Edgar Allan Poe, a Filosofia da Composição e a escrita de roteiro

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Dia desses, escutava o podcast Primeiro Tratamento – se você não conhece, hora de passar a conhecer. O programa, liderado por Bruno Bloch e Filippo Cordeiro, realiza entrevistas com roteiristas espalhados por diferentes áreas do mercado audiosivual.

Eu escutava especificamente o episódio 41. O entrevistado? Bráulio Montovani, o mais bem sucedido roteirista brasileiro, ao menos nesse século. Se o nome não sinalizou nada, talvez o currículo baste com Cidade de Deus, Tropa de Elite (1 e 2), dentre outras produções de destaque.

Eis que, ao longo do podcast, Bráulio dá duas recomendações de literatura sobre roteiro. A primeira é o livro “O Poder do Clímax – Fundamentos do Roteiro de Cinema e TV”, de Luiz Carlos Maciel. A segunda é o ensaio “A Filosofia da Composição”, de Edgar Allan Poe. Gostei muito do que ouvi e por isso recomendo fortemente que você escute a entrevista. Mas o fato é, fui caçar mais sobre essa tal filosofia da composição.

Poe é um dos maiores escritores da literatura estadunidense. Difundiu o estilo gótico na escrita e é a maior referência do gênero de ficção policial – ao menos até a aparição de um tal Sherlock Holmes. No entanto, além de contos e romances, Poe também era poeta. Uma de suas poesias mais famosas se chama “O Corvo”.

Edgar Allan Poe
Retrato do corvo. Ou melhor, de Edgar Allan Poe.

É sobre essa poesia que ele escreve no ensaio “A Filosofia da Composição”. Nele, Poe divaga sobre o processo de escrita de uma poesia, processo que, como aponta Bráulio na entrevista ao Primeiro Tratamento, deixa muitas lições para a escrita do roteiro.

Só tendo o epílogo constantemente em vista, poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de conseqüência, ou causalidade, fazendo com que os incidentes e, especialmente, o tom da obra tendam para o desenvolvimento de sua intenção. – Edgar Allan Poe, “A Filosofia da Composição”

A lição básica do ensaio é a de caminhar de trás para frente. Algo que Syd Field também aponta no livro “Manual do Roteiro”. Não significa que você precise escrever todos os versos ou cenas da última para a primeira. Mas que, no processo de escrita, o último verso, o ponto de clímax, é o mais importante. Deve estar na mente da pessoa autora durante toda a escrita da obra e, de preferência, deve ser escrito primeiro para uniformizar o tom da mesma.

Escrevendo um ensaio filosófico, Poe considera o porquê desse método. O que deveria estar na mente de quem escreve uma história? O tema? Uma personagem? Para o poeta, o objetivo é o efeito.

Vamos pensar nessa pergunta: qual o efeito que você quer causar no público ao escrever uma história? Independente de possíveis interpretações ou desafios intelectuais que o enredo apresente, quais emoções você deseja evocar no público? Ao sair da página ou do cinema, como esse público deve sair, sentindo o quê?

O foco no efeito nos dá a possibilidade de uma métrica para definir o sucesso de uma obra. Afinal, não podemos controlar o processo racional de cada pessoa leitora ou espectadora após nossa história. O que ela entendeu? Essa resposta deve variar bastante. Mas o que ela sentiu… se nossa história teve qualidade, essa resposta deve ter um caminho comum para diferentes pessoas.

Focar o efeito também solidifica o processo de trás para frente por um motivo simples. Para o público sair da sala com o sentimento desejado, o efeito deve ser projetado na última cena (ou sequência). No último verso. A obra não pode correr o risco de criar mais uma oscilação emocional, pois isso alteraria o efeito causado pela história. O que nos dá duas lições: desenhar a história até alcançar o efeito desejado e terminá-la quando ele é alcançado.

Eu prefiro começar com a consideração de um efeito. […]”Dentre os inúmeros efeitos, ou impressões a que são suscetíveis o coração, a inteligência ou, mais geralmente, a alma, qual irei eu, na ocasião atual escolher?” – Edgar Allan Poe, “A Filosofia da Composição”

Em “O Corvo”, Poe desejava um efeito universal, intrinsecamente relacionado ao poema. Sua escolha foi o efeito de contemplação da beleza. Com o efeito definido, segue-se a necessidade de estabelecer um tom. Podemos entender o tom, na visão de Poe, como o caminho emocional que maximiza o efeito desejado.

Encarando, então, a Beleza como a minha província, minha seguinte questão se referia ao tom de sua mais alta manifestação, e todas as experiências têm demonstrado que esse tom é o da tristeza. – Edgar Allan Poe, “A Filosofia da Composição”

Portanto, para Poe, a melancolia seria o mais legítimo tom poético, por ser o tom que maximiza o efeito da beleza, o mais legítimo dos efeitos poéticos.

Dessa combinação, o poeta definiu um objeto concreto capaz de unir efeito e tom. Para ele, a representação máxima da contemplação da beleza seria a mulher. O máximo de melancolia frente à beleza seria a perda da capacidade de contemplá-la: a morte dessa mulher.

A partir dessa construção, uma série de necessidades surgiram para o autor. A palavra final da poesia deveria exprimir efeito e tom de uma vez. Ele escolheu a palavra “Nevermore” (nunca mais, em tradução livre), pois, segundo ele, o “o” seria a vogal mais forte e “r” a consoante mais forte. Portanto, a palavra precisaria manter esse significado com a sonorização dessas letras para máximo impacto.

Ele escolhe o corvo como animal mais melancólico do que um papagaio, para repetir “nevermore” ao longo da poesia e aumentar o efeito da mesma através da repetição. Também escolhe um homem, um namorado da mulher morta, com o mesmo propósito de aumentar efeito e tom. Ele ainda destaca a necessidade de manter o efeito do clímax com a coragem de cortar partes mais fortes que venham antes.

Tivesse eu sido capaz, na composição subseqüente, de construir estâncias mais vigorosas, não teria hesitações em enfraquecê-las propositadamente, para que não interferissem com o efeito culminante. – Edgar Allan Poe, “A Filosofia da Composição”

Esse processo é quase uma engenharia de tão preciso e vai além, ao ponto de críticos duvidarem se Poe de fato seguiu cada passo que descreveu no ensaio ou se apenas os racionalizou. Aqui, pouco importa. A questão é que, para o roteiro, mesmo que não sigamos tantos passos (na verdade a gente sabe que seguimos até mais), a lição mantém seu valor. Como pessoas autoras de uma obra audiovisual, precisamos entender antes de qualquer público qual o efeito que a história provoca, o gosto que deixa na última cena. Isso só pode ser alcançado se conseguimos visualizar esse filme em nossas mentes antes de quaisquer outros olhos.

Vou deixar aqui o link para um trecho do ensaio, são apenas dez páginas: “A Filosofia da Composição“. E abaixo, a tradução de Machado de Assis para “O Corvo”. Veja se concorda com Poe. Ele alcançou o efeito desejado?


O Corvo

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais.”

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: “Nunca mais”.

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o corvo disse: “Nunca mais!”

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais”.

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranquilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!


A imagem de capa pode ser vista nesse link.

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Roteirista, apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva.