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The Affair – Concretizando diferentes pontos de vista

Tempo médio de leitura: 10 minutos

Nota: o Além do Roteiro agora também é canal no YouTube! A estreia falou sobre a série Mindhunter. Se você gosta do site, acompanha a gente por lá! O texto a seguir tem spoilers até o primeiro episódio da segunda temporada de “The Affair”.

The Affair é uma série diferente. Por que tem mais de um protagonista? Não. Por que tem mais de um ponto de vista? Não exatamente.

Pegue uma série como Game of Thrones ou Westworld, e você encontrará um elenco de protagonistas. A disputa de diferentes pontos de vista estará presente no enredo e na tela.

The Affair, no entanto, não explora essas questões da mesma maneira que essas outras produções. Na verdade, ela segue o modelo dos livros da saga As Crônicas de Gelo e Fogo. Justamente os livros adaptados na série Game of Thrones.

Que modelo é esse?

Os livros escritos por George R. R. Martin levam o conceito de ponto de vista ao extremo. Cada capítulo começa com um nome de um personagem. É este personagem que seguiremos ao longo de quinze ou vinte páginas. É por seus olhos que veremos a trama se desenrolar. No capítulo seguinte? Outro personagem, outra trama.

Catelyn
#PraCegoVer: página do livro “A Guerra dos Tronos”, no início de um capítulo da personagem Catelyn. O título do capítulo é “Catelyn”.

Às vezes, temos acesso ao ponto de vista de personagens presentes na mesma trama. Esse é um cenário comum no primeiro livro, Guerra dos Tronos, onde temos capítulos de Ned Stark, Catelyn, Jon Snow, Sansa, Arya e Bran, membros da família Stark.

Em um caso limite, lemos no quarto livro, O Festim dos Corvos, um evento em um capítulo de Samwise Gamgi. No quinto livro, A Dança dos Dragões, vemos exatamente o mesmo evento por outros olhos, dessa vez de Jon Snow.

É exatamente essa a premissa de The Affair. No início da primeira temporada, temos como protagonistas os personagens Noah Solloway (Dominic West) e Alison Bailey (Ruth Wilson). Na maioria dos casos, o episódio começa com um título:

Parte 1: Noah

Na metade do episódio, vem um novo título:

Parte 2: Alison

A série passa a brincar com essa premissa, às vezes alongando o tempo de um dos personagens. Às vezes trocando a ordem. Às vezes adicionando o ponto de vista de mais personagens.

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#PraCegoVer: Noah na esquerda, Alison na direita. Vemos apenas metade de seus rostos com clareza.

Via de regra, cada episódio passa duas vezes por um mesmo intervalo de tempo. Uma vez sob olhar de Noah, outra sob olhar de Alison. A presença de um mesmo evento sob dois pontos de vista diferentes pode gerar distinções surpreendentes na tela – exatamente como na vida real.

Ao invés de trazer um conceito ou elemento para análise como de costume, resolvi olhar de outra forma para The Affair. O olhar de exercício.

Quais lições podemos absorver da premissa que norteia a série? Vou listar o máximo de elementos que consegui pensar e deixo pra você a missão de completar com outras lições e desafios que enxerga. Vambora?

1. Ritmo

Uma das possíveis formas de determinar a velocidade de uma história – quão lenta ou alucinante ela parece – é pelos Beats, que abordamos lá no vídeo sobre Mindhunter.

Lembrando, Beats são mudanças de valor em uma cena. Um filme com uma alta taxa de beats por minuto ou beats por cena tende a ser sentido como mais rápido. Isso porque, a cada mudança, nós somos jogados junto com os personagens em direções diferentes ao longo da história. Muitas mudanças nos deixam com a sensação de uma montanha russa, onde somos jogados em inúmeras direções diferentes.

É o que ocorre em filmes como Missão Impossível. Um plano é formado e na hora da execução um equipamento falha. Ethan Hunt, o personagem de Tom Cruise, se ajusta a essa falha, mas um capanga chega. Ele detona o capanga, e algum obstáculo natural surge, como uma tempestade de areia. Aí ele precisa pegar um veículo para entrar em uma perseguição, e de repente um outro personagem tira uma máscara e se revela o vilão da história, uma traição ocorre, etc.

Quando percebemos, uma série de mudanças ocorreu em uma única cena ou sequência e ficamos exaustos pelas constantes descargas de adrenalina consequentes. Até a variação de locações pelo mundo ajuda nessa sensação – filmes de espionagem e até alguns de heróis se especializam nisso.

Já histórias tidas como estudos de personagens costumam ser mais lentas. Nela, os eventos não são tão importantes. O principal é o efeito dos mesmos na protagonista, seu arco de desenvolvimento. São histórias que incentivam planos fechados, closes em gestos e rostos de personagens, pois é nesses detalhes que enxergaremos uma mudança, não nos eventos em si.

Um filme como Você Nunca Esteve Realmente Aqui utiliza essa lógica. Em histórias como essa, é comum o uso da montagem para criar sentido sem que eventos novos aconteçam. É o caso daqueles flashbacks em flashes rápidos, enquanto a câmera foca o rosto do personagem. Algo que você também pode ver em Mad Max – Estrada da Fúria, em séries como Objetos Cortantes (Sharping Objects), da HBO, e muitas outras.

Em qual modelo The Affair, com os diferentes pontos de vista declarados, se encaixaria?

No segundo. Porque, se a série mostra um mesmo evento sob o ponto de vista de Noah e de Alison, ela indica que o efeito desse evento nos dois é mais importante do que o evento em si.

Em essência, a história se torna o estudo de vários personagens.

Portanto, o seu ritmo se torna naturalmente mais lento do que o comum.

Uma história cujo foco não reside nos eventos em si para aprofundar os personagens já assume ritmo mais lento. Pois menos eventos – e consequentemente, mudanças – ocorrem.

The Affair precisa cortar essa frequência de eventos pela metade – estou fazendo uma aproximação grosseira aqui -, pois um mesmo evento aparece duas vezes no mesmo episódio. Então a série se torna mais lenta do que a média das histórias.

É possível perceber a mesma questão na saga As Crônicas de Gelo e Fogo. Martin trabalha não com dois, mas com dezenas de pontos de vista. Ainda que ele separe muitos personagens geograficamente, em muitos momentos há uma configuração que impede a aceleração da história. No primeiro livro, A Guerra dos Tronos, temos pontos de vista de seis personagens da família Stark, que em parte da história estão juntos. Portanto, temos por vezes seis pontos de vista sobre um mesmo evento.

2. Núcleos

Lembra que falei que os eventos são cortados pela metade? O motivo de isso ser uma aproximação grosseira está no fato de que os protagonistas têm seus próprios núcleos.

Em suas partes em cada episódio, vemos eventos em comum aos dois, e eventos que só fazem parte da dinâmica daquele personagem específico.

Isso é necessário para equilibrar o ritmo da história e não torná-la efetivamente tão lenta que fique insuportável. Também é necessário para aumentar a quantidade e variação dos tipos de conflitos entre os personagens.

Dessas necessidades temos acesso às famílias de Noah e Alison. Cada família é grande o suficiente para a criação de uma história única. Dessa forma, os roteiristas conseguem variar tramas e conflitos sem confrontar sempre os mesmos personagens, o que poderia tornar a série maçante.

Outra importância dos núcleos é manter os protagonistas separados até o momento ideal. Como bem apontado nesse vídeo do canal Just Write sobre Westworld, é natural que os conflitos principais da trama sejam criados entre os protagonistas.

Quando esses protagonistas se encontram em um momento de tensão e clímax, nós esperamos uma resolução, como acontece entre Maeve e o Homem de Preto na segunda temporada de Westworld. Porém, se a resolução necessária é drástica para a continuação da série enquanto produção, os roteiristas acabam inserindo soluções paliativas.

Os conflitos que anseamos por resolver não são resolvidos e saímos frustrados.

Em The Affair, a primeira temporada segura a situação de infidelidade de Noah e Alison até que eles caminhem ao encontro um do outro definitivamente apenas no clímax da temporada. São os conflitos internos aos núcleos, de Noah com Helen (Maura Tierney) e a família, e de Alison com Cole (Joshua Jackson) e a família, que seguram esse tempo.

3. Pontes

Ao criar núcleos distintos para cada protagonista, é necessária a criação de pontes que permitam que esses núcleos se encontrem. Afinal, se não houver esse conflito, nos sentiremos enganados.

A princípio, basta para o conflito que Noah, Alison, Helen e Cole sejam envolvidos. Mas como envolvê-los?

Essa é a necessidade de uma figura como Oscar Hodges, que acessa os dois protagonistas e, com isso, os dois núcleos. É nessa figura que conflitos paralelos, porém que aceleram o caminho para o conflito central, surgem. Como quando Oscar chantageia Noah para não contar a Helen sobre a infidelidade, o que faz Noah decidir contar ele mesmo. Ou quando Alison descobre com Oscar sobre a situação financeira da família, o que a joga contra a sogra.

As pontes podem ser personagens ou eventos. Os pais de Helen, que vivem na cidade de Alison, Montauk, realizam uma festa. A partir do evento na mansão, surge uma relação entre Scotty Lockhart (Colin Donnell) e Whitney (Julia Goldani Telles). A criação dessas pontes pode facilitar encontros inesperados entre pessoas dos dois núcleos, gerando novos conflitos auxiliares e aprofundando os conflitos entre os protagonistas.

4. Novos protagonistas

Na primeira temporada, acompanhamos Noah e Alison. Como vimos, os dois centralizam núcleos diferentes. O grande desafio da história está no encontro dos dois personagens. Esse é o cerne da primeira temporada.

A mesma termina resolvendo o fato. Colocando Noah e Alison em um caminho de encontro. Eles se juntam, se separam de Helen e Cole.

Começa a segunda temporada e os dois estão juntos em uma cabana. O que aconteceria se continuássemos apenas com os pontos de vista dos dois?

Pensando sobre ritmo e núcleos, a história se tornaria mais lenta do que a primeira temporada, com menos eventos e conflitos presentes. As duas partes de episódio ficariam sempre parecidas.

O fato é que, na segunda temporada, Noah e Alison passam a ser o núcleo um do outro. Não integralmente, mas com muito mais força do que na temporada de estreia. Portanto, para variar núcleos agora, é necessário estabelecer novos protagonistas. É assim que acessamos pela primeira vez os pontos de vista de Helen e Cole. Isso não ocorre apenas por necessidade técnica, mas temática também.

Qual o efeito da separação no cônjuge que não a desejava? Esse estudo precisa da presença de Helen e de Cole. Além disso, Noah e Alison ainda terão seus embates, mas o centro da trama de cada um passa a envolver a separação. Se antes conhecer o “outro lado” significava o ponto de vista da outra parte no casal de amantes, agora conhecer o “outro lado” significa ver a família, a pessoa divorciada.

Por isso, aguns episódios comparam Noah e Alison, mas outros comparam Noah e Helen ou Alison e Cole. É como se o centro de gravidade das tramas de cada um mudassem.

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#PraCegoVer: um mural com os rostos dos quatro protagonistas. Da esquerda para a direita, em cima, Noah e Alison. Embaixo, Helen e Cole. Vemos apenas metade dos rostos com clareza.

5. Tramas centradas em eventos

Por mais que uma história se proponha a ser um estudo de personagens, toda vertente de investigação criminal carrega alguns elementos de gênero aos quais o público está acostumado. Uma dessas expectativas comuns é a quantidade grande de eventos.

Histórias de investigação são recheadas de reviravoltas. Talvez aí esteja o grande ponto fraco da primeira temporada. Existe uma linha do tempo no presente, com a investigação de um homicídio. Ela é usada a princípio para revisitar o passado dos personagens. Os pontos de vista, os locais de estudo de personagem, parecem narrações feitas ao detetive. Até que percebemos que eles omitem informações ou mentem para o investigador, um fato capaz de gerar muitos conflitos futuros.

Mas o foco da série é o passado. É o estudo, o arco de desenvolvimento desses personagens. Com esse foco, a história não tem espaço para as reviravoltas esperadas no gênero de investigação. Essa parte da temporada se torna estranha, deslocada do restante.

A primeira temporada de Big Little Lies, da HBO, tem exatamente essa característica, mas a trama da investigação funciona. Isso porque a investigação em si não é mostrada. Só são relevantes os depoimentos da comunidade, um dos temas da própria série. Como funciona a sociedade de Monterrey?

Em The Affair, por vezes temos o detetive realizando uma investigação ou descoberta independente dos pontos de vista de Noah ou Alison. Ele vai a locais que os dois sequer saberiam. Isso quebra a dinâmica dos episódios, pois parece que temos um terceiro ponto de vista sendo apresentado, o do próprio detetive. Porém, o ponto de vista dele não é estudado e se torna um apêndice na série.

Essa dinâmica melhora um pouco na segunda temporada pois os pontos de vista dos personagens estudados passam a ser mais constantes também no presente, ainda que haja momentos de puro andamento da trama, como com o advogado.

Com apenas cinco riscos e lições já chegamos nesse tanto de texto, então vou parar por aqui. Mas já dá para começar uma conversa. Quais outros desafios você sente na criação de histórias com pontos de vista declarados como The Affair ou As Crônicas de Gelo e Fogo? O que mais te chamou atenção na série? Responde aí e a gente segue o papo.


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Roteirista, apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva.