Drive vs Baby Driver – o mesmo roteiro, identidades distantes

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O que torna um filme único?

Do roteiro, podemos pensar em alguns aspectos como os eventos da história, o arco dos personagens, a presença de viradas surpreendentes. A identidade da história pode vir da estética pela fotografia, da trilha sonora, de um estilo de atuação, de movimentos singulares de câmera. Cada especialidade envolvida na construção de um longa é capaz de acrescentar algo que torne um filme único.

Mas é complexo ficar filosofando sobre esse tema. A sensação é de que precisaremos navegar por uma série de subjetividades, talvez sem fim.

Para chegar a uma resposta ao menos satisfatória, podemos fazer um exercício interessante. Entender como duas histórias a princípio muito semelhantes conseguem carregar identidades tão próprias.

Vamos olhar para Drive (2011), dirigido por Nicolas Winding Refn e roteirizado por Hossein Amini e Baby Driver (Em Ritmo de Fuga, 2017), escrito e dirigido por Edgar Wright.

As semelhanças

Temos dois protagonistas: o motorista sem nome de Ryan Gosling em Drive – na ficha, ele é chamado de Driver – e Baby (Ansel Elgort), em Baby Driver.

Os dois são homens brancos, de cabelos claros, com uma habilidade especial: dirigir.

Os dois não têm estrutura familiar e aplicam suas habilidades especiais no mundo do crime. Eles dirigem em situações de assaltos, basicamente garantindo a fuga de um bando de criminosos.

Os dois têm um código de ética próprio, distinto do mundo do crime que os rodeia ou aprisiona.

Os dois se apaixonam por mulheres loiras que refletem suas fantasias por uma vida estável, segura, fora do crime. São suas musas.

Nos dois filmes, o amarelo é a cor idílica, representativa de suas fantasias. Além do cabelo loiro das mulheres, vestidos e luzes amarelas circundam as cenas em que eles experimentam outra vida ou sonham com elas.

Os dois vivem de casaco/jaqueta. Os dois são quietos e falam mais por suas ações.

Drive e Baby Driver partem do mesmo esqueleto de personagem pela caracterização e do mesmo esqueleto de história. Como os dois filmes conseguem se distinguir, imprimir suas próprias identidades, deixar gostos diferentes na boca?

Vamos, primeiro, encontrar essas diferenças.

As diferenças

Driver é um homem mais experiente. Ele mora sozinho, tem um emprego em uma oficina e faz bicos como dublê de filmes. Baby é mais jovem, vive com seu pai adotivo e não tem emprego, ganhando dinheiro apenas através dos assaltos de que participa.

Driver é um tipo de terceirizado. Ele não se envolve nos planos de assalto e estabelece suas próprias regras de trabalho e tempos de espera. Baby é uma espécie de refém do chefe da quadrilha, Doc (Kevin Spacey), que além de gângster ameaçador é uma figura paternal.

O modo de dirigir de Driver é discreto. Ele geralmente despista a polícia sabendo onde parar na rua, quando fazer silêncio e raramente precisa acelerar, sabendo o que fazer quando necessário. Sua maior ferramenta de trabalho (além do carro) é o relógio.

Baby é agressivo na direção desde a partida do carro. Suas manobras são frequentes e impressionantes. Sua maior ferramenta é a música, através do conjunto de iPod’s que ele sempre carrega.

Driver trabalha de cara limpa. Baby dirige por trás de óculos escuros.

No tempo livre, Baby faz mixagens a partir de gravações que faz das reuniões. Driver basicamente conserta carros ou os dirige.

Os dois filmes são coloridos, mas em Drive é notável o maior uso da noite e das sombras. Especialmente nos momentos de trânsito, o foco vai no rosto de Driver, não em suas manobras. Em Baby Driver, é notável o maior uso de música e edição, criando uma conexão na linguagem entre imagem e som. Personagens, veículos, objetos na rua; tudo se move e provoca sons sincronizados com a trilha sonora e com os cortes da câmera. Na direção (dos carros), mais elementos são vistos, com mais tomadas externas ao automóvel destacando manobras e um ritmo intenso.

Nós conhecemos o passado de Baby, o acidente da mãe e do pai, a violência do pai com a mãe. Não conhecemos o passado de Driver.

Com as semelhanças e diferenças em mãos, podemos comparar as estruturas das duas histórias – basicamente, seus arcos de personagem – na busca de suas identidades.

A estrutura de Baby Driver

A história começa com uma cena de assalto, onde conhecemos a caracterização de Baby, sua habilidade como motorista e o mundo do crime ao seu redor.

Ele está sempre de óculos escuros e fone de ouvido (para compensar o zumbido em seus ouvidos), fica à margem na sala de reunião da quadrilha e sua natureza já é questionada ali. Ele é bom ou mau? Por que se mantém à margem? Se considera melhor do que o restante dos criminosos?

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Dentro do carro, Baby, de óculos escuros, põe os fones de ouvido ao lado de Bats.

O que acontecerá se um dia ele precisar cruzar sua linha moral?

O início também estabelece o objetivo inicial de Baby, seu desejo consciente. Ele quer terminar de pagar a dívida com Doc e, com isso, se livrar desse mundo underground.

O incidente incitante de Baby, o momento que retira seu equilíbrio, é a chegada da musa, Debora, quando ele está na lanchonete. Ele ganha ali um segundo desejo consciente.

O primeiro Ato termina concluindo o primeiro desejo consciente de Baby. O último assalto para Doc. Nessa sequência, ele impede Bats (Jamie Foxx) de matar o civil que os persegue, estabelecendo sua linha moral e um conflito claro.

Com o primeiro desejo consciente alcançado, Baby parte para o segundo desejo. O segundo Ato começa com a nova vida de Baby, arrumando um novo emprego e mergulhando na fantasia com Debora.

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Baby e Debora abraçados na lavanderia

A sequência de sonho é interrompida por Doc. A dívida pode estar paga, mas Doc ainda precisa de alguém com a habilidade de Baby no trabalho. O protagonista é sugado de volta para o mundo do crime na base da ameaça.

Sem saída, o desejo consciente do protagonista passa a ser fugir com Debora, simbolizada por uma frase que ela diz no primeiro encontro deles na lanchonete:

Às vezes, tudo que quero fazer é pegar a estrada para o Oeste, num carro que não posso pagar com um plano que não tenho.

Ele a convoca para a fuga enquanto é envolvido no plano do novo assalto. A equipe é composta por personagens que conhecemos nos outros roubos.

Durante a noite de preparação, Bats exige que eles parem na lanchonente onde Debora trabalha e Baby não consegue evitar. No entanto, quando Bats pega uma arma e ameaça fazer algo a Debora, Baby o impede uma segunda vez na história.

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Buddy, Darling, Bats e Baby sentados à mesa na lanchonete de Debora

Após um problema com policiais à paisana, cai sobre os ombros de Baby a responsabilidade de decidir se o assalto final deve ocorrer ou não. Ele decide que sim.

O grupo é obrigado a dormir junto antes do assalto e Baby tenta aproveitar a madrugada para fugir. Seu plano dá errado, o grupo descobre suas fitas de gravação e Debora fica esperando.

O assalto chega e Baby toma uma decisão que desencadeia o final do filme. Ele joga o carro em uma caçamba de construção, matando Bats. A partir daí ele corre em fuga constante, da polícia e de Buddy (Jon Hamm). A cada ação necessária com uma pessoa inocente, ele continua tentando ser doce, ainda que precise roubar um carro, por exemplo.

Ele deixa seu pai adotivo com todo o dinheiro conquistado nos assaltos em uma casa para pessoas da terceira idade. Busca Debora para fugir e acaba encontrando Buddy, rumo ao confronto final.

Após a resolução contra Buddy, Debora e Baby são parados pela polícia ao tentar sair do estado. O protagonista aceita seu passado criminoso e se entrega. Acaba cumprindo uma pena mais curta por bom comportamento e fica livre para viver com Debora.

A estrutura de Drive

A história começa com a preparação de Driver para um assalto. Ele estabelece suas regras aos contratantes, busca um carro adequado na oficina e executa o trabalho.

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Driver parado em seu apartamento, à noite. A luz que entra pela janela reflete sua sombra, junto à sombra da janela. Driver vive em dois mundos, um na luz e um na sombra. Ele está preso no mundo da sombra.

Driver não tem um desejo estabelecido no início da história. Sua vida segue estável com os trabalhos legais e ilegais. Uma trama é iniciada por seu chefe na oficina, Shannon (Bryan Cranston), que quer usá-lo como piloto de corrida em parceria com o gângster Bernie (Albert Brooks). No entanto, essa é uma trama paralela, que conecta Driver a seus futuros antagonistas.

O incidente incitante para o protagonista ocorre em um momento simples. Ele está no mercado e vê que sua vizinha Irene e o filho Benicio estão em apuros, pois o carro dela enguiçou. Ele os ajuda com as compras e isso o lança no mundo fantasia que ele não está acostumado a conhecer.

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Driver e Irene no elevador. A luz amarela ilumina a fantasia dos momentos com Irene.

O primeiro Ato segue todos os momentos de Driver junto à Irene e Benicio, aprofundando a importância dessa relação para o protagonista. Repare que a jaqueta com a figura do escorpião, espécie de símbolo dele, está sempre despida ou sequer presente quando ele está com ela. O fim da fantasia (e virada para o segundo Ato) ocorre quando Irene revela que seu marido, Standard (Oscar Isaac), está saindo da prisão.

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Irene olha para Driver, que aparece na tela através do espelho. No mesmo espelho, uma foto de Benicio e de Standard. O marido e filho estão no plano de Irene, enquanto Driver só existe no reflexo, evidenciando sua posição fora da família.

Após a chegada do marido, Driver vê duas figuras estranhas, do tipo que ele conhece do mundo do crime, chegando no prédio. Ele verifica e descobre que eles foram espancar Standard para cobrar uma dívida.

O protagonista, envolvido por Irene e Benicio, decide ajudar Standard a se recuperar da dívida com Cook (James Biberi), um dos homens que o espancou.

O assalto planejado na verdade era uma emboscada e Standard morre. Driver se vê obrigado a fugir e a violência do filme começa a se elevar. Ele tem o dinheiro do assalto em mãos e tenta sair da emboscada retornando o dinheiro.

A situação se complica com a máfia e Driver percebe que ele terá que enfrentar todos ou então fugir. Ele tenta viver a fantasia uma última vez e, assim como Baby, propõe uma fuga para sua musa. Irene, porém, se ofende com a proposta após a morte de Standard e não aceita.

Driver decide então enfrentar todos para garantir que Irene e Benicio não serão afetados de nenhuma forma. Mesmo que isso custe sua vida ou sua fantasia.

Ele escala o mundo do crime matando Nino (Ron Perlman), perdendo Shannon e por fim matando Bernie. Deixa o dinheiro junto a Bernie para que a máfia pare de persegui-lo. Aparentemente, ele poderia voltar para Irene agora –  e ela o busca em seu apartamento. Contudo, ele sabe que a chance de poder viver livremente é pequena. A máfia tentará caçá-lo apenas porque, bem, é isso que a máfia sempre faz. Ele dirige para longe de Irene, para longe de sua fantasia, enquanto toca sua música tema.

And, you have proved to be
A real human being
And, a real hero

College feat. Eletric Youth

E você provou ser
Um ser humano de verdade
E um herói de verdade

Onde estão as identidades?

Pensando nas semelhanças, dois protagonistas com caracterizações praticamente idênticas acabam em finais distintos. Um livre para viver sua fantasia, o outro se afastando para que sua paixão fique segura. Tomando decisões distintas. Como isso ocorre?

Repare que as semelhanças dos dois são caracterizações inatas ou fundamentais. Biotipo, habilidades, código de ética, musas.

Agora, repare nas diferenças. Um foca o relógio enquanto dirige. O outro, a música. Um é pragmático e cauteloso, o outro agressivo. Um mostra o rosto, o outro mantém óculos escuros.

Os comportamentos dos dois são completamente diferentes. O comportamento, muito mais do que caracterizações físicas, constrói um personagem. Se decisões definem um personagem, o comportamento influencia as decisões muito mais do que a aparência.

No arco de Baby, decisões contraditórias como confirmar o assalto e prometer uma fuga à Debora ocorrem diante de sua ingenuidade. Ele tenta afastar o mundo do crime atrás de lentes (os óculos), mitigar a violência à sua volta através da música.

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Debora e Baby durante a última fuga. A ingenuidade de Baby permite que Debora fique perto do perigo. Ela entra no mundo dele.

Driver encara a violência de frente e até a perpetua. Ele aceita seu lugar naquele mundo, ainda que mantendo um código próprio. Ele até sonha, mas suas decisões nunca são contraditórias.

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Driver e Irene conversam no apartamento dela. A parede verde atrás de Driver, uma cor da corrupção de seu mundo, contrasta com a luz amarela atrás de Irene, o mundo idílico da fantasia. Seus mundos estão sempre separados e Driver não permite que eles se juntem.

Por fim, repare como toda a estética dos dois filmes cresce dessas diferenças de comportamento. Baby escuta músicas extrovertidas como seu modo de dirigir. A edição, a trilha, a filmagem, as cores, tudo acompanha o ritmo de Baby, seu comportamento hiperativo, sua energia.

Driver é quieto, introspectivo, como as músicas de sua trilha, como a noite que cobre o visual do filme. É violento como o símbolo de escorpião revela em suas costas.

Podemos entender a identidade de um filme, portanto, como uma definição que cresce de dentro do próprio protagonista. Pequenas diferenças de comportamento podem direcionar toda a estética, o trabalho de departamentos técnicos, bem como o arco que o personagem precisa trilhar.


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Roteirista, apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva.