do episódio. O meu motivo preferido, no entanto, é esse aqui.

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É bonito pra porra. Ao invés de perguntar “por que preto e branco?”, minha dúvida é: por que não?

A simples saída do padrão visual de nossa era já estabelece um elemento básico. É difícil ficar indiferente à Metalhead.

Da completa admiração ao total desprezo, de quem acha genial a quem acha prepotente, usar o preto e branco nos tira do meio do caminho. Se arte é expressão, essa escolha estética nos força, enquanto público, a reagirmos. Logo, a nos expressarmos junto com ela.

A busca por respostas

Removidos da posição indiferente, passamos a buscar na obra o que causa tais reações. Por que isso que vejo me causa algo? Me tira do sério?

Então tentamos entender correndo o que está acontecendo ali, na história. Quando o episódio começa nos tirando da zona de conforto, buscamos reaver o controle. O controle do público é a compreensão sobre a trama.

A história de Metalhead é simples. Ou talvez não seja simples, mas a narrativa nos limita a um espaço e tempo simples. Tão simples que falta informação. Somos mantidos incapazes de alcançar a história. Não conseguimos reaver o tal controle.

Em Metalhead, estamos sempre buscando alcançar o episódio, o que ele está mostrando, o que ele quer dizer.

Quer um exemplo? Quantas discussões você viu sobre essa cena?

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Repare que isso acontece logo após ela acordar ao quase cair da árvore. Está de noite.
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A bateria acaba durante a noite, recarrega com a luz solar. O sol nascendo foi mostrado pouco tempo antes para justificar esse momento.

A teoria mais difundida é a da bateria. O robô descarrega, o que é perceptível pelos indicadores luminosos que Bella enxerga da árvore.

Mas isso não explica por que ela contava de mil a zero antes de jogar cada bala. Seria para não dormir enquanto a noite virava e o robô não podia se recarregar por luz solar? Ou seria para o robô gravar um tempo de hibernação do qual ela se aproveitaria depois para fugir? Talvez ela saiba que a bateria levará a noite toda para acabar, então escolheu um número tão grande para verificar a bateria em uma periodicidade que fizesse sentido e não acabasse com as balas?

E o que são aquelas balas que ela joga? Qual o tamanho do estoque que ela tinha?

Metalhead segue esfregando eventos em nossa cara sem se preocupar em explicar. Bella não tem tempo para explicar, não tem uma companhia ignorante que precise de informações. Por que, então o episódio explicaria?

Talvez os robôs tenham sido baseados em cães como uma alusão a cães pastores. Seriam eles criações humanas para proteger casas e coisas, como caixas e depósitos? Quando o sistema tecnológico se rebelou contra os humanos? Como venceu?

O fato de serem cães seria uma ironia com o melhor amigo do ser humano? Nos enganamos substituindo nossos amigos cães pela tecnologia?

E se, no fundo, Charlie Brooker só viu esse vídeo e pensou que tinha que fazer um episódio baseado nele?

Existe um motivo pelo qual a busca por tantas respostas não é recompensada em Metalhead. É porque não é a busca por respostas que interessa aos humanos daquele mundo. É…

A busca por significado

Quanto mais envoltos em tecnologia, mais buscamos por respostas e informações e explicações e motivações e teorias e gabaritos e dados e… chega.

Bella não precisa de respostas. Ela precisa sobreviver. Correr e lutar, com sorte não morrer.

Sobreviver, no entanto, não é humano. É somente animal. Um mundo que só nos dá a possibilidade de sobreviver nos desumaniza. Essa é a entrega do episódio em sua maior parte. Minutos tomados por tensão, ação, movimento.

A busca por respostas limita a capacidade de enxergar as exceções de Metalhead. Equipes cuidadosas na produção de um filme ou série sabem que a câmera é o meio. O que ela mostra e não mostra, nas mãos de profissionais capazes, sempre é carregado de motivos. Nesse episódio, as exceções são os respiros. Os raros momentos de alívio da tensão. Quando algo mais valioso que a própria sobrevivência captura a atenção de Bella.

São nesses momentos, em que algo supera o instinto, que a protagonista se aproxima de humanização. São instantes de busca por significado.

Em um mundo como o de Metalhead, o que significa ver Anthony morrer, mesmo não sendo essa a melhor opção para escapar?

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O que significa se arriscar para entregar um urso de pelúcia para uma criança sem muito tempo restante de vida?

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Repare que, na busca por respostas, a pergunta é bem diferente. É algo como “o que tem dentro desse urso?”. Deixa de ser o que significa um urso de pelúcia em um mundo como esse.

Brincar é como uma criança se expressa mais facilmente. Voltando a uma frase dita mais acima, se arte é expressão, brincar é uma forma de arte.

Falo de arte porque essa é, para mim, a cena mais importante do episódio. É a cena que quem busca por respostas esquecerá.

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Bella corre por sua sobrevivência. Não à toa ela acabou de encontrar munição para uma arma e a guardou. Ela perdeu dois colegas, precisa fugir do robô que a caça. Tudo por uma caixa de ursos de pelúcia, para entregar um brinquedo a uma criança.

Tamanho sacrifício faz Bella nunca parar. Ela só parou antes para tratar feridas, físicas ou da alma (a perda dos companheiros). Para mandar uma mensagem, tentar uma conexão. Essas são todas questões humanizadoras.

Contudo, o ponto onde ela para com mais impacto, onde a câmera faz questão de nos mostrar que algo a fincou ali, é quando vê uma guitarra e um piano. Uma imagem de um mundo normal. Passado. Idílico. Uma ideia, uma vida que ela nunca mais poderá ter.

Mesmo quando ela mandava uma mensagem para sobreviventes após a perda dos colegas, ela lembrou que o robô deveria estar captando o sinal. Lembrou que precisa continuar seu caminho de sobrevivência.

Já nessa cena, sua mente congela com tanta força que ela não lembra de mais nada. Somente a dor de seu ferimento, em um arrebate, a retira do transe.

Dois instrumentos musicais conseguem pará-la em sua missão de sobrevivência e em sua missão de entrega do urso. Black Mirror está fazendo uma ode à arte. Quando a tecnologia que criamos, na qual nos viciamos, nos supera, o que captura nosso olhar e atenção é a arte.

Se arte é expressão, existe algo que nos humaniza mais do que a arte?

Talvez seja por isso que Metalhead compete para ser o episódio mais odiado de Black Mirror. Não há nada na tecnologia do episódio que efetivamente nos quebre a cabeça. Não há uma ferramenta, um evento, qualquer coisa para a qual possamos apontar a culpa. Não há resposta. Só há o depois. O resultado. O que sempre esteve lá na série, por trás de bits e inovações, agora escancarado. O humano.


Você também pode ler reviews das outras temporadas de Black Mirror aqui e outras análises de filmes e séries aqui.

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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Marido da Patrícia, apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva e na Trendr.