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Black Mirror 4×06 — Black Museum: Os riscos de um plot twist

Tempo médio de leitura: 10 minutos

*Nota: essa é uma série de análises aprofundadas em aspectos técnicos sobre a quarta temporada de Black Mirror, feita para a Revista Subjetiva a convite do editor Lucas Machado. O texto contém spoilers sobre o sexto episódio da quarta temporada de Black Mirror.

O último episódio da quarta temporada de Black Mirror é um show para caçadores de easter eggs. Teóricos de linhas do tempo em crossovers e universos compartilhados foram à forra.

Seria toda a série parte de um mesmo universo? A pergunta que perpassa o público desde temporadas anteriores é basicamente respondida nesse episódio. Esse recurso é bastante atraente para a audiência. O custo é que a caça ao tesouro, com gabarito em alguma lista do Buzzfeed, nos desvie de um olhar mais profundo sobre a história do episódio.

Em Black Museum, toda a série é referenciada através de uma trama principal e três tramas auxiliares, que chamarei de subtramas. Tudo montado para criar um plot twist que finaliza o episódio. Investigaremos agora como essa escolha narrativa afeta a percepção da história. Como o roteiro é afetado por decisões narrativas. Já adianto: para mim, esse foi o episódio mais fraco da temporada. Prossigamos com cautela.

Teaser — iniciando a trama principal

No primeiro bloco do episódio, acompanhamos Nish na chegada ao Black Museum. Ela dirige por uma estrada reta, como é costume em finais de histórias, ao invés de inícios.

Black Mirror 4.06 cena 1

Chamei atenção para o fato pois protagonistas costumam partir em estradas retas quando já se transformaram. São cenas que encerram filmes. Finalmente esses personagens sabem para onde vão, quem são, após um longa inteiro de conflitos.

Colocar esse elemento no início do episódio é uma forma de mostrar que Nish sabe exatamente o que está fazendo. Quem é, para onde vai.

O desafio que isso traz para o episódio é: como esconder esse fato do público para manter um plot twist em segredo?

Quando ela chega ao posto para abastecer o carro com energia solar, alguns elementos são usados. Os ângulos de câmera e a movimentação da atriz são combinados para parecer que ela não sabe o que existe ali. Os cortes que acompanham a montagem do carregador do carro no porta-malas geram uma rima visual e chamam atenção para a necessidade da recarga. Escondendo que aquilo, na verdade, é uma justificativa, não uma necessidade.

O principal elemento, no entanto, são os óculos escuros. Um bom exemplo de um simples acessório de figurino cumprindo função narrativa. Dizem que olhos são a janela da alma. São também uma ferramenta importantíssima de atuação em qualquer trabalho com câmera. É nos olhos, na maioria das vezes, que se concentram os closes ou planos fechados.

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Junte os óculos com os ângulos de câmera e nunca sabemos exatamente para onde Nish está olhando. Precisamos nos basear no pescoço, na direção de sua face. Prato cheio para errarmos, como aqui:

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O primeiro elemento que chama atenção nas imagens acima é o carro. O movimento de câmera nos leva então para outro letreiro dizendo “Black Museum, Rolo Haynes”. Quem fica no centro, no entanto, é o ar condicionado.

Porque faria tanto calor dentro do museu, se há um ar condicionado aparentemente em condições? Era para esse objeto que Nish olhava, enquanto nos distraíamos com o letreiro. Uma pista plantada para a recompensa do plot twist no final.

Ato Um — Apresentando a narrativa

No texto de Crocodile, comentei sobre o papel do primeiro ato na apresentação da história, dos personagens. É o bloco da história que contém, geralmente, o incidente incitante, aquele evento que dá a partida, sem o qual a trama não começa.

Em Black Museum, temos uma exceção. O incidente incitante está fora do episódio, anterior a ele; algo que só descobriríamos no fim, com o plot twist. Desde o “fade in” — termo comum a roteiros para representar a tela preta do cinema se transformando na primeira imagem — já estamos vendo a história se desenrolar. É o tipo de escolha de roteiro que funciona como uma faca de dois gumes.

Para manter o elemento surpresa desejado, a narrativa sacrifica o início do episódio, retirando o impacto que um incidente incitante costuma ter. Para lembrar o que é esse impacto pelos exemplos da temporada, pense em Nanette encantando Daly em USS Callister. Ou Marie, a mãe, perdendo Sara no parque em Arkangel. Ou a graça do encontro de Frank e Amy em Hang the DJ.

Essa escolha retira os componentes mais emocionais desse bloco do episódio, tornando o começo mais moroso. Sobra apenas a apresentação para preencher o primeiro Ato.

Falando em apresentar, não conhecemos apenas personagens e enredo. Temos contato também com a forma da narrativa. Como essa história será contada?

Tal qual uma visita guiada a um museu, Rolo faz o papel de narrador. Curioso que, na tecnologia avançada de Black Mirror, o museu da série não tenha formas mais interativas de imersão nas histórias dos objetos.

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As muitas faces do diabo
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O verde da corrupção moral no fundo quando Holo aparece. Assim como ocorreu em Arkangel.

À medida que avançamos pelas subtramas que Rolo narra, fica evidente a preocupação do episódio em segurar qualquer coisa que atrapalhe no plot twist.

Um modelo interativo que levasse Nish para dentro de cada subtrama, por exemplo, nos daria um olhar profundo sobre a personagem. Ao invés disso, ela é uma espectadora, tão externalizada quanto nós, assistindo ao episódio. O que protege o segredo, mas não a torna empática ou marcante. A única pessoa sobre quem aprendemos é Rolo, por seus comentários e reações às suas próprias narrações.

Esse é o principal trabalho de uma boa narração no cinema. Revelar o personagem que narra, usando os eventos narrados como ferramentas. Tal qual Taxi Driver, Os Bons Companheiros, Um Sonho de Liberdade, dentre muitos exemplos. Está aí um dos meus incômodos com o episódio, mas chegaremos lá.

As pistas estão sendo plantadas. O calor, por exemplo, além de pista por ser parte do plano de Nish, constrói visualmente o vilão em Rolo. Ele fica cada vez mais afoito, suas reações às próprias histórias se tornam mais emocionais. O calor é uma forte alegoria ao inferno, revelando ali o diabo. Essa análise do Farofa Geek faz um excelente trabalho detalhando essa alegoria no episódio.

Subtramas e mais subtramas

Com a narração da história do doutor Dawson, seguida pela história de Carrie, o episódio revela sua força para os fãs das tecnologias conceituais desgraçadoras de cabeças, como Nosedive ou Playtest. Ao mesmo tempo, revela sua fraqueza para os fãs dos momentos mais contemplativos, intimistas, como em Be Right Back ou San Junipero. Não que os fãs do último estilo tenham necessariamente desgostado de Black Museum. Mas, se faltou algo ao episódio, é esse algo.

Afinal, que outro motivo a história do doutor Dawson tem de existir se não o de introduzir a capacidade de uma pessoa sentir as sensações de outras? Levado a um caso extremo, que garante o choque que faz Black Mirror famoso, ok. Mas, em termos de função, é um bloco pobre. Ele não cumpre qualquer papel para Nish. Só caracteriza Rolo. Apresenta uma tecnologia que será reapresentada no próximo bloco em outra roupagem.

A mesma coisa pode ser dita da segunda história. A tecnologia que permite a Carrie viver dentro do cérebro do marido é uma evolução da capacidade de sentir o que outro ser humano sente. O método em si é relevante porque a última revelação do episódio é o fato de a mãe de Nish estar dentro dela.

Mais uma vez, além de apresentar a tecnologia necessária, qual a função narrativa? Humanizar Nish porque ela pega o macaquinho Carrie na saída? Precisamos esperar até o último fio de cabelo do episódio para que a protagonista (em teoria) seja aprofundada por sua decisão.

Black Mirror 4.06 cena 7
Dica: não compre um carrinho de bebê roxo! Para quem não leu as outras análises da série, roxo costuma ser a cor que anuncia a morte no cinema.

No fundo, essas mini-histórias serviram ao aprofundamento de Rolo, e compuseram o castigo final de Clayton, o presidiário grande trunfo do museu. Nada que as torne indispensáveis à trama.

Um exemplo de como subtramas podem ser essenciais está em Black Mirror. Chama-se White Christmas. Diz aí, de cabeça e rápido, quais as subtramas do especial de natal. Qual a trama principal?

Chegar nessa resposta é difícil porque o roteiro está muito bem amarrado. Cada evento contado é essencial para a história, é indispensável. Tudo de supérfluo foi cortado fora.

Não é o que acontece em Black Museum. As histórias introdutórias são supérfluas. Luxos. O que estimula momentos gráficos como o fim do doutor Dawson, para compensar a falta de profundidade.

Em essência, assim como Nish está ganhando tempo para o veneno fazer efeito em Rolo, o episódio está ganhando tempo. Nos distrai com subtramas e tantos easter eggs que parece que entramos nas Lojas Americanas na Páscoa. O episódio ganha tempo porque esticá-lo potencializa o efeito surpreendente do plot twist.

Mostre, não conte

A frase de efeito que domina o cinema não o faz sem razão. Black Museum usa a narração em todo o seu tempo, e esse artifício pode dar muito certo, como nos clássicos que citei anteriormente. No entanto, a linha é tênue.

Como falado acima, Rolo é construído fortemente por sua narração. As palavras que usa, a forma como reage, a empolgação que constrói na voz à medida que o tempo passa, tudo isso constrói eficientemente o vilão. Até o ponto em que, no final, com Clayton, ele basicamente confessa seus piores pecados com base na crença de que ninguém se importa com um negro presidiário. Apesar de a última parte ser uma boa crítica, o nível de confissão do final foi um clichê desses que incomodam.

Mas não foi só ele. Quando o plot twist se revela e Nish domina a situação, ela passa a contar sobre o sofrimento causado por Rolo. Os protestos que tentaram acabar com a atração e prejudicaram o museu. A frase de efeito da “próxima hashtag” que apagou os protestos. A história da mãe visitando. Um caso clássico de exposição.

É aí que o episódio mostra em profundidade o peso das escolhas de focar em um plot twist. Tudo que Nish narrou em poucos minutos daria um episódio profundo sobre os efeitos do sistema criminal, os efeitos colaterais do sofrimento como arma de espetáculo, a hipocrisia social dos protestos que se cansam do mesmo assunto. Como tudo isso foi condensado em uma narração vingativa, nada disso ganhou profundidade.

Pergunte-se: você vai lembrar de Black Museum porque Nish não sai da sua cabeça, ou por causa dos easter eggs?

Aprofundando a pessoa errada

De todos os pontos que me incomodam no episódio, o mais importante é a hipocrisia do próprio roteiro. Toda a história de Clayton é uma ferramenta para o episódio apontar o dedo contra a supremacia branca, olhando para as questões raciais.

É muito legal ver uma narrativa dando espaço para uma mulher negra simplesmente se vingar, um espaço geralmente permitido apenas para homens brancos nesse gênero de histórias.

Contudo, esses caras sempre são o foco de profundidade de suas histórias. Em Black Museum, enquanto o roteiro visa criticar a supremacia branca, o personagem com mais tempo de tela, mais atenção, voz, que controla a narrativa, é Rolo. O supremacista branco. Sendo que ele nem é desenvolvido como complexo. É unidimensional, como necessário para concluir a alegoria de que ele é o diabo.

No fim, Clayton continua sofrendo pela eternidade em centenas, se não milhares de souvenires. Porém, parece que tudo acabou bem, com vingança concluída, quando apenas um multiplicador desses elementos foi eliminado. Clayton continua sofrendo por aí. Por quê? Porque o problema não é Rolo. É sistêmico.

Nenhum plot twist do episódio trata disso.

Em USS Callister, coloquei a seguinte frase: “Quem sabe chegamos a uma visão conjunta da temporada ao final dessa série de textos.”

Esse é o próximo e último passo da série. O que podemos tirar da quarta temporada como um todo? Será que dá para unificar? Bom, só posso desejar boa sorte pra mim.


Você também pode ler reviews das outras temporadas de Black Mirror aqui e outras análises de filmes e séries aqui.

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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.