Capitão Nascimento

Conceitos #4 — Os Objetos de Desejo do Capitão Nascimento

Tempo médio de leitura: 12 minutos

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Lá no início do AdR, foi iniciada uma série de textos focada em conceitos de histórias. Falamos de Paradigma, Incidente Incitante e Conflitos já faz um tempo. Mas nunca respondemos a pergunta: o que o protagonista quer?

Hora de falar do poder dos objetos de desejo em uma história.

A perda de equilíbrio

Para olharmos com cuidado para o que uma protagonista deseja, precisamos lembrar do incidente incitante. A primeira definição que exploramos lá atrás foi:

Incidente incitante é o primeiro marco de qualquer história

Essa é a parte mais repetida em vários textos do site. Por vezes, a segunda parte da definição aparece:

É também um desarranjo radical na vida do protagonista.

O incidente incitante é um desequilíbrio intenso. Geralmente, é aí que paramos de falar sobre ele. Podemos até fazer um texto explorando usos específicos desse conceito como em Manchester à Beira-Mar. Contudo, o evento de partida tem um efeito a mais em qualquer história, bem menos explorado e bastante direto.

O incidente incitante gera um desejo na protagonista.

Objeto de desejo consciente

Um evento capaz de causar um “desarranjo radical” gera algum tipo de vazio, de falta, seja material ou subjetivo.

Lembra de Woody se sentindo preterido quando Buzz Lightyear aparece em “Toy Story”? O medo de Woody gera um desejo imediato nele. Restaurar o equilíbrio perdido.

Objetos de desejo cena 1
“Buzz Lightyear para o Comando Estelar”

Essa restauração pode significar um retorno à vida anterior. No caso de Woody, o desaparecimento de Buzz o tornaria novamente a estrela dentre os brinquedos de Andy. Em outros casos, um retorno não é possível. Quando Don Corleone sofre um atentado em “O Poderoso Chefão”, é impossível voltar a um estado pré-tentativa de execução.

Michael, o filho que negava envolvimento com os negócios da família, passa por cima desse sentimento por uma nova prioridade. Só há uma forma de manter um mínimo de equilíbrio nesse instante. Proteger a vida do pai.

Woody tentando eliminar a concorrência, Michael correndo para o hospital, são reações aos eventos que desarranjaram suas vidas. O desejo que compõe essas reações é chamado por Robert McKee, em Story, de objeto de desejo consciente.

Os personagens sabem o que estão buscando, por isso o “consciente”. Suas próximas ações serão voltadas a preencher esse desejo. Após a partida dada pelo incidente incitante, a história ganha força, se acelera, com a formação desse desejo e suas consequências.

É comum que esse objeto de desejo seja um ao longo de toda história. Jogar o Um Anel no fogo de Mordor é o objetivo de Frodo e da Sociedade do Anel do início ao fim da trilogia de Tolkien. Os vários conflitos e cenários enfrentados por cada personagem podem criar objetivos “menores”, auxiliares, todavia, não desfazem o objetivo principal.

Em outros casos, o protagonista alcança seu objetivo ao longo da história, apenas para descobrir que esse objetivo apenas gerou um problema maior.

Em “Corra!”, Chris deseja um fim de semana pacífico conhecendo a família branca da namorada, Rose. Ele luta com os conflitos presentes ao longo de toda a estadia, mas seu objetivo só se desfaz quando ele percebe a maquinação bizarra daquele local. Sua desistência só se completa quando entende que Rose também faz parte dos planos contra ele.

A partir desse momento, o último ato se desenvolve com um novo objeto de desejo consciente: sobreviver a qualquer custo ou “corra!”.

O objeto de desejo consciente, no entanto, não é capaz de revelar toda a profundidade do protagonista.

Objeto de desejo inconsciente

A outra modalidade de desejo colocada por McKee é o inconsciente. Na vida real, muitas vezes não entendemos por que fazemos algumas coisas. Genética, questões da infância ou percepções dos nossos sentidos sobre as quais não tomamos consciência podem nos levar a ações que não imaginávamos. É natural que o mesmo valha para personagens, como forma de criar verossimilhança.

O desejo inconsciente pode se revelar ao longo da história ou ser função da história pregressa da personagem, o seu passado. É um elemento profundo na construção de uma protagonista, devido à sua capacidade de influenciar ações e explicar motivações. Portanto, a primeira característica sobre esse conceito que podemos citar é sua liberdade de uso.

É obrigatório ter desejo inconsciente?

Não. O desejo consciente, pela tendência a ser uma consequência direta do evento que inicia a história, soa inescapável. O inconsciente requer um estudo sobre o personagem, precisando “caber” na história. Cabe à pessoa autora avaliar a necessidade de sua obra.

A maioria dos filmes da franquia 007 não apresentam esse último elemento. Lembre-se de algum filme com Pierce Brosnan, como “Um Novo Dia para Morrer”. Bond é muito mais uma alegoria do que uma pessoa. O que reside em seu inconsciente não é relevante para a história. Antes de um nome, ele é o agente 007.

Isso pode soar superficial, mas clássicos do cinema também podem abdicar desse elemento. Laranja Mecânica, do lendário diretor Stanley Kubrick, não desenvolve um desejo inconsciente do protagonista, Alexander DeLarge. Apoiado pelo mundo deslocado criado por Kubrick, o personagem tem grande autoconhecimento. A história não gira ao redor de seus conflitos internos, pois estes não existem. O que interessa são seus conflitos com o mundo ao redor, com o sistema, portanto, os conflitos pessoais e extrapessoais. O personagem se torna muito mais uma ferramenta da história do que uma figura central.

Objetos de desejo cena 2

A própria franquia 007, no entanto, traz o desejo inconsciente para suas histórias em capítulos mais recentes como Casino Royale ou Skyfall. Essa utilização torna as histórias menos alegóricas, mais intimistas. Temos mais facilidade de nos conectar com James Bond, pois temos mais acesso à sua mente.

A função do objeto de desejo inconsciente

A grande maioria das obras, portanto, busca trabalhar o objeto de desejo inconsciente como forma de aprofundar seus personagens. É um jeito mais seguro de se criar uma história profunda e com a qual o público consegue se identificar.

Geralmente, quando você lê ou assiste a uma crítica que aponta o que o personagem “realmente buscava”, o que essa crítica está apontando é o objeto de desejo inconsciente daquele personagem. Ao menos na interpretação do crítico. A posição desse elemento na profundidade da psique do protagonista faz com que o desejo inconsciente se aproxime muito do tema central da história. Alguns autores chegam ao ponto de afirmar que personagem é tema1.

Mas vamos exemplificar, senão esse papo fica abstrato demais. Qual é o objeto de desejo inconsciente de Joy (alegria) em Divertidamente? A partida da história é a mudança de Riley e sua família para São Francisco. A mudança desarranja a vida da menina, que perde as referências geográficas, culturais e sociais de sua infância.

Joy, como líder das emoções internas de Riley, assume a missão de tornar a garota alegre novamente. Esse é seu desejo consciente. Ela quer isso, sabe que quer, e o quer pois enxerga que, dessa forma, restaurará o equilíbrio de Riley (e o seu próprio).

A emoção protagonista persegue esse objetivo por toda a história, mesmo quando isso muitas vezes causa o oposto: mais desequilíbrio. Ela não consegue tornar Riley alegre novamente e as coisas se encaminham para uma tragédia.

As ações de Joy, no entanto, demonstram mais do que apenas querer tornar Riley alegre. Ela constantemente exclui as outras emoções do comando — especialmente Sadness (tristeza). O que Joy realmente deseja, em seu inconsciente, é ser a emoção plena de Riley. Ser suficiente, a única necessária.

divertidamente objeto de desejo
Joy afasta Sadness com medo de a tristeza tomar as emoções de Riley.

Esse desejo inconsciente informa diretamente o tema da história. A motivação de Joy reflete a cultura que vivemos, que acredita na busca da felicidade como fim último e constante. Ficar triste não é humano, é uma derrota. Nossa obrigação é estarmos o tempo todo felizes.

O caso de Joy se aproxima um pouco de Woody em Toy Story. A concorrência de Buzz afeta Woody, que perde a plenitude nas preferências de Andy. No entanto, diferente das emoções, os brinquedos tem vida útil. O medo de um brinquedo senciente, como são os da animação, é ser esquecido, abandonado. A concorrência de Buzz é uma demonstração prévia para Woody de como ele é descartável. Esse medo é o que o move. Seu desejo inconsciente é ser eternamente relevante para Andy. Suas ações derivam daí.

A própria franquia retorna a esse medo em “Toy Story 3”, transferindo-o de personagem. Agora, é Lotso quem enfrenta esse medo, que se concretiza em sua história pregressa. Um objeto de desejo inconsciente gerando um vilão.

As relações entre os objetos de desejo

Uma vez que entendemos as funções singulares de cada objeto de desejo, podemos observar a principal lição desses conceitos: a construção de oportunidades.

Ao criar uma história específica, aprofundar a biografia e psique da protagonista pode ser importante para quem escreve a história por motivos específicos. Porém, olhando para histórias de forma mais genérica, a função prática de todo esse trabalho é a geração de oportunidades. Quanto mais elementos à disposição — conflitos na história pregressa, medos, angústias, sonhos — mais oportunidades de desenvolvimento estão presentes. A partir daí, a pessoa roteirista tem mais espaço para criar em sua história, com diferentes caminhos a seguir.

Uma forma de aproveitar essas oportunidades é olhar para a relação entre os objetos de desejo. No caso de Joy, por exemplo, sua necessidade de ser suficiente para Riley entra em conflito direto com seu desejo consciente de fazer a menina feliz.

Sem um equilíbrio emocional, aprendendo a sentir tristeza, nojo e outras emoções, Riley não seria capaz de sentir qualquer felicidade. Pois sua capacidade de adaptação aos diferentes conflitos que a vida apresentará é drasticamente limitada.

O plano de Woody, a partir do desejo de não ser descartado, o coloca em uma situação ainda pior, em que ele e Buzz ficam perdidos na cidade, longe de Andy. Seu desejo consciente o levou justamente ao cenário que ele mais temia em seu inconsciente.

Nem sempre essa relação é de oposição. Em “Whiplash”, o protagonista Andrew (Miles Teller) deseja conscientemente ser titular na banda sob tutela de Fletcher (J K Simmons). No inconsciente, Andrew busca a perfeição. Ser um baterista tão único como Buddy Rich. Seu objeto de desejo inconsciente é um combustível para o desejo consciente, impulsionando Andrew em buscar a vaga mais e mais.

O conflito é gerado, mesmo com uma relação construtiva entre os desejos, pois participar da banda de Fletcher é uma armadilha. Andrew começa a questionar seu desejo consciente, mas não muda de decisão até o limite, graças à impulsão de seu desejo inconsciente.

Alimentar uma relação entre os objetos de desejo é uma das formas mais poderosas de se criar conflitos internos, como nos exemplos de animações da Pixar, além de influenciar em outras camadas de conflito, como ocorre no conflito pessoal de “Whiplash”.

“Ok, Yann, mas e esse Capitão Nascimento no título?”

Bom, hora do nosso estudo de caso.

Os objetos de desejo de Capitão Nascimento em Tropa de Elite

Vou focar a análise apenas no primeiro filme. Para termos uma visão mais profunda do personagem aplicando esses conceitos, vamos partir do incidente incitante, como feito no início do texto.

Qual o evento que retira o equilíbrio da vida de Nascimento? A gravidez de Rosane, sua esposa. Nascimento é um capitão do BOPE, o Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro. O risco de sua profissão não combina com a perspectiva de ter um filho.

O primeiro ponto interessante do roteiro é que a gravidez se inicia fora do mostrado na história. Portanto, seu equilíbrio é perdido antes da primeira imagem aparecer na tela. O incidente incitante está fora do filme, apesar de ser capaz de influenciar toda a história.

Com a chegada do filho se aproximando, a necessidade do personagem de Wagner Moura de sair do batalhão cresce. Esse é seu desejo consciente. Ele fala com o coronel que precisa se aposentar, promete o mesmo para a esposa.

A vinda do Papa para o Rio de Janeiro, se instalando no morro do Turano, ocupa no roteiro o espaço vago pelo incidente incitante “ausente” na tela. Esse evento não determina o desejo do capitão do BOPE, mas reforça a urgência desse desejo, devido ao risco da missão. A mensagem que fica é a mesma. Seja com um incidente fora do filme, complementado por um conflito dentro do mesmo, seja de forma mais tradicional, a vida do protagonista sofreu um desarranjo radical.

tropa de elite cena 1
A mão de Nascimento tremendo após um pico de estresse durante uma escalada. As mãos são símbolos de ação, controle. O filme usa planos fechados nas mãos para representar o estado de espírito do Capitão e sua proximidade de seu desejo inconsciente.

A saída do BOPE é necessária para restaurar o equilíbrio. Diminuir o risco de morte, ver o filho nascer e crescer, tranquilizar a esposa. Porém, é importante perceber que o equilíbrio de Nascimento não foi perdido por causa do BOPE. Foi perdido por causa da família: a gravidez.

Isso mostra que, no BOPE, o capitão estava em equilíbrio. Sendo seu desejo consciente sair da corporação, um conflito interno se inicia imediatamente. “Sair de onde me sinto estável para uma outra estabilidade que desconheço? Ou ficar e correr o risco de não ver meu filho crescer?”

Por esse motivo, no início do filme, fica uma impressão de que Nascimento está “enrolando” a decisão. O que justifica o evento “Papa no Rio”, que força a urgência de uma escolha escalando o risco consideravelmente.

O capitão, então, obtém a chance de escolher um substituto no curso de recrutamento do BOPE, parte significativa do filme. Acompanhamos sua coordenação do curso, observando Neto e Matias de perto, até escolher Neto como substituto. Enquanto Nascimento vê a possibilidade do recruta 06 ser o nome certo para substituí-lo, o protagonista parece se estabilizar.

Essa estabilização também constrói o personagem. Para Nascimento, sair do BOPE era deixar sua segunda casa, sua outra família. Ele precisava deixar alguém à altura, como ele próprio afirma em narração. É um indício de que seu desejo inconsciente é permanecer no BOPE, na vida em que conhece. Ele só está em paz na guerra. O que o deixa fora de si é a perspectiva de ter que abandoná-la.

Quando Neto se revela imaturo para tomar a posição do capitão, o protagonista percebe a mentira que contou para si para se manter perseguindo seu desejo consciente. Ele projeta sua raiva na esposa, Rosane, que pressionava pela saída. Tenta retomar o controle em casa, um controle que ele tinha no BOPE na posição militar.

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Após a morte de Neto, Nascimento vai para casa fardado, explode com Rosane, joga os remédios e olha para sua mão. Ela não treme dessa vez.

Ele admite para si que quer ficar e, pela primeira vez no filme, sua mão para de tremer. Os remédios são descartados. Ele está no controle.

Seu desejo inconsciente, portanto, era ficar no BOPE. Continuar na atividade que ele conhecia, que era capaz de controlar. Esse desejo inconsciente conflita com o consciente, concretizado pela esposa. Logo, ela sai de casa.

No final do filme, Nascimento se convence que Matias, transformado pela morte de Neto, se tornou capaz de ser o seu substituto. Ele podia aproveitar essa oportunidade para recuperar sua família. No entanto, independente de quais foram as circunstâncias não mostradas, sabemos que o capitão permanece no BOPE, iniciando o segundo filme como coronel no batalhão.

O desejo inconsciente de Nascimento foi mais forte que todo o resto, mesmo cobrando preços altíssimos. Um dos personagens brasileiros mais icônicos, o capitão é um grande exemplo da força desses conceitos.


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  1. Robert McKee em “Story”, K. M. Weiland em “Creating Character Arcs” e Scott Myers no blog “Go Into the Story”, como alguns exemplos. 
Editor, também escreve em

Marido da Patrícia, apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva e na Trendr.