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Alias Grace – Simon Jordan e o mito da mulher incompreensível

Tempo médio de leitura: 12 minutos

Nota: o Além do Roteiro tem um grupo no Facebook! Acessa o link, pede para participar e chama as amizades. Vamos conversar sobre essa e muitas outras análises de filmes e séries na internet por lá. O texto a seguir tem spoilers da série Alias Grace, da Netflix.

É impossível assistir a Alias Grace e se engajar com a história sem ser fisgado pela protagonista. Grace Marks (Sarah Gadon) captura o olhar já na primeira cena, testando expressões no espelho enquanto narra sentimentos. Aquela não é uma mera exibição, um jogo para o público. É um treinamento. Mas um treino para o quê?

A autora do romance Alias Grace, a canadense Margaret Atwood, repete uma qualidade de sua obra que explodiu em 2017, The Handmaid’s Tale. Ela desenvolve personagens masculinos complexos que aprofundam os obstáculos enfrentados pelas personagens femininas. Eles não são apenas obstáculos pessoais. Também alimentam os sistemas criticados nas obras. Grace Marks é uma mulher real, que viveu no século XIX e foi acusada de homicídio.

Já o psiquiatra Simon Jordan (Edward Holcroft) não. Este é uma criação da autora.

Personagens fictícios em histórias reais costumam servir como personificação de questões ambientais, sociais, sistêmicas. É o caso do engenheiro Paul (Jim Parsons) no recente filme Estrelas Além do Tempo.

São muitos os clássicos criados por homens que se debruçaram sobre análises do masculino. A obra de Margaret Atwood nos traz outro olhar. Como uma mulher sente e enxerga o masculino?

Chega de enrolação. Para responder sobre o treino de Grace, vamos desviar o olhar para o doutor Jordan; entender seu papel e o papel da masculinidade na série da Netflix.

Os outros homens

Desde quando Grace está presa? Ah, desde que foi condenada pelo homicídio de Nancy Montgomery (Anna Paquin) e Thomas Kinnear (Paul Gross).

Não!

Grace está presa desde sempre. Presa aos papeis de uma mulher em uma família, reforçados após a morte da mãe e com a dependência das irmãs e irmãos. Presa a um pai alcoolista e abusivo (Jonathan Goad). Após sair de casa para conseguir um trabalho, fica presa à família que a “emprega”. Nesse emprego, encontra algum refúgio na amizade com Mary Whitney (Rebecca Liddiard). Mas a própria prisão de Mary, vivida na forma da paixão impossível pela diferença hierárquica para o herdeiro da fazenda, afeta toda a conjuntura de Grace.

Através de Mary, Grace vê a prisão do corpo da mulher na questão do aborto. Talvez objetivamente, mais à frente, pela possibilidade de Mary ter entrado em seu corpo após a morte.

Grace então muda de emprego, estando ainda restrita às mesmas obrigações e limitações na fazenda de Thomas. Até o derradeiro homicídio, cuja condenação a leva para instituições prisionais como o hospício e a cadeia.

Grace está presa sempre. Sempre devido a outros homens. Os guardas abusivos (John Tench e Jonathan Koensgen), o pai abusivo, os donos de propriedades abusivos, o sistema abusivo. Até um colega de trabalho/servidão como James McDermott (Kerr Logan) sempre estabelece sua superioridade frente à Grace somente por ser homem.

Alias Grace cena 1

Através de todos esses ambientes e personagens, o roteiro estabelece o próprio sistema. Homens dominam, comandam, decidem destinos e os acompanham após as decisões.

Esse mesmo sistema pune homens e mulheres de maneiras distintas. Para McDermott, também acusado pelo mesmo homicídio, a morte é imediata. Para Grace, a “benevolência” de continuar viva, pela figura mais frágil que é (uma mulher). A “benevolência”, no entanto, se segue da ampliação dos abusos como punição.

É esse mesmo sistema que decide dar uma chance à Grace após 15 anos presa. Pois ela é apenas uma mulher, uma figura frágil, que “pagou o suficiente”. Não é à toa que quem defende essa causa é um senhor, o reverendo Verringer (David Cronenberg), alguém que nem conhece a protagonista. Um homem ancião com alguma posição relevante na sociedade. Ele simplesmente tem uma opinião e a aplica; esse é seu poder natural.

A forma que esse sistema encontra para aliviar seu remorso compartilhado é chamar um jovem especialista no incipiente ramo da psicologia.

Dr Jordan, o Salvador

Simon Jordan surge como um homem diferente dos outros. Ele não cede à pressão do reverendo por uma absolvição rápida, pois sua causa é o conhecimento técnico. Ele quer estar certo sobre o parecer que o pediram.

Além do apreço pela ciência em nascimento, ele não é agressivo como os guardas ou o pai de Grace. Ele tem interesse real em ouvir. Portanto, interesse real em escutá-la. De início, um interesse profissional, mas real.

O lado profissional é o primeiro aspecto de salvador projetado pela história. Nesse caso, uma alcunha que Jordan recusa em seu discurso, mas que é imposta pelo reverendo e o grupo que acompanha o caso de Grace. A expectativa do grupo é clara; portanto, a expectativa do sistema, de que seja um homem o salvador, é clara.

Essa é a sombra que paira sobre Jordan em sua visita à prisão, o primeiro encontro com a protagonista. Como diz Grace, no início do Piloto, em sua carta narrada para o psiquiatra:

Eles pensaram que você conseguiria encontrar respostas onde outros não conseguiram.

O Primeiro Encontro

Jordan recebe uma iluminação melhor do que Grace. Ela não sabe que tipo de doutor ele é, mas Jordan está coberto por claridade desde o início. Grace é o mistério.

Ela sabe que é o mistério, pois essa é a posição da mulher no senso-comum. Um ser incompreensível, tomado por hormônios e emoções.

Você não vai acreditar em mim, senhor. De qualquer forma, já foi tudo decidido e o que eu disser não vai mudar nada. Você deveria perguntar aos advogados, juízes e jornalistas, eles parecem saber minha história melhor do que eu mesma.

Essa frase é de singular importância para a história por escancarar a falta de voz da mulher no todo e sobre si. A primeira questão é: se a mulher não pode nem falar e se definir, como ela pode ser compreendida?

A segunda questão é o fato de que Grace sabe como o sistema funciona. Perambulando sob controle de tantos homens e instituições majoritariamente masculinas, em tantos ambientes, ela entendeu as regras do jogo.

É também aqui que a falácia de Jordan já aparece pela primeira vez. Ele recusa a alcunha de salvador, mas não deixa de se perceber nela.

Eu gostaria de te ajudar, Grace. Se você tentar falar, eu vou tentar escutar.

Essa é a resposta imediata de Jordan à frase destacada de Grace. O jogo de câmera nos ajuda a entender o que acontece aqui. A conversa varia de ângulos sobre os ombros de um dos personagens para planos fechados (os momentos em que a câmera enquadra apenas os rostos) e vice-versa.

Quando Jordan tenta quebrar o gelo e entender Grace, oferecendo a maçã, um plano fechado nos aproxima dele. Ele dita a conversa aqui, portanto, tem o poder.

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A configuração muda no momento em que ela pergunta se ele é um pregador. Agora é ela quem obtém o poder na conversa. É o doutor quem tem algo a esclarecer, a explicar.

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Nesse momento, Grace está tentando entender Jordan. Portanto, a direção mantém um plano fechado em Grace, aquela com quem devemos empatizar, mas muda a visão sobre o doutor. Olhamos Jordan por sobre o ombro de Grace, o máximo de ponto de vista da protagonista que podemos ter naquele ambiente apertado.

Essa configuração termina, com a câmera voltando a fazer um plano fechado nos dois personagens, exatamente na frase destacada de Jordan.

Eu gostaria de te ajudar, Grace. Se você tentar falar, eu vou tentar escutar.

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Ao dizer que gostaria de ajudá-la, ele está reavendo o poder na conversa. Por afirmar a capacidade de ajudá-la e por embutir alguma benevolência nos termos usados. Não quer dizer que Jordan é um crápula. É o primeiro a se colocar no papel de escutá-la, o que já é um grande salto naquele contexto. Ele também dá garantias que pretende cumprir, para estabelecer uma relação de confiança. No fundo, contudo, ele se sente um pouco salvador.

Se você tentar falar, eu vou tentar escutar

Essa se torna a dinâmica entre Grace e Jordan nas entrevistas diárias. Conhecemos a história da protagonista desde a mudança da família para os Estados Unidos, por navio. Da morte da mãe ao julgamento dos assassinatos, com flashes de algumas das punições posteriores.

Jordan de fato escuta Grace. Tanto que começa a perder sua visão de prioridade.

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Sua intimidade com a paciente cresce ao ponto em que ele próprio começa a se imaginar como salvador de Grace, em uma espécie de romance proibido.

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Os abraços do doutor em sua imaginação sempre a cobrem com o tamanho do seu corpo. Ele a envolve como quem oferece proteção, conforto, justamente aquilo que sente que Grace não tem à disposição.

Todavia, mesmo sendo fisgado, atraído pela protagonista, o psiquiatra não a entende. Essa dinâmica é mostrada principalmente pelos relatos de trabalhos diários da mulher, tarefas que o homem sequer enxerga. Jordan precisa que Grace explique várias dessas tarefas, o que continuou insuficiente.

Por um lado, ele pode pensar “quero entender sua mente, preciso entender sua realidade”. Por outro, ela pode pensar “sequer entende minha realidade, quer entender minha mente?”.

Costurando o destino

Dentre as tarefas diárias, Grace mantém uma durante as entrevistas, a costura. É comum que planos fechados sejam feitos destacando seus dedos em atividade. Por que tanto destaque?

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Duas coisas são reveladas pela costura de Grace enquanto fala com Simon. A primeira é a ideia de a protagonista tecer seu futuro o tempo todo. A segunda questão é o fato de ela nunca errar ou parar de fazê-lo. Mesmo falando toda a sua história, passando por momentos emocionais. Para ser capaz de fazer isso, tanto a costura quanto a fala devem ser automáticas. A dinâmica é tão fácil que parece…. Ensaiada. Ela não está costurando um tecido, está costurando Jordan a seu bel prazer/propósito. Está aplicando seu treino.

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Essa é a lição de sobrevivência de Grace Marks. Se não pode derrubar o sistema, use-o. Foram anos, décadas, mas ela conseguiu sobreviver se adaptando às regras do jogo.

Proteção ou controle?

Quanto mais Grace costura seu próprio destino, mais Jordan se perde em emoções que interferem em sua avaliação.

O homem gentil e atencioso do início encanta a dona do estabelecimento onde se hospeda, Mrs Humphrey (Sarah Manninen). Ele a resgata de apuros quando esta é abandonada pelo marido e fica sem sustento. Compra e faz comida, adianta pagamentos.

É a primeira demonstração, pelas ações de Jordan, das pistas de que ele se sente um salvador. Indo além dos discursos e devaneios destacados acima, a autoimagem do salvador se solidifica. Essa é a principal função narrativa de Mrs Humphrey. Ser um espelho de Jordan, do que ele almeja inconscientemente com Grace.

A proteção do doutor por Grace, representada em suas imaginações, se acentua com o retorno de Jeremiah (Zachary Levi).

O dito cientista que aparece nos últimos episódios ameaça o parecer técnico de Jordan. Entretanto, fica claro que a disputa vai além da comprovação científica de cada teoria. O doutor tem ciúme do toque do hipnotizador em Grace.

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Quando lembramos de todos os outros homens presentes na série, notamos o profundo controle sobre o corpo da mulher pelos homens. Pelo poder físico, econômico ou social, as mulheres são usadas ou mantidas onde a sociedade julga que se deve.

Jordan foge à lógica do domínio do corpo da mulher no início. Sua índole diferenciada da de outros homens o distancia desse padrão. Contudo, essa distância só vai até a “página dois”.

O doutor não se destaca pelo domínio físico, mas pelo mental. A psiquiatria é seu habitat natural. É ali que ele tenta entender Grace. Ser o único a entendê-la representaria uma outra forma de controle, que nenhum homem conseguiu sobre ela.

A mulher incompreensível

Das tarefas diárias que Grace ou outras mulheres faziam e Jordan não entendia, até as indicações de uma possessão do corpo de Grace por Mary Whitney, constrói-se o impedimento do doutor. Ele não consegue compreender a mente de Grace. Não consegue sequer compreender a realidade das tarefas domésticas desempenhadas por mulheres. Como entenderia algo mais complexo como uma mente? Ou duas em uma?

Essa incapacidade de alcançar Grace o torna cada vez mais obcecado, passando a imaginá-la quando Mrs Humphrey vai para sua cama seduzi-lo.

O último episódio faz um belíssimo papel ao retornar ao Piloto em suas demonstrações. Resgatando a frase da protagonista:

Você não vai acreditar em mim, senhor. De qualquer forma, já foi tudo decidido e o que eu disser não vai mudar nada. Você deveria perguntar aos advogados, juízes e jornalistas, eles parecem saber minha história melhor do que eu mesma.

Antes da hipnose, Jordan vai até o advogado do caso de Grace. Ali, ele escuta sobre como ela supostamente se apaixonava por figuras masculinas salvadoras, o que aumenta sua confusão – se ele não se enxergasse salvador, não haveria confusão. Ele foi buscar as palavras de outro homem, ouviu-as uma vez em uma conversa e, ao ouvir do advogado que a considerava culpada, deu a essa versão mais credibilidade do que às seguidas e longas entrevistas com Grace.

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No último golpe, após ser abalado pelo processo de hipnose a que a protagonista foi submetida por Jeremiah, ele usa a mulher que estava interessada como “substituta”. Ele toma o corpo de Mrs Humphrey violentamente, pensando em Grace. Tal qual os outros homens sempre fizeram com os corpos femininos.

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“Eu sempre quis fazer isso com outra pessoa. Não você”

Por não compreender – ou seja, não dominar Grace – Jordan se rebaixa ao nível dos outros homens.

A protagonista, ao declarar o sistema que já enxergava lá no Piloto, acabou por declarar o próprio doutor. Mesmo o melhor homem, em Alias Grace, ainda era só isso. Mais um homem. Determinando a mulher como incompreensível da mesma forma.

Não podemos perder o significado aqui. A série mostra como a vitória da mulher nesse ambiente é no máximo uma compensação mínima. Não nos deixemos enganar. É Grace quem sofreu por 30 anos presa em instituições masculinas, sob constantes abusos. Fora os 16/17 anos presa por papeis, amarras sociais e mais homens abusivos.

É da mulher o direito de enlouquecer em um sistema enlouquecedor como esse. Ser Jordan, ao invés de Grace, quem enlouquece ao final de tudo, é a grande ironia de Atwood e da vida real. Afinal, as mulheres estão aí, firmes e fortes apesar de tudo, não é mesmo? Se há algo incompreensível e enlouquecedor nas mulheres, é essa capacidade de resistir.

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Você também pode ler outras análises de representações masculinas em histórias aqui. Para outros tipos de análise, pode seguir por aqui.

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Yann Rodrigues
Editor, também escreve em

Apaixonado por entender narrativas. Das histórias que nos encantam em páginas e telas, às narrativas que nos guiam ou aprisionam na vida.