Perdido em Marte – Filmes “teste” e a definição de história

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O que é uma história?

Calma. Esse texto periga se tornar muito longo depois dessa pergunta, não é?

Me questiono sobre a definição de história com frequência. Mais do que devia, talvez. Como são formadas, seu impacto em nós, por que as contamos.

Muitas pessoas autoras de guias de escrita, de romances a roteiros e poemas, se questionam o mesmo. A razão desse texto vem de uma dessas definições. De K. M. Weiland, no livro “Criando Arcos de Pesonagem”.

Creating Character Arcs
Capa do livro Creating Character Arcs

Olhamos para os conceitos de “Mentira”, “Fantasma” e “Verdade” a partir de seu livro ao analisar o filme “Filhos da Esperança“. O conceito mais importante do livro é “a mentira em que o protagonista acredita”.

O livro não é só isso, no entanto. Tem uma série de definições – bem rígidas – sobre estrutura. Em que porcentagem da história você deve escrever o evento X ou Y, provocar o efeito Z e afins. Já para o fim do livro, concluindo a importância do arco de personagem, vem a definição da história que nos traz aqui. Esse é um título de seção no livro:

ARCO DE PERSONAGEM = HISTÓRIA, SEM ARCO DE PERSONAGEM = SITUAÇÃO

Segundo a autora, esse título deriva de uma definição de 2013 feita por Jeff Lyons em um artigo. Os quatro critérios usados por Lyons e citados por Weiland para diferenciar uma história de uma situação são:

  1. Uma situação é um problema ou predicamento com uma solução óbvia e direta.
  2. Uma situação não revela personagem, testa habilidades de solução de problemas.
  3. Uma situação não tem (ou tem poucas) subtramas, surpresas ou complicações.
  4. Uma situação começa e termina no mesmo espaço emocional em que ela começa.

Weiland continua pontuando a importância do segundo item. Revelar personagem é uma busca intrínseca à construção de um arco.

A partir dessa definição, Weiland explora como “Os Caçadores da Arca Perdida”, primeiro filme da franquia Indiana Jones (Harrison Ford), é uma situação ao invés de uma história. Indiana Jones é o mesmo personagem do início ao fim. Não há jornada emocional, uma grande transformação no personagem.

Ela faz comparações para explorar a diferença de situação e história, citando até Jurassic Park (chega a chamar o filme de situação, até identificar um tipo específico de arco no filme) e chega a uma conclusão:

Situações nos entretém; histórias nos entretém e nos ensinam o que significa ser humano.

Agora é a minha vez de perguntar. Você, como espectador, identifica essa definição como a sensação que teve ao assistir o primeiro filme de Indiana Jones?

Você tem a sensação de que “Os Caçadores da Arca Perdida” é uma situação ou uma história?

Posso estar errado, mas imagino que você tenha o mesmo gosto estranho na boca que eu tive ao ler essa definição. Ela parece… rígida demais. Quando vamos contar um caso engraçado ocorrido na escola, falamos que vamos contar uma situação ou uma história? Será que existe um critério qualificativo separador do que merece ser chamado de história e o que pode apenas ser classificado com outros termos?

Ao explorar essa definição, senti que há um viés cognitivo em jogo no raciocínio de Lyons e Weiland. Vou aproveitar um texto que já rolou por aqui, “A maior lista de vieses cognitivos que você já viu (provavelmente)“.

Vieses cognitivos são as tendências de pensar de certas maneiras que podem levar a desvios sistemáticos de lógica e a decisões irracionais, frequentemente estudadas em psicologia e economia comportamental. – Wikipedia

Lá no meio do texto, quando exploramos um dos quatro problemas que os vieses cognitivos nos ajudam a resolver, o problema da falta de significado, identificamos alguns vieses que se encaixam nessa definição:

Imaginamos que elementos e pessoas com as quais somos familiarizadas ou temos afeto como melhores do que elementos ou pessoas com as quais não somos familiarizadas ou não carregamos afeto. Similar à frase acima, os preenchimentos automáticos, incluem suposições “de fábrica” sobre a qualidade e o valor do objeto a que estamos olhando.

Vieses como o “efeito Halo” são parte dessa questão. Será que Lyons e Weilan não estariam superqualificando histórias a partir de um gosto pessoal? Uma valoração subjetiva do que merece uma certa alcunha?

O curso de storytelling da Pixar, presente de graça no site Khan Academy, faz uma definição bem diferente de história – e bem mais simples:

[história é] uma sequência de eventos que se desenvolvem ao longo do tempo.

Simples assim.

Essa ideia já fortaleceu a suspeita de que a minha sensação de desconforto com a separação entre história e situação era, ao menos, razoável. No mínimo eu poderia dizer “Bom, eu tenho a Pixar ao meu lado”.

Mas eu não sabia definir que tipo de história seria o que Weiland chama de situação, como Indiana Jones. Ainda permanecia em mim um apreço por arcos de personagem, um viés que eu posso não ter carregado para a definição de história, mas que afetava como eu as entendo.

Só fui compreender essas histórias “situações” escutando alguns episódios do podcast Write Your Screenplay. Escuto-o há algum tempo e comecei a referenciá-lo bastante por aqui. Não é à toa, vai escutar.

Vou indicar os dois episódios que precisei para sedimentar o entendimento. Um sobre Manchester à Beira-Mar, outro sobre “Perdido em Marte“.

Peraí, Manchester à Beira-Mar e Perdido em Marte tem algo em comum? Sim. Indiana Jones também.

Jacob Krueger, o professor e autor do podcast, os chama de “Test movies”, filmes “teste” em tradução livre.

Essas histórias, que Weiland e Lyons chamariam de situações, não apresentam protagonistas que passam por transformações. Em essência eles não mudam, não querem mudar ou não conseguem mudar. Não há jornada emocional para os protagonistas, ao menos não no sentido de passarem por uma transformação, se tornarem alguém diferente.

Eu gostaria de usar outro filme de exemplo, mas não consigo pensar em uma ilustração melhor do que Perdido em Marte.

Mark Watney (Matt Damon) é um super engenheiro com um super bom humor e está em uma situação impossível. Ele faz parte de uma missão tripulada à Marte e, por conta de uma tempestade monstruosa, a missão é abortada. Na tentativa de saída do planeta, um acidente quase mata Mark e faz com que a equipe precise partir sem ele.

Perdido em Marte cena 1
#PraCegoVer: Mark soterrado pela areia marciana, após o acidente que sofreu.

É uma situação impossível. Sobreviver um dia em Marte já seria incrível após ter seu corpo perfurado e desmaiar em meio à aridez marciana. Superar esse desafio significaria encarar a sobrevivência em curto, médio e longo prazo em Marte. Tão impossível quanto sobreviver lá seria conseguir retornar à Terra. O acidente acabou com a antena de comunicação. Mark é um náufrago do espaço, absolutamente isolado do restante da humanidade.

Por que Perdido em Marte é uma história?

De início, o livro (obra original) e o filme precisam construir um personagem com o mesmo nível de atenção e profundidade que buscamos ao construir personagens com grandes arcos. O motivo?

Me coloque em Marte. Ou você. A gente não passaria da primeira hora.

Mark passa anos em Marte.

Perdido em Marte cena 2
#PraCegoVer: Mark está agachado, no cnetro da imagem, rodeado por sua plantação de batatas dentro do abrigo em Marte.

Para ser capaz dessa façanha monumental, ele precisa estar equipado de um nível de conhecimento absurdo. Ele também precisa ser construído com uma personalidade tão única que seja capaz de suportar a esse tempo e aos inúmeros obstáculos. As coisas naturalmente já tendem a dar errado ao seu redor. Um dia de alucinações seria o suficiente para matá-lo. Seu bom-humor ímpar não é só uma característica de tom da história, é um item essencial de sobrevivência naquelas condições.

A partir dessa construção, o filme “teste” é desenvolvimento com o máximo de obstáculos possível para testar se essa persona construída é de fato capaz de suportar todo o peso. Falamos sobre a importância de testar o protagonista através de Capitão Fantástico. No entanto, lá há um arco. Há um destino a ser alcançado na jornada e os testes apresentados ao Capitão Fantástico tem uma direção.

Aqui, os testes precisam apenas ser maiores e maiores e mais e mais difíceis. Cada vez mais impossíveis. A junção de personagem + trama nesses casos cria uma entidade única. O protagonista é necessariamente a única pessoa capaz de passar por aqueles testes e sobreviver.

Perdido em Marte cena 3
#PraCegoVer: Mark de costas para a tela, vestindo a roupa de astronauta, sentado ao centro sobre uma pedra, encarando o vazio em Marte, à sua frente.

Essa soma gera nossa identificação. Podemos passar algumas horas acompanhando um conjunto de eventos completamente distante de nossa realidade sob a pele de alguém único. Não nos identificamos com o personagem porque se parece conosco ou porque a situação de sua vida se parece com a nossa. Nos identificamos porque só ele poderia estar ali e só através dele podemos ter aquela experiência.

Manchester à Beira-Mar utiliza essa estrutura de filmes “teste” de forma invertida. Lee (Casey Affleck) tem a construção de um “fantasma”, como define Weiland. A morte de seus filhos, a culpa que carrega devido a negligência que causou o incêndio.

Os testes de Lee são em uma direção positiva, porque ele é um personagem em uma posição única de melancolia. Ele está preso ao fundo do poço. O filme o tempo todo pergunta se é possível que esse homem rasteje de volta à superfície. O testa com oportunidades de conexão ou redenção. Teste após teste, ainda que ocorra um mínimo de mudança em Lee, a resposta é não. Ele nunca superará seu fantasma.

Esse exemplo mostra como os filmes “teste”, que Weiland chamaria de situações por não apresentarem transformações nos personagens, também se encaixam com a definição de história que ela própria usa.

Situações nos entretém; histórias nos entretém e nos ensinam o que significa ser humano.

Perdido em Marte nos ensina algo sobre o ser humano em uma situação tão extrema, mesmo sem que Mark Watney passe por uma transformação. Manchester à Beira-Mar nos ensina algo sobre o luto ou a culpa, mesmo sem que Lee alcance algum tipo de redenção.

Talvez as histórias estejam muito mais dentro de nós do que nas palavras dos livros e cenas dos filmes. As sequências de eventos estão lá. Mas a jornada emocional depende de nós. Ela só existe junto ao espectador, que absorve e constroi significados junto à história.

P.S.: Um exemplo de filme “teste” acabou de me bater aqui. Não é bem um filme. É um livro. Bem antigo. O livro de Jó, parte do Antigo Testamento da Bíblia. A estrutura de Jó circunda um debate teológico, mas esse debate surge de uma sequência de testes a que Jó é submetido. Testes que somente Jó seria capaz de suportar e permanecer com a fé em Deus inabalada, na interpretação bíblica. Você chamaria a história de Jó de “situação”? Eu não…

De que outras histórias com essa estrutura de teste você consegue lembrar? Diz aí nos comentários!


A imagem de capa pode ser vista em sua fonte nesse link.

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Roteirista, apaixonado por narrativas. Editor do Além do Roteiro, também na Revista Subjetiva.